Blog GovTech http://govtech.blogosfera.uol.com.br Acelerar ideias e estimular uma cultura voltada para a inovação do setor público. Sat, 28 Mar 2020 07:00:10 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 O que empreendedores já disponibilizaram para combater o coronavírus http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/03/28/a-forca-da-acao-coletiva-empreendedores-estao-ajudando-a-combater-virus/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/03/28/a-forca-da-acao-coletiva-empreendedores-estao-ajudando-a-combater-virus/#respond Sat, 28 Mar 2020 07:00:10 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=686  

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Na semana passada, falei sobre as lições que aprendi com a epidemia de coronavírus. Uma delas tem sido de longe a mais impactante. A profunda crise que vivemos e os efeitos que ainda estão por vir me fazem crer que é nos momentos de maior dificuldade que nós, seres humanos, conseguimos demonstrar a nossa verdadeira natureza. E ela está presente nas diversas ações de solidariedade, na confiança e cooperação que temos visto entre pessoas, empresas e nações nos últimos dias.

São muitos os exemplos da potência que essa combinação traz, especialmente considerando todos os trabalhadores que mantêm a sua rotina neste período. As equipes de profissionais da saúde – médicas, enfermeiras, psicólogas, fisioterapeutas – têm trabalhado cotidianamente para promover o bem-estar daqueles que foram atingidos pela doença ou pelo temor que ela tem causado. Diversos países têm compartilhado pesquisas, técnicas e estratégias para enfrentar os impactos do coronavírus. Isso sem falar nos milhares de profissionais que garantem a manutenção de serviços essenciais: agentes da segurança pública, assistentes sociais, coletores de resíduos e os trabalhadores do comércio, como supermercados e farmácias. 

Os empreendedores sociais também fazem parte dessa corrente e eles têm sido fundamentais para enfrentar os desafios dos governos, inclusive em momentos de profunda crise.

Brasil, país de empreendedores

O Brasil é um dos países com maior número de negócios estabelecidos, de acordo o ranking Global Entrepreneurship Monitor (GEM), para os anos de 2019/2020. Segundo dados da Mckinsey, 39% da força de trabalhadores entre 18 e 64 anos é empreendedora em nosso país. Também somos referência quando o assunto é empreendedorismo de impacto, ou seja, negócios que não só geram lucro, mas trazem benefícios coletivos. Um levantamento do Sebrae/PNUD, do ano de 2017, indica que havia mais de 800 empreendimentos em nosso país nessa categoria. 

Não há como negar: nós temos uma veia empreendedora e uma vocação para enxergar oportunidades nas mais diversas áreas. 

Há 20 anos trabalho no universo do empreendedorismo e pude acompanhar as trajetórias de nascimento e crescimento de diversas organizações. Sempre me chamou a atenção como a inventividade, a resiliência, a coragem e a paixão são ingredientes presentes entre aqueles que se dedicam a atividade de construir negócios e fazê-los prosperar em contextos quase sempre pouco estimulantes e favoráveis. 

Desde que fundei o BrazilLAB, em 2015 – e também virei uma empreendedora da pauta GovTech – tive a oportunidade de conhecer as soluções apresentadas por startups que, não só se dedicam a enfrentar os desafios de iniciar um novo negócio, mas decidem fazê-lo junto ao setor público. E os últimos dias também têm me mostrado como esses empreendedores e empreendedoras estão comprometidos com o bem-público.

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Inovação, tecnologia e solidariedade para combater a pandemia

A força empreendedora tem se mobilizado para enfrentar o coronavírus no Brasil. 

Temos visto diversas empresas se reorganizando para ofertar bens e serviços essenciais, seja a produção de respiradores – como é o caso da Tesla – a criação de fundos de emergência para pequenos empreendimentos – como fez o Facebook – ou a entrega de álcool em gel para hospitais – uma iniciativa liderada pela Ambev. 

E as startups também têm participado desse esforço conjunto. É o que mostra a Associação Brasileira de Startups (ABSTARTUPS), que criou a campanha #StartupsVsCovid19. A partir dela, já foram mapeadas mais de 60 empresas que desejam doar suas soluções para as mais diversas áreas: de trabalho remoto e colaborativo, passando por plataformas para compras em supermercado, até assessoria jurídica. 

Outra iniciativa está sendo liderada pelas startups Colab e Epitrack. Juntas, elas criaram o Brasil sem Corona, um movimento que tem como base a estratégia de vigilância epidemiológica colaborativa. Ao fazer o download do aplicativo Colab (disponível para Android e iOS), qualquer cidadão pode reportar informações sobre si, por exemplo, se está com sintomas do covid-19, ou se teve contato com alguma pessoa doente. Essas informações são sistematizadas e poderão informar os serviços de saúde sobre a doença. 

Nos últimos dias, o BrazilLAB também tem estado em diálogo com sua rede de empreendedores. São GovTechs buscando oferecer suas soluções gratuitamente, especialmente aquelas que atuam no ramo das healthtechs – startups com soluções para a saúde pública. 

Como a Up Saúde, que está atuando junto aos municípios, com salas de situação e serviços de monitoramento, teleconsultoria e teleorientação para a população. E a Universaúde, que compartilhou sua ferramenta de chat online para tirar dúvidas da população sobre a doença – e está disponível 24 horas por dia. Ou ainda a Red Fox Tech que liberou acesso gratuito à sua plataforma de gestão de agenda e comunicação com o corpo médico para todas as instituições de saúde que precisem de ajuda na organização de plantões e escalas médicas.

Diversas entidades da sociedade civil também têm se organizado para contribuir com ações neste momento de crise. É caso da União SP, uma iniciativa que congrega diversos atores em prol de doações que serão convertidas em cestas básicas de alimentação e higiene. Iniciativa semelhante vem sendo desenvolvida na cidade do Rio de Janeiro pelo Banco da Providência, Instituto Ekloos e Instituto Phi. As três organizações lançaram o movimento Rio Contra Corona. As doações em dinheiro são destinadas para a compra de cestas de produtos básicos que serão distribuídas para moradores de mais de 15 comunidades cariocas.  

Há também ações especialmente direcionadas para os municípios, que serão grandes afetados pela epidemia. Liderada pelo Impulso Gov, IEPS e Arapyaú, o Corona Cidades é uma ferramenta prática que orienta sobre as principais medidas a serem tomadas no combate ao vírus em um formato “passo a passo”. Além disso, são apresentados exemplos de boas práticas, como a criação de um gabinete de crise, estratégias de comunicação junto à população e ações específicas de saúde e assistência social. 

São informações, serviços e produtos que estão salvando vidas. 

A união é a nossa maior força

Continuo a acreditar que não podemos estar sozinhos nesse difícil momento que vivemos. E tampouco sairemos dele sem um trabalho conjunto e coordenado. Cada minuto e cada ação são preciosos para mitigar os efeitos perversos da pandemia. 

As boas experiências têm surgido com uma velocidade e disposição surpreendentes e precisamos canalizar toda a força empreendedora em prol das ações de enfrentamento ao covid-19. 

A participação de cada um e de todos nós nunca foi tão importante. 

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Oportunidades na crise: 5 lições que aprendi com a pandemia de coronavírus http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/03/22/as-5-licoes-que-aprendi-com-a-pandemia-de-coronavirus/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/03/22/as-5-licoes-que-aprendi-com-a-pandemia-de-coronavirus/#respond Sun, 22 Mar 2020 07:00:33 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=669

As crises também podem ser valiosas oportunidades para aprendizado (Freepik)

O coronavírus tem dominado a pauta das mídias internacionais e nacionais nos últimos dias. Toda a programação foi alterada para que seja possível transmitir a maior quantidade de informação segura e útil para o combate ao vírus. Uma medida responsável e valiosa quando a conscientização e prevenção podem representar a diferença entre saúde ou doença – e, no limite, vida ou morte. 

Mas não é somente nos jornais que a pandemia se transformou na pauta do momento. A disseminação do coronavírus é tema onipresente em quase todas as conversas que tenho tido nos últimos dias, seja com adultos, pessoas idosas, adolescentes – e também crianças pequenas, o que exige um cuidado especial para comunicar sem gerar trauma. 

Retomando minhas memórias, não consigo lembrar de ter vivido algo que tenha tido tamanha intensidade, participação e o envolvimento de todos os países do planeta. Ainda temos um longo caminho a trilhar, mas a visão de curto prazo nunca foi tão importante: as medidas tomadas nas próximas semanas serão decisivas para definir a saúde e o futuro de toda a população. 

Como alguém que trabalha com políticas públicas, tenho tentado analisar a situação atual em busca de aprendizados. Estou segura de que conseguiremos, coletivamente, superar esse momento de angústias e incertezas, e será muito importante compreender nossos acertos e todas as questões que devem ser aprimoradas, especialmente se quisermos pensar em estratégias preventivas e não somente reativas – como abordei no texto da última semana. 

E com esse olhar de que toda crise também gera uma oportunidade, compartilho as 5 lições que aprendi com a epidemia do coronavírus – pelo menos, até agora. 

1. A principal defesa contra a doença é a informação

Essa talvez seja a primeira epidemia que vivemos na era das fake news – o compartilhamento de mensagens falsas ou sem fonte confiável nas redes sociais ou celulares. São incontáveis as mensagens que já recebi até agora: seja de métodos mirabolantes e sem base científica que podem ser utilizados para combater a doença, até avisos alarmistas sobre os efeitos irreversíveis do coronavírus. 

Pelo menos no Brasil, as instituições públicas parecem ter identificado a importância de combater mais esse mal. O Ministério da Saúde, por exemplo, criou uma página específica para desmentir os absurdos que circulam sobre a doença. Além disso, lançou um aplicativo (Coronavírus SUS – disponível para Android e iOS) com diversas informações sobre o coronavírus – uma ferramenta importante e que pode ser acessada do celular

Outras fontes de informação seguras que tenho acessado são as atualizações da Organização Mundial da Saúde, os relatórios da Fundação Oswaldo Cruz, além da cobertura de jornais confiáveis a que temos acesso aqui no Brasil.   

Não custa repetir: compartilhar informações falsas ou que não tenham uma forte base científica compromete os esforços de combate à doença. No limite, podem criar pânico social, algo que não precisamos – e não podemos – lidar neste momento. 

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2. Não há receitas prontas para combater a pandemia. Ainda assim, podemos aprender (muito!) com outras nações

Não há “bala de prata” quando estamos falando de um problema complexo como a pandemia do coronavírus. Cada país, região ou cidade tem contextos e necessidades distintas – o que significa que nem tudo o que “deu certo” em determinado lugar também será válido em outro. 

Mesmo assim, precisamos reconhecer que alguns princípios de ação podem ser efetivos para atrasar, controlar e acabar com a doença. É o que têm mostrado os países nos quais o coronavírus chegou já no ano passado, como China, Taiwan e Coreia do Sul, e que têm combinado diversas ações: estratégias não farmacêuticas, uma efetiva coordenação entre diversos órgãos públicos, prevenção e uso aplicado de dados epidemiológicos.

As chamadas estratégias não farmacêuticas parecem ter sido muito importantes para “achatar” a curva de contaminação nesses países. São medidas como a testagem intensa, que permite identificar rapidamente os casos e, em conjunto com o distanciamento social, impedir que mais pessoas fiquem doentes. 

A OMS também tem reforçado a importância de estabelecer protocolos de investigação sobre a disseminação, severidade e impacto da doença. E mais: que essas informações sejam compartilhadas entre os países para que possam guiar medidas para enfrentar o vírus. 

Dentre essas ações, a testagem de possíveis indivíduos doentes talvez seja a mais importante – e por isso, destaco um aprendizado somente para ela.

3. “Testar, testar e testar”

No dia 16 de março, o diretor da OMS, Dr. Tedros Adhanom, trouxe uma mensagem bastante clara: os países devem “testar, testar e testar” todos e cada um dos casos suspeitos. 

A testagem é uma das principais estratégias para conter a disseminação dos vírus. Isso porque ela permite que as ações de saúde pública possam ser orientadas por evidências. Perguntas sobre os indivíduos doentes, como quem são, onde vivem e com quem tiveram contato, só são possíveis de serem respondidas com a identificação da maior quantidade de casos possível.  Sem a realização de testes em escala, é impossível rastrear de maneira adequada os casos e garantir o isolamento dos que contraíram o vírus. 

No Brasil, embora a ANS tenha determinado a obrigatoriedade de realização de exames pelos planos de saúde para a identificação dos infectados, eles não têm sido conduzidos de maneira intensiva. Os valores chegam a R$ 250 por teste e somente são disponibilizados com um pedido médico. 

Essa semana, vivi momentos de verdadeiro desespero, já que meu filho menor, de apenas 1 ano e 3 meses, apresentou todos os sintomas da doença. Ao acionar o sistema de saúde da cidade em que moro, percebi que sua capacidade já está estrangulada: diversos laboratórios não possuem mais o kit para teste e a orientação junto à rede pública de saúde é de somente avaliar pacientes internados em hospitais.

Após perambular por várias clínicas, consegui agendar a coleta para o dia 03/04 – daqui a 13 dias – e pelo valor de R$ 250 – absolutamente inacessível para a maioria esmagadora da população. 

A boa notícia é que a Fiocruz tem trabalhado para a produção de 30 mil testes que deverão ser distribuídos para laboratórios públicos e de referência em todo o país. Certamente precisaremos aumentar esse número, mas já temos um excelente e rápido começo. Há também startups desenvolvendo soluções para a testagem de casos, como a Hi Technologies, responsável pelo Hilab, que deverá estar disponível para compra a partir do mês de abril. 

Os testes são fundamentais: casos não detectados são a oportunidade perfeita para que o vírus possa ser disseminado e sofra perigosas mutações – não podemos deixar que isso aconteça. 

4. Inovação e tecnologia são grandes aliadas para atrasar, controlar e combater o covid-19

Diversos países têm adotado soluções inovadoras e de base tecnológica para enfrentar a pandemia, seja com o uso de robôs, o desenvolvimento de aplicativos de telemedicina ou a adoção de estratégias de nudge – algo que já discutimos aqui

Os bots de telepresença têm sido utilizados em hospitais da China, por exemplo, para garantir o monitoramento de pacientes, a entrega de medicamentos ou nas ações de desinfecção dos equipamentos públicos. É o que promete a solução da UVD Robots, um robô que remove bactérias e vírus de qualquer superfície sem que seja necessário contato humano para a limpeza. 

Outras experiências são os aplicativos de telemedicina, que permitem o atendimento médico remoto, limitando o contato com os doentes, as idas desnecessárias ao hospital, além de garantir a interação entre médicos de diferentes especialidades, que podem trocar conhecimentos e análises sobre casos compartilhados. 

Além disso, por estar disponível 24 horas por dia e 7 dias por semana, a telemedicina pode ser uma ferramenta fundamental para o acompanhamento psicológico da população – uma vez que temos também vivido uma epidemia de ansiedade. 

As ferramentas de telemedicina podem ser preciosas para os esforços contra o coronavírus, como mostra a Doctoralia. A startup tem atuado no Brasil e com sua ferramenta permite a busca e o agendamento de consultas com médicos de múltiplas especialidades. Com soluções como essa, é possível realizar um pré-consulta ou triagem: o médico avalia o paciente por vídeo, pergunta sobre os sintomas e orienta sobre a necessidade de procurar atendimento presencial ou não. 

Há países que têm adotado também insights da ciência comportamental para combater a epidemia. É o caso do Reino Unido que tem as estratégias de nudge como o centro de seu combate ao vírus. Elas são especialmente relevantes para conscientizar sobre o impacto do comportamento individual para o bem-estar coletivo: reduzir a ansiedade que tem nos atingido, construir uma percepção comum e realista sobre os riscos, além de reforçar a importância de medidas de higiene e de distanciamento social.

Não importa a perspectiva – a inovação e as tecnologias têm se mostrado fundamentais para garantir escala, responsividade e efetividade no controle da pandemia.

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5. Não estamos sozinhos: solidariedade, confiança e cooperação são requisitos para vencermos o vírus

Pode parecer uma ideia ingênua, mas a verdade é que não venceremos a crise atual sozinhos e isolados. Isso vale para as nossas relações pessoais, mas também para a dimensão coletiva, ou seja, entre lideranças políticas, institucionais e as nações. 

Temos visto a potência que a solidariedade, confiança e cooperação atingem quando juntas: pessoas idosas – e mais vulneráveis – têm sido gentilmente ajudadas por seus vizinhos nas atividades mais cotidianas, como ir ao supermercado; instituições de pesquisa compartilham os resultados de análises fundamentais para as estratégias de combate e prevenção; e nações que já passaram por experiências semelhantes compartilham seus aprendizados com o intuito de ajudar países com pouca prática ou recursos. 

É verdade que temos muitos e bons motivos para não confiar na ciência, nas instituições e nas lideranças políticas. Foram anos de comportamento irresponsável que comprometeu a imagem pública desses atores – mas o fato é que não podemos vencer sozinhos. É preciso minar todas as possibilidades de sucesso que a doença possa ter – e isso só pode ser feito com a solidariedade entre pessoas, com a confiança nas informações e a cooperação entre nações. 

Essa combinação não pode ser um desejo utópico, mas sim o conjunto de princípios fundamentais e práticos para combater um mal que atinge a todas as pessoas e que desconhece fronteiras ou hospedeiros específicos. 

Que possamos oferecer cuidado, nos cuidar e ficarmos bem ao longo deste desafio coletivo que temos vivido. 

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Como empreendedores estão buscando soluções para enfrentar o coronavírus http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/03/14/coronavirus-empreendedores-buscam-solucoes-para-enfrentar-o-desafio/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/03/14/coronavirus-empreendedores-buscam-solucoes-para-enfrentar-o-desafio/#respond Sat, 14 Mar 2020 07:00:55 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=653

Tecnologia pode ser valiosa aliada na luta contra a pandemia do coronavírus (Freepik)

Nas últimas semanas, todos os países do mundo têm observado com grande preocupação o avanço das contaminações pelo covid-19. Desde o seu surgimento, na China, em dezembro, já foram quase 120 mil casos identificados e mais de quatro mil óbitos, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Os números apontam para um futuro extremamente complexo: a própria OMS declarou que a doença é agora uma pandemia. 

E esse cenário tem transformado a dinâmica de todo o planeta. Eventos internacionais foram cancelados, fábricas pararam suas linhas de produção, escolas e escritórios suspenderam as atividades e unidades de saúde se equipam para receber o fluxo de pessoas doentes que deve aumentar nas próximas semanas. 

O Brasil também entrou para o mapa de países com infectados pelo vírus. Os dados do Ministério da Saúde indicam mais de 1400 casos suspeitos, incluindo aqueles com transmissão local, ou seja, quando há contaminação entre indivíduos que não viajaram para fora do país. 

Medidas para frear, controlar e atrasar a disseminação da doença já vêm sendo tomadas, especialmente aquelas voltadas a fortalecer práticas de higiene e também o isolamento dos indivíduos doentes – a chamada quarentena. Acima de tudo, há uma grande expectativa em torno do desenvolvimento de uma vacina que possa trazer a cura – embora, segundo estimativas, isso deve ser uma realidade somente no ano que vem. 

Neste momento, é fundamental não subestimar a seriedade da doença e de seus efeitos, especialmente sobre o sistema de saúde dos países. Os especialistas em saúde pública têm reforçado a importância de “achatar” a curva de contágio ao longo do tempo. Fazendo isso, poderemos reduzir o “pico” da doença e garantir que hospitais terão as condições para atender a todos os doentes que precisam de atenção médica – sejam eles vítimas do covid-19, mas também, e talvez principalmente, de outras doenças que passam a “competir” pelos recursos existentes. 

Para apoiar esse esforço, empreendedores têm desenvolvido estratégias cada vez mais sofisticadas e de base tecnológica: de inteligência artificial até equipamentos para o diagnóstico da doença. Tudo isso para enfrentar um inimigo invisível e que traz impactos muito reais. 

Epidemias globais e as ações em curso

As pandemias não são uma novidade na história do mundo. Somente no século XXI vivenciamos algumas delas, como a gripe aviária, a Sars e a gripe A (H1N1). O crescimento da população e o intenso fluxo de pessoas entre os países são fatores que potencializam a disseminação dos vírus, sendo quase impossível que não haja uma contaminação a nível global. 

Desde a descoberta do coronavírus, a OMS reforçou as estratégias para conter a disseminação da doença, como o envio de máscaras cirúrgicas e luvas hospitalares para os países que apresentaram infectados. Essas medidas são preciosas para combater o avanço da doença – mas podem e devem ser complementadas por ações mais disruptivas, sobretudo beneficiadas pelas tecnologias emergentes.

Nesse sentido, temos visto experiências interessantes. A Alibaba, por exemplo, gigante do setor de comércio chinês, desenvolveu uma inteligência artificial capaz de diagnosticar infecções pelo coronavírus com 96% de precisão. Outras tecnologias automatizadas têm sido utilizadas no país para envio de materiais, desinfecção de áreas e a realização de diagnósticos básicos sem que haja a necessidade de contato humano direto com indivíduos infectados.

Em Seattle, nos Estados Unidos, a Gates Foundation está financiando o envio de testes que podem ser feitos pelos próprios cidadãos para o diagnóstico da doença. Essa medida é muito importante porque permite que as pessoas possam identificar se estão doentes sem que seja necessário sair de casa – reduzindo, assim, os riscos de contaminação nos hospitais, por exemplo.  

No Brasil, o Ministério da Saúde criou um aplicativo para celular – chamado Coronavírus SUS –  que traz informações precisas sobre sintomas, medidas de prevenção e outros dados relevantes, como unidades de saúde e notícias oficiais. Também tivemos a recente decisão da Agência Nacional de Saúde (ANS) que incluiu o exame de detecção do coronavírus no Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde, a cobertura mínima e obrigatória a que têm direito os beneficiários de planos de saúde privados. Uma outra boa notícia divulgada no começo do mês foi o envolvimento da Fundação Oswaldo Cruz na produção de kits para a realização de 30 mil testes para o novo coronavírus. 

Vivemos a era das fake news e, portanto, não é possível subestimar os impactos negativos da desinformação – sejam eles o pânico social ou a xenofobia. Para combater esse mal, há diversos dashboards online que trazem informações georreferenciadas e com atualização em tempo real. Somente para citar alguns, há o “Novel Coronavirus Situation”, da Organização das Nações Unidas, e a plataforma IVIS, do Ministério da Saúde, que apresenta dados para todo o país, distribuídos por regiões e estados, assim como a indicação de casos suspeitos.

Ainda no campo da informação, a Singularity University, organização de referência no mundo da tecnologia, realizará nos dias 16, 17 e 18 de março o Summit Virtual, um evento online e totalmente gratuito para falar sobre o covid-19, os desafios, soluções e o impacto para a sociedade.

E há também uma busca incessante por dar destaque a soluções já existentes. Dentre elas, o MIT Solve, uma iniciativa do Massachusetts Institute of Technology dedicada a solucionar os principais desafios mundiais a partir da proposição de desafios abertos a pesquisadores, empreendedores e inovadores de todo o mundo. Ela anunciou essa semana o lançamento de um edital voltado para a construção de soluções que possam ajudar a enfrentar pandemias. Segundo os organizadores, “enquanto cientistas e farmacêuticos estão correndo para desenvolver vacinas e tratamentos, há muitas soluções já existentes que podem ajudar a enfrentar esse problemas”. 

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Prevenção como principal bandeira para o futuro

As tecnologias emergentes têm trazido uma contribuição fundamental para enfrentar doenças contagiosas. Elas apoiam as estratégias reativas, ou seja, quando a doença já se instalou e precisa ter seus efeitos controlados e reduzidos. Isso porque todos os esforços – de diagnósticos até o desenvolvimento de vacinas – tendem a ganhar em escalabilidade, responsividade e eficiência – características tão necessárias neste momento.

Tudo isso é muito importante, mas considero que a contribuição da tecnologia deve ir além. As soluções tech podem ser ferramentas fundamentais para a prevenção, adaptabilidade e mitigação  – tudo isso para que não estejamos desprevenidos quando outras doenças surgirem. A prevenção é uma das bandeiras do BrazilLAB, que por dois anos adotou a temática de saúde como uma de suas vertentes do Programa de Aceleração. Buscávamos healthtechs que pudessem promover a prevenção em saúde, elemento tão necessário para garantir a sustentabilidade e reduzir o risco de colapso do SUS no curto, médio e longo prazo. 

E nós já vimos o impacto positivo que a prevenção pode ter, aqui mesmo, no Brasil. Uma equipe de pesquisa do Instituto de Medicina Tropical da USP – formada, em sua maioria, por mulheres, nunca é demais ressaltar – conseguiu realizar o sequenciamento genético do coronavírus em apenas 48 horas. Esse trabalho eficiente e preciso só foi possível porque pudemos investir no desenvolvimento de tecnologias para combater doenças tropicais que atingem o nosso país, como a dengue e o zika vírus – tão graves como o que temos vivido nos últimos dias.

Se há uma realidade é que as epidemias tendem a se tornar cada vez mais presentes em escala global, regional e também local. É o que mostra o interessante documentário da Netflix, chamado Pandemia, no qual são ressaltados os impactos de fenômenos como a disseminação de doenças e o que é preciso para controlá-los e evitar que tomem proporções catastróficas.

É preciso sempre estar um passo adiante.

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Oportunidades e desafios: a tecnologia pode empoderar as mulheres? http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/03/07/oportunidades-e-desafios-a-tecnologia-pode-empoderar-as-mulheres/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/03/07/oportunidades-e-desafios-a-tecnologia-pode-empoderar-as-mulheres/#respond Sat, 07 Mar 2020 07:00:40 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=637

A tecnologia pode ser uma ferramenta para empoderar meninas e mulheres (Pixabay)

O dia internacional das mulheres se aproxima. Muitos questionam a necessidade dessa data ou o real motivo para comemorações. No grupo de WhatsApp da minha família todo ano esse debate acontece: tios, primos, maridos e irmãos desejam felicidades e enaltecem as nossas qualidades como mulheres. Minha mãe e tias agradecem, mas minhas primas, que já são de outra geração, sempre questionam se de fato temos motivos para celebrar, uma vez que muitas mulheres no mundo ainda não têm acesso a direitos básicos, como educação, saúde e trabalho digno. Elas destacam também o quanto pode ser letal ser mulher em nosso país – onde a taxa de feminicídio é a quinta maior do mundo: são duas mulheres mortas a cada 2 horas.

Confesso que vejo muita importância na data, pois considero uma oportunidade para debatermos nosso papel na sociedade, a desigualdade de gênero que ainda prevalece, assim como os avanços obtidos. O dia das mulheres foi oficialmente declarado pela ONU em 1975, marcando um período de lutas feministas no início do século XX, tanto nos EUA quanto na Europa, por melhores condições de vida, trabalho e pelo direito de voto.

Naquela época, por exemplo, as mulheres representavam mais de 70% da mão de obra do setor têxtil, ganhavam menos que os homens fazendo as mesmas tarefas, trabalhavam de 12 a 14 horas nas fábricas e ainda tinham duplas e triplas jornadas: atuando como costureiras em casa e mantendo a responsabilidade pela criação dos filhos e dos afazeres domésticos.

De lá para cá, tivemos grandes conquistas para as meninas e mulheres em diversas dimensões da vida. E tem sido muito bonito ver como cada vez mais a pauta por equidade de gênero tem estado presente em nossas discussões cotidianas, com mais meninas e mulheres vocalizando, compartilhando, atuando e construindo ações para ampliar a participação e valorização feminina nos espaços de poder, sejam eles coletivos ou individuais.

É preciso reconhecer que, mesmo com tantos avanços, ainda temos um caminho longo para garantir que as situações de discriminação, violência, assédio e exclusão não sejam mais uma realidade.

Alguns indicadores nos mostram a magnitude dos desafios que ainda teremos que enfrentar: segundo relatório da ONU Mulheres, nosso salário é 24% menor do que o dos homens. Em todo o mundo, apenas metade das mulheres participa do mercado de trabalho. Existe somente uma mulher a cada quatro parlamentares e, entre as 500 maiores empresas do mundo, menos de 5% possuem CEOs mulheres. No Brasil cerca de 83% dos trabalhadores domésticos são mulheres e quase metade não tem direito a um salário-mínimo.

O direcionador é muito claro: a pauta da equidade de gênero precisa estar cada vez mais presente em todos os lugares. E é fundamental nos conscientizar sobre a importância do empoderamento de meninas e mulheres, de forma a gerar oportunidades de educação, emprego e participação que permitam a todas nós lograr patamares de liberdade e autonomia plena.

Para alcançarmos equidade e maior participação, defendo que a tecnologia pode ser uma ferramenta fundamental para o empoderamento de meninas e mulheres. Há um universo de oportunidades trazidos pela revolução tecnológica – e precisamos aproveitar todas as possibilidades para que participemos de maneira ativa nesse movimento transformador.

Tecnologia como uma grande oportunidade

Estamos vivenciando uma revolução tecnológica em todas as dimensões da vida. As tecnologias estão transformando a forma como fazemos as ações cotidianas – desde as mais complexas até as mais simples. E embora todos sejamos impactados por esse movimento, é cada vez mais evidente que meninas e mulheres não têm ocupado o protagonismo necessário.

Segundo pesquisa da Softex, as mulheres são minoria em posições estratégicas, técnicas e diretivas nas organizações que trabalham com tecnologia, além de receberem 11,05% a menos nas posições relacionadas à Core TI e ocuparem menos de 20% desse mercado de trabalho.

Não há uma razão científica que justifique a baixa participação de mulheres nas áreas de STEM – science, technology, engineer and mathematics (cîencia, tecnologia, engenharia e matemática). Uma pesquisa da McKinsey indica que 47% das estudantes do ensino fundamental demonstram interesse por ciência da computação. Esse indicador cai para 23% no ensino médio e 19% no ensino superior, evoluindo até chegarmos a patamares desoladores: nós, mulheres latinas, representamos 1% da força de trabalho atuando com computação globalmente.

Os dados só confirmam o que observamos todos os dias. As meninas e mulheres perdem o interesse pela área de tecnologia ao longo de sua trajetória de vida, o que me faz perguntar: Por que isso acontece? O que a sociedade não está garantindo para que elas permaneçam e possam prosperar em posições estratégicas nessa área?

Uma questão de desenvolvimento social

(Pixabay)

Garantir a equidade de gênero para meninas e mulheres é um direito humano fundamental. E é também uma estratégia poderosa para garantirmos desenvolvimento social – traduzindo, a melhoria das condições de vida, dos indicadores econômicos e o alcance das tão sonhadas prosperidade e justiça social.

Segundo dados do McKinsey Global Institute, avançar na equidade de participação de mulheres pode contribuir para aumentar em US$ 12 trilhões o Produto Interno Bruto das nações até 2025. Considerando somente o contexto brasileiro, pesquisa da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontou que diminuir as diferenças de gênero no mercado de trabalho poderia aumentar o PIB em 3,3%, ou R$ 382 bilhões.

Somos metade da população mundial e nossa maior participação poderia gerar impactos positivos para todos. Para isso, precisamos garantir a inclusão digital de meninas desde os primeiros anos de vida, assim como ampliar o engajamento e o envolvimento das mulheres em posições estratégicas da área de tecnologia. E mais: a participação de mulheres no mundo da tecnologia traz diversidade e resultados muitos positivos: criatividade, inovação, lucratividade e a redução de viés – um problema cada vez mais presente nesta área.

Há muitas oportunidades em curso, com mulheres se capacitando e requalificando para conquistarem posições com excelente remuneração. Algumas iniciativas nacionais já têm se dedicado a isso, como a Progra{m}aria e a Py Ladies.

A Progra{m}aria se dedica a “empoderar mulheres através da tecnologia diminuindo o gap de gênero no mercado de trabalho”. Ela oferece o curso “eu progr{amo}”, assim como eventos e produção de conhecimento para sensibilizar sobre a pauta. A Py Ladies, por sua vez, “é uma comunidade mundial que foi trazida ao Brasil com o propósito de instigar mais mulheres a entrarem na área tecnológica”. São eventos, publicações e cursos dedicados a fortalecer a pauta, contando com a participação de mulheres de todos os lugares do país.

Estamos nos organizando para ocupar cada vez mais o mundo da tecnologia. E a perspectiva é muito animadora.

Ainda há muito a fazer – e a celebrar

Como fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação no Brasil dedicado à pauta GovTech, pude conhecer a história de mulheres incríveis que, assim como eu, dedicaram suas vidas ao empreendedorismo, à inovação e tecnologia. Temos um poder transformador e um desejo de, cada vez mais, podermos ser protagonistas no tema.

Como mencionei no início do texto, considero o dia 8 de março como sendo importante para refletirmos sobre a participação de meninas e mulheres na sociedade. Aproveitando essa data, no dia 10 de março, próxima terça-feira, realizarei um bate-papo sobre como a tecnologia pode ser um instrumento fundamental para esse protagonismo. E convido você a fazer parte desse momento. As vagas são limitadas e, para entender como participar, visite minhas redes sociais: Facebook  e Instagram.

Termino esse texto com um pensamento positivo: toda a mobilização em torno da pauta de equidade de gênero me enche de esperança e me faz crer que estamos vivendo um momento de profundas transformações para as mulheres e meninas. Acredito que minhas filhas, hoje crianças e cheias de potencial, terão um mundo muito melhor do que aquele que eu vivo e atuo cotidianamente. Seguimos!

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Games também podem contribuir para a atuação dos governos; entenda http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/02/29/games-tambem-podem-contribuir-para-a-atuacao-dos-governos-entenda/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/02/29/games-tambem-podem-contribuir-para-a-atuacao-dos-governos-entenda/#respond Sat, 29 Feb 2020 07:00:07 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=618

Ekkaphan Chimpalee/iStock

Nos últimos anos, os jogos online tomaram conta de nossas vidas. Com a facilidade trazida pelos smartphones, podemos jogar em praticamente qualquer lugar: na fila, enquanto esperamos por atendimento; em casa, depois de um longo dia; e até mesmo durante uma longa viagem.

O universo dos games é também uma indústria muito valiosa. São feiras, campeonatos e eventos que atraem milhões de pessoas e uma quantidade igualmente surpreendente de recursos: no Brasil, segundo dados da PwC, o mercado de games para dispositivos móveis tem uma receita projetada de US$ 712 milhões para 2021.

Além disso, há muito tempo os jogos deixaram de ser um passatempo exclusivo das crianças ou jovens: os games têm se tornado um sucesso entre pessoas de diversas regiões, idades, gêneros e culturas.

A diversão e distração trazidas pelos jogos se combinam ao fato de que cada vez mais tem se tornado difícil manter-se engajado nas atividades diárias. Segundo uma pesquisa da consultoria Gallup, de 2017, apresentada pela OCDE, 85% dos trabalhadores não estão ativamente engajados em suas atividades. Esse mesmo cenário pode ser observado em outros espaços –por exemplo, nas escolas, nas atividades esportivas, na participação política. Não há dúvidas de que a desmotivação tem se tornado uma epidemia mundial.

Mas e se fosse possível trazermos a experiência dos jogos para a “vida real”? E se a estrutura dos games pudesse ser aplicada para ajudar estudantes a se engajarem no processo de aprendizado, pacientes a seguirem o tratamento médico e cidadãos a se comunicarem com os governos e participarem das decisões relacionadas às políticas públicas?

Isso já é realidade. Diversas iniciativas têm aplicado os princípios dos jogos a partir de uma metodologia chamada de gamificação (do inglês gamification). E ela pode transformar o modo como nós interagimos e executamos as mais diversas atividades cotidianas.

 Por que gostamos tanto de jogos?

Freepik

Tente se lembrar da última vez que participou de algum jogo – de cartas, tabuleiro ou esporte. Por definição, sua estrutura cria incentivos para a participação, baseados na lógica de competição e recompensa: um jogo de cartas envolve o ganho de pontos; o de tabuleiros, a lógica de fases, que trazem maiores dificuldades e também mais prêmios; o esporte, por sua vez, implica competição, consigo mesmo ou com outras pessoas.

Todas essas características são instigantes e tendem a estimular a participação, motivar seus participantes e garantir a aderência ao próprio jogo. E o mais interessante é que essas técnicas podem ser incorporadas no desenho de serviços públicos para que eles não sejam mais processos entediantes, cansativos ou traumáticos –mas, ao contrário, possam se transformar em experiências envolventes, interessantes e, por que não, divertidas.

As técnicas de gamificação têm sido aplicadas nas mais diversas áreas, como educação, saúde, nutrição, participação social, trabalho e meio ambiente. São experiências desenvolvidas no Brasil e também em diversas partes do mundo, combinando elementos tecnológicos, como plataformas e aplicativos para smartphones, mas também estratégias mais “analógicas”, como tabuleiros de jogos ou mensagens SMS.

Uma dessas experiências é o Nutrido. Implementado em Abuja, na Nigéria, o jogo tem como objetivo influenciar os hábitos alimentares de jovens em idade escolar. Nada mais é do que um jogo de tabuleiro que tem um sistema de recompensa composto por fichas que podem ser trocadas por frutas ou vegetais vendidos no comércio local. Segundo o IF World Design Guide, pesquisas demonstraram que a participação no jogo fez com que os estudantes transformassem seus hábitos alimentares, passando a incluir mais opções saudáveis em suas dietas.

Outro exemplo é o Cidade em Jogo, uma iniciativa desenvolvida pela Fundação Brava e pelo Woodrow Wilson Center (Brazil Institute). O jogo online trabalha com a lógica de role playing: o jogador assume o cargo de prefeito para decidir quais são as melhores soluções para enfrentar os maiores problemas de sua cidade.

Espera-se que, ao ser responsável por definir as prioridades do governo, fazer a gestão dos recursos públicos e atender às expectativas de seus cidadãos, o jogador-prefeito possa se engajar nas questões relacionadas à vida pública e tornar-se mais politicamente consciente, ampliando sua participação social e política.

O Cidade em Jogo já foi praticado por mais de 25 mil usuários e, em 2018, foi escolhido pelo Observatório do Setor Público da OCDE como um case de sucesso para o engajamento cívico de jovens.

A metodologia de gamificação também tem sido aplicada por startups no Brasil.

A So+ma é um desses exemplos. A organização atua na temática ambiental e criou um programa de vantagens para trocar atitudes por recompensas: ao reciclar o lixo, os participantes acumulam pontos que podem ser trocados por vários prêmios, como cursos, exames, alimentação básica, experiências e descontos em supermercados.

Os resultados são muito relevantes: até 2019, 4.000 famílias já tinham sido beneficiadas, o que gerou uma economia de mais de R$ 100 mil e a reciclagem de quase 300 toneladas de resíduos.

Freepik

No campo das health techs – as startups que atuam na área da saúde – também encontramos vários exemplos da aplicação de gamificação, como a Cuco Health. Ela também foi uma das startups aceleradas pelo BrazilLAB e desenvolveu uma solução para ampliar o engajamento de pacientes que sofrem com doenças crônicas –como diabetes ou hipertensão– ao tratamento médico.

Trata-se de uma “enfermeira digital”: a solução lembra ao paciente a hora de tomar o medicamento, apresenta conteúdos confiáveis sobre a doença, indica hábitos saudáveis, além de permitir o acompanhamento por cuidadores.

A estratégia de gamificação fica por conta dos estímulos e recompensas dados ao paciente: sempre que o tratamento é seguido de maneira adequada, um painel de conquistas e metas diárias é atualizado. Os resultados são muito relevantes: aplicado na cidade de Juiz de Fora (MG), a solução contribuiu para ampliar o engajamento de pacientes no tratamento médico.

Possibilidades ainda a explorar

Há muitas possibilidades, mas também desafios para a utilização das técnicas de gamificação para os serviços públicos. Por exemplo, o desenvolvimento de um jogo é altamente complexo, envolve conhecimentos técnicos e também muita precisão sobre o problema que se deseja enfrentar.

Ainda assim, não há dúvidas de que a utilização dessa técnica tem mostrado como a motivação e o engajamento trazidos pelos jogos podem transformar os resultados dos serviços públicos. Elas podem ser aplicadas em vários contextos e com diferentes estratégias, seja com o apoio de tecnologias ou não.

Os jogos –e a diversão trazida por eles– podem ser uma poderosa ferramenta de motivação para todas as idades.

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O que já está sendo criado para construir as cidades do futuro brasileiras? http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/02/22/o-que-ja-esta-sendo-criado-para-construir-as-cidades-do-futuro-brasileiras/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/02/22/o-que-ja-esta-sendo-criado-para-construir-as-cidades-do-futuro-brasileiras/#respond Sat, 22 Feb 2020 07:00:46 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=604

Para construir cidades do futuro é preciso começar hoje (Pixabay)

Na última semana a consultoria Macroplan publicou os resultados da pesquisa anual “Desafios da Gestão Municipal”, que analisa as 100 maiores cidades brasileiras – municípios com mais de 273 mil habitantes – e que resultou na construção de um índice para avaliar as dimensões de saneamento e sustentabilidade, saúde, educação e segurança. Em cada uma delas, foram analisados indicadores que descrevem a situação das cidades – por exemplo, esgoto tratado, taxa de homicídios, mortalidade infantil e o desempenho dos estudantes no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB).

Os resultados do Índice de Desafios da Gestão Municipal (IDGM) demostram os efeitos da crise que temos vivido: embora a série histórica dos últimos 10 anos aponte avanços positivos, a análise do último ano indica que houve piora no desempenho em quase metade das cidades analisadas – especialmente nas áreas de saúde e segurança.

Piracicaba, cidade do interior de São Paulo, ocupa a primeira posição no ranking geral. As demais colocadas foram: São José do Rio Preto (SP), Maringá (PR), São José dos Campos (SP) e Jundiaí (SP). A pesquisa traz conclusões sobre a importância das cidades, as disparidades entre as regiões do país, além de insights sobre as medidas necessárias para transformar as zonas urbanas em melhores espaços para vivermos.

As cidades são essenciais para o país. Segundo dados do IBGE de 2015, quase 85% da população brasileira vive nesses espaços, e elas são responsáveis por grande parte da produção econômica e pelo acesso a serviços públicos e privados que podem garantir a qualidade de vida das pessoas.

Também é verdade que os desafios enfrentados por quem reside nas cidades são gigantescos. Na semana passada, aqui mesmo na região metropolitana de São Paulo, vivemos momentos de grande tensão. Uma tempestade provocou o transbordamento de rios, o deslizamento de terras e transformou a dinâmica da cidade por vários dias. Essa cena, vivida em São Paulo e outras metrópoles do país, infelizmente, já não é novidade.

E tampouco há somente um motivo para que isso aconteça já que, como todo problema complexo, vários fatores estão envolvidos – desde o processo de urbanização desordenado até o baixo acesso aos serviços de saneamento básico.

Embora o cenário seja extremamente complexo, os resultados da pesquisa “Desafios da Gestão Municipal” demonstram que há experiências de sucesso entre as cidades brasileiras, nas quais a gestão pública tem como foco melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, ao mesmo tempo em que se torna mais eficiente. Para isso, a tecnologia cumpre um papel essencial.

A cidade de São José dos Campos, uma das primeiras colocadas no ranking, é um bom exemplo de como a agenda de governo digital tem contribuído para a melhoria dos serviços públicos. A gestão municipal tem implementado a solução Gesuas – que foi acelerada pelo BrazilLAB – e hoje está presente em todas as regiões do país com mais de um milhão de usuários ativos. O sistema permite otimizar a gestão dos serviços da assistência social, trazendo maior agilidade e precisão nas informações.

(Pixabay)

Soluções digitais que estão surgindo

Um dos temas trabalhados no 4° ciclo do Programa de Aceleração do BrazilLAB é Smart Cities e Urban Techs. A partir desta vertical, buscamos startups que apresentem soluções para construir cidades mais sustentáveis, justas e eficientes.

Uma dessas soluções foi apresentada pela Sipremo, startup que desenvolveu uma inteligência artificial capaz de prever quando, onde e qual evento meteorológico ou desastre natural pode acontecer em determinada região – e o melhor, com horas de antecedência.

Outra startup acelerada pelo BrazilLAB e com solução para a gestão das cidades é a CityTech, que criou a Urban Insights, uma plataforma de deep learning – que é um tipo de inteligência artificial – para conseguir interpretar o que uma cidade “sente” por meio das manifestações dos próprios cidadãos. Para isso, ela aproveita as manifestações e opiniões publicadas nas redes sociais – como Twitter, Facebook, blogs, entre outras – para medir e gerar insights que possibilitam aprimorar os serviços públicos.

E há também a Atman Systems, startup que atua no gerenciamento de trânsito, controle de tráfego e mobilidade urbana. Sua solução, a Attlas, já foi implementada em quatro estados brasileiros e, a partir do uso de inteligência artificial, pode gerenciar o tráfego de veículos com base em informações de sensoriamento produzidas em tempo real. Na prática, são semáforos inteligentes que podem alterar a sua programação para responder, por exemplo, a eventos pontuais e inesperados que influenciam o fluxo de carros. Uma excelente ideia para uma cidade que tem 7,4 veículos para cada 10 habitantes – como é o caso de São Paulo.

Mais do que nunca, a pauta das cidades deve estar na agenda dos governos, da sociedade e da iniciativa privada. A tendência é que a vida nas zonas urbanas se torne cada vez mais complexa e excludente, caso não sejam realizadas mudanças na forma como se faz a gestão dos recursos e das demandas das grandes metrópoles.

A boa notícia é que para essa árdua tarefa, as tecnologias digitais e a inovação aplicadas ao governo são poderosas ferramentas para aprimorar a gestão das zonas urbanas: elas ampliam a disponibilidade de dados, permitem o monitoramento contínuo dos serviços, além de fortalecer a capacidade de atendimento, a simplificação dos processos e o aprimoramento da qualidade e da agilidade dos serviços públicos.

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Startups bilionárias: vocação do Brasil favorece crescimento de unicórnios http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/02/15/unicornios-startups-que-valem-bilhoes-e-mostram-o-brasil-que-da-certo/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/02/15/unicornios-startups-que-valem-bilhoes-e-mostram-o-brasil-que-da-certo/#respond Sat, 15 Feb 2020 07:00:27 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=586

Pixabay

Há algum tempo os unicórnios deixaram o posto de criaturas místicas dos contos de fadas para se tornarem figuras reais. É assim que são chamadas as startups avaliadas em US$ 1 bilhão ou mais – e elas têm se tornado cada vez mais presentes em todo o mundo.

2019 foi o ano dos unicórnios no Brasil. Nada menos do que 5 startups unicórnio nasceram nesse período. E é muito provável que você conheça ou já tenha até mesmo utilizado os produtos e serviços ofertados por elas: a Loggi, empresa de transporte; Gympass, que criou um plano para utilização de academias; QuintoAndar, que atua no ramo de compra e aluguel de casas e apartamentos; a Ebanx, de pagamentos e, por último, a Wildlife, estúdio de games. 

Muito mais do que representar o sucesso individual de empreendedores que conseguiram erguer grandes impérios, muitas vezes “do nada”, o crescimento de unicórnios é um indicador muito poderoso para o ecossistema empreendedor. Significa que ele está avançando em maturidade, escala e inovação. E esse movimento só tende a crescer. 

O universo das startups e dos unicórnios

No Brasil, o termo startup só se popularizou no fim da década de 90, para nomear uma empresa jovem, com um modelo de negócio inovador e uma ideia disruptiva com grande potencial de produzir lucro. Essa definição se mantém até hoje e engloba também importantes princípios, como a sustentabilidade, a rapidez e a flexibilidade.

Há startups nas mais diversas áreas – fintechs, agritechs, lawtechs, edtechs e as já conhecidas govtechs. Todo unicórnio é uma startup, ainda que o contrário não é verdade.

Para que as startups iniciem sua operação, já que ainda não têm faturamento ou lucro iniciais, elas precisam de investimento, muitas vezes realizado por fundos de venture capital. Em tradução literal, seria algo como “capital de risco” – afinal, os investidores, abertos à possibilidade de insucesso, aportam dinheiro em uma ideia que pode vir a ser bem-sucedida. 

O mercado de venture capital tem estado bastante aquecido, e esse, sem dúvida, é um dos fatores que contribuiu para o crescimento dos unicórnios. Segundo estimativas da Associação para Private Capital Investment na América Latina, até o final de 2018, os fundos de private equity (capital privado) e venture capital (capital de risco) somavam US$ 6,7 bilhões no continente – um crescimento de 55% em relação a 2017. 

Ainda, um levantamento da CBInsights indica que há 447 empresas unicórnios no mundo – número que se atualiza constantemente no “The Global Unicorn Club”. Muitas são conhecidas do nosso dia a dia: Airbnb, Cabify, Coursera, WeWork. E onze dessas raridades estão por aqui. 

No Brasil, a primeira a ser considerada um unicórnio foi o aplicativo de transporte urbano 99. Uma das mais conhecidas é o iFood, a plataforma para pedido de comida de restaurantes, que em pouco tempo tornou-se o maior aplicativo de delivery de alimentos da América Latina, com mais de oito milhões de pedidos por mês e valor estimado em US$ 2 bilhões. No mundo das fintechs, somos o berço da Nubank – considerado um dos maiores bancos digitais do mundo, mesmo atuando apenas no Brasil – da processadora de pagamentos Stone – conhecida pelas maquininhas verdes de cartão de crédito – e da PagSeguro, que alcançou aproximadamente US$ 2,3 bilhões com a venda de suas ações. A Movile completa a lista: é uma startup de venture capital, ou seja, investe em negócios promissores e de risco.  

Teremos govtechs unicórnio no Brasil?

Freepik

Essa é a pergunta de 1 bilhão de dólares. Ainda não temos uma govtech unicórnio no Brasil, embora a grande maioria das startups possa modelar seu negócio para uma atuação B2G – ou seja, business to government – ou atuar em colaboração com o governo. Por exemplo, aplicativos como Waze ou Uber podem ser ferramentas poderosas para pensar a mobilidade urbana, sobretudo em grandes cidades, graças à quantidade inimaginável de informações que eles dispõem. 

Há vários fatores que dificultam o surgimento de unicórnios govtech. Primeiro e mais importante, a dimensão cultural: o setor público é quase sempre visto como um espaço difícil de atuar, em que há burocracia em excesso e baixa propensão a inovar. Não é, portanto, a primeira opção dos empreendedores das startups. Transformar essa imagem tem sido a pauta de atuação do BrazilLAB, organização que busca conectar empreendedores e o setor público para, juntos, construírem soluções tecnológicas e de impacto. 

As govtechs também quase nunca são foco de investimento. Assim, é necessário haver fundos de capital de risco formados por investidores ávidos por criar impacto e transformação social. Ganham todos: as startups, por terem condições para financiar sua operação; investidores, que podem ter o retorno de seu investimento, assim como a sociedade, que terá à sua disposição políticas públicas potencializadas pela inovação. 

Futuro promissor

O crescimento de unicórnios no Brasil é um fenômeno que tende a se consolidar nos próximos anos. Segundo dados da Crunchbase Unicorn Board, o Brasil foi o  maior criador de unicórnios em 2019 – estando atrás dos Estados Unidos e China. 

Além disso, nosso país tem sido referência na América do Sul, juntamente com a Colômbia, no mercado de investimentos de risco em ascensão: embora os valores investidos não sejam comparáveis aos dos EUA – que, em 2019, levantaram mais de US$ 100 bilhões de investimentos em startups – temos progredido de maneira constante, aumentando o volume de transações de US$ 1,37 bilhão para US$ 2,47 bilhões. Precisamos, agora, garantir a ampliação e, mais ainda, a diversificação deste investimento.

As startups unicórnio são símbolo da nossa natureza empreendedora e representam um Brasil que dá certo. E podemos aproveitar essa vocação para estimular os empreendedores a construir soluções para o setor público. 

E há muito espaço para criarmos unicórnios, decacórnios e, quiçá, hectacórnios no setor público: ele é responsável, sozinho, por 40% do Produto Interno Bruto do país. Além disso, segundo estimativas apresentadas no GovTech Summit de Paris, o mercado de startups vendendo soluções para governos deve valer US$1 trilhão até 2025. 

Parafraseio aqui Uri Levine, CEO do Waze – e que esteve no evento GovTech Brasil organizado pelo BrazilLAB: para trabalhar com o setor público, “é preciso se apaixonar pelos problemas e não pelas soluções”. O desafio é grande, é verdade, mas a recompensa é maior ainda.

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Universidades apostam no ensino de inovação. Brasil seria uma referência? http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/02/08/e-possivel-ensinar-inovacao-em-sala-de-aula-universidades-apostam-que-sim/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/02/08/e-possivel-ensinar-inovacao-em-sala-de-aula-universidades-apostam-que-sim/#respond Sat, 08 Feb 2020 07:00:56 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=570  

Inovação e governo digital se ensina e se aprende na universidade (Pixabay)

Já não é novidade que o modelo de ensino tradicional está ultrapassado e precisa se adaptar às mudanças tecnológicas e à demanda por novas habilidades e competências dos profissionais. Por sorte, diversas instituições de ensino estão atentas a esse movimento e têm se dedicado ao ensino da inovação em suas salas de aula. 

Não à toa, as universidades são um dos principais ingredientes para o nascimento de startups. Muitos afirmam, por exemplo, que o sucesso do Vale do Silício se deve à Universidade de Stanford, de onde saem os principais especialistas em tecnologia da região. No Brasil, a USP e FGV formaram os empreendedores responsáveis por sete das startups unicórnios de nosso país – aquelas empresas que são avaliadas em mais de US$ 1 bilhão. 

E as universidades também têm se dedicado a formar uma base sólida de profissionais aptos a desenvolver inovação nos governos. Esse é um esforço essencial, já que se o número de especialistas capacitados não crescer, o Brasil não conseguirá implementar a transformação digital que tanto deseja e precisa. 

Experiências no Brasil e no mundo

A experiência de maior destaque no ensino de inovação para governos vem de um país que já é referência no tema de governo digital. A Tallinn University of Technology, da Estônia, oferece o mestrado em ciência da inovação no setor público e e-governance (Master of Science in Public Sector Innovation and e-Governance). O programa, implementado em parceria com universidades da Alemanha e da Bélgica, busca formar profissionais combinando conhecimentos de administração pública, tecnologia e governança. 

Outras experiências têm sido desenvolvidas também em diversos países do mundo. Por exemplo, a University of Technology Sydney, na Austrália, possui um programa específico para certificação em inovação no setor público (Graduate Certificate in Public Sector Innovation). De forma parecida, a Hertie School, na Alemanha, oferece um mestrado em administração pública, com foco em inovação para governos, política tecnológica e transformação digital. Já a Harvard Kennedy School, referência internacional na formação de gestores públicos, possui um programa específico para a formação em transformação digital dos governos (Digital Transformation in Government).

No Brasil, o cenário é bastante diferente. As iniciativas existentes ainda não são numerosas e consolidadas. Em sua maioria, elas estão concentradas em instituições privadas ou destinadas a públicos específicos. Além disso, são cursos de curta duração e não formações mais extensas e realizadas por projetos, o que permitiria que estudantes possam aplicar as metodologias aprendidas em sala de aula. 

Ainda assim, a mudança começa a acontecer, com experiências como o curso de inovação e transformação no setor público, oferecido pelo Insper, assim como pela Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), que realiza o curso de gestão da inovação governamental. 

Pixabay

O desafio começa na educação básica

O ensino de inovação e tecnologia nas universidades é uma medida muito importante, mas se quisermos mudanças de longo prazo, precisamos de ações que iniciem na educação básica – e que possam atingir crianças e jovens. 

Na Holanda, o governo criou o programa “Geef IT door” que, em tradução literal seria algo como “Passe a TI adiante”. Com a iniciativa, busca-se ampliar o interesse de estudantes em seguir carreiras nas áreas de inovação e digital. O mais interessante é que o programa permite que elas aprendam pelo exemplo: são profissionais voluntários de diversas áreas de TI que realizam mentorias nas escolas, conversando com os estudantes sobre temas como big data, cibersegurança e programação. Desde 2019, 250 escolas do país já desenvolvem o programa. 

No Brasil, ainda não encontramos um programa parecido em âmbito governamental, mas as startups têm desenvolvido tecnologias educacionais para incluir o ensino de inovação desde cedo na vida das crianças, por meio de bootcamps de programação e também escolas de robótica. Um exemplo vem da MetaMaker, startup selecionada para o  Ciclo de Aceleração do BrazilLAB, e que desenvolveu um kit educacional que permite aprender o básico sobre eletricidade, eletrônica e robótica. A iniciativa vem sendo implementada em escolas públicas de Brasília, de maneira sustentável e a um custo muito acessível: seu kit básico é feito de materiais recicláveis e custa em torno de R$ 120, enquanto produtos similares podem ser comprados por, no mínimo, R$ 900. 

A hora é agora

O Brasil tem a oportunidade de se transformar em uma referência no ensino de inovação e governo digital nas universidades. O contexto atual é muito propício para isso, já que há diversas experiências de inovação acontecendo em estados, municípios e também no governo federal, produzindo casos e resultados relevantes para serem explorados na sala de aula. Isso tudo sem esquecer da formação desde o ensino básico.

Há também a possibilidade de estabelecer parcerias com instituições internacionais que têm desenvolvido programas de formação similares, criando uma rede de troca de aprendizados e experiências. 

Como não poderia ser diferente, a transformação digital só poderá se tornar realidade caso nosso país invista na formação de profissionais altamente capacitados a aplicar tecnologias para solucionar os problemas mais urgentes em nossa sociedade. 

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Netflix, Abbey Road, Masp: tecnologia veio ajudar a democratizar a cultura http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/02/01/de-musica-a-museu-tecnologia-ajuda-a-democratizar-o-acesso-a-cultura/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/02/01/de-musica-a-museu-tecnologia-ajuda-a-democratizar-o-acesso-a-cultura/#respond Sat, 01 Feb 2020 07:00:15 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=560  

O acesso à cultura pode ser democratizado com a tecnologia (Pixabay)

O debate sobre o papel e a importância do acesso à cultura tem sido intenso no Brasil e no mundo. Embora pouco se fale sobre o papel da tecnologia na promoção desse acesso, a área cultural tem sido uma das esferas em que mais percebemos essa transformação. Basta refletirmos sobre o modo como consumíamos música ou entretenimento nas décadas de 80 e 90 e como isso mudou radicalmente: a fita VHS deu lugar aos filmes e séries nas plataformas de streaming, como Netflix; os discos, CDs e MP3 foram substituídos por aplicativos, como Spotify e Deezer e os clipes de músicas que antes assistíamos apenas na TV hoje podem ser acessados a qualquer momento em diferentes canais.

É fato também que nos últimos anos as tecnologias têm ampliado o acesso de pessoas aos equipamentos de cultura, como museus e bibliotecas: já não é preciso sair de casa para ler livros e conhecer diversas obras de arte.

Esse movimento tem estado cada vez mais em evidência: no ano passado, tive a oportunidade de participar do Web Summit, o maior evento de tecnologia do mundo, e lá havia um espaço inteiramente dedicado a discutir como a tecnologia tem transformado o mundo da música. Só para se ter uma ideia do potencial de disrupção, o estúdio mais famoso do mundo – Abbey Road Studio – tem hoje uma incubadora que funciona como um laboratório de inovação musical focado em apoiar startups que queiram repensar o futuro da música. A grande aposta é que a inteligência artificial trará uma nova revolução criativa para a indústria – assim como os sintetizadores anos atrás.

Aqui no Brasil também temos ações interessantes nesse sentido. Em dezembro de 2019, o Museu de Artes de São Paulo (Masp) lançou o aplicativo Masp Áudios para ampliar a experiência de visitantes ao acervo, a partir de realidade aumentada (augmented reality), adicionando informações ao que está sendo visto pelo visitante. Outro exemplo é o da Biblioteca Digital Mundial, um projeto apoiado pela Unesco e que permite o acesso gratuito à publicações históricas e raras de diversos países e instituições.

O papel das startups

Nesse universo talvez o aspecto mais interessante das aplicações tecnológicas seja a democratização do acesso à cultura e o despertar de interesse do público: qualquer museu ou biblioteca tende a ser muito mais atrativo com a utilização de soluções interativas. E as startups que atuam no universo cultural usam as mais diversas tecnologias: realidade aumentada, gamificação, realidade virtual, experiências sensoriais, entre outras. 

Localizada no Museu da Nova Zelândia, a startup Mahuki atuou como um hub de aceleração voltado especificamente para potencializar negócios inovadores em museus e patrimônios culturais. As ArtTechs também estão presentes na Europa, como a Artmo, startup dedicada a conectar o mundo da arte: uma rede social que une o público especializado e interessado, possibilitando o compartilhamento de conteúdo, a troca de experiências e também a compra de obras de arte.

Nesse universo também há espaço para a atuação das GovTechs, startups que oferecem soluções para enfrentar os desafios do governo. 

A Musemio, de Londres, é uma organização dedicada ao ensino cultural de crianças a partir do uso de realidade virtual (virtual reality), possibilitando a interação com os conteúdos de museus de várias nações do mundo. 

Um outro exemplo é a Árvore Educação, startup parceira do BrazilLAB, responsável pela criação da Árvore de Livros, a maior plataforma de leitura digital do Brasil, que conta com um acervo de mais de 30 mil obras on-line. 

A Tamanduá.Edu, startup selecionada para a  edição do Programa de Aceleração do BrazilLAB, é uma outra iniciativa que contribui para o acesso à cultura, pois possui uma plataforma de conteúdos audiovisuais independentes (filmes, séries, curtas metragens) destinada aos alunos do ensino fundamental e ensino médio. A startup criou uma plataforma colaborativa que também disponibiliza conteúdo pedagógico utilizando os filmes como importante insumo de aprendizado e de ampliação do repertório cultural. 

Mas ainda há caminhos trilhar para garantir que a cultura possa se beneficiar de todo o potencial trazido pela conectividade e pela tecnologia.

Desigualdade ainda prevalece

Os exemplos de como a utilização de tecnologias tem transformado a forma como se consome, produz e se divulga a arte estão aumentando com o tempo. Por reduzir as barreiras físicas, de custos e de informação, a internet e as tecnologias contribuíram para democratizar e diversificar toda a cadeia de produção cultural. Ainda assim, alguns desafios permanecem.

Primeiro, é preciso garantir infraestrutura adequada para a utilização das aplicações. Entram nessa lista equipamentos (hardware), mas também conexão de internet – um verdadeiro desafio para o Brasil.

Além disso, é importante transformar o padrão de comportamento e consumo de informações na internet. A pesquisa “Panorama da Transformação Digital no Brasil“, realizada pelo BrazilLAB em parceria com o Center for Public Impact (CPI), destaca que, apesar do brasileiro ficar em média 9 horas conectado a internet, este consumo é concentrado em atividades pouco educativas, principalmente o uso de redes sociais. É preciso investir no letramento digital da população e também na ampliação de repertório, incluindo os conteúdos culturais como objeto de consumo. 

Temos também um longo debate em relação à regulação no campo da cultura. Entram nessa discussão as plataformas de conteúdo em streaming, por exemplo. Se por um lado elas democratizam o acesso às produções musicais e audiovisuais, por outro, concentram e canalizam uma pesada audiência para determinados canais e conteúdos. 

A cultura aliada à tecnologia ainda pode ser considerada um fenômeno tímido, mas não há dúvidas de que está em ascensão e que precisa ser priorizado.

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Nudge influencia nossas decisões. Como o governo pode usar o empurrãozinho? http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/01/25/nudge-influencia-nossas-decisoes-como-o-governo-pode-usar-o-empurraozinho/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/01/25/nudge-influencia-nossas-decisoes-como-o-governo-pode-usar-o-empurraozinho/#respond Sat, 25 Jan 2020 07:00:12 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=544

Nudge: uma importante inovação para apoiar as nossas escolhas (Pixabay)

Na hora do almoço as primeiras opções do buffet são saladas e pratos mais saudáveis; em todas as estações de metrô a mensagem “deixe a esquerda livre” aparece nas escadas; e sou sempre comunicada, via SMS, sobre a minha consulta médica que está próxima. As nossas decisões parecem estar sendo sempre observadas por alguém. São os nudges – e eles vieram para ficar. 

Nudge é um termo em inglês que pode ser traduzido como “empurrão” ou “incentivo”. Ele foi utilizado pela primeira vez por Cass Sunstein e Richard Thaler, esse último vencedor do Prêmio Nobel de Economia, pesquisadores das ciências comportamentais aplicadas. Esse é um ramo da Economia que defende que as nossas decisões nem sempre são realizadas por escolhas racionais ou friamente calculadas. Ao contrário, elas são quase sempre influenciadas por padrões de comportamento, vieses cognitivos, emoções ou mesmo determinadas pelo ambiente em que vivemos e pelas pessoas com as quais interagimos.

E qual é o problema nisso? Bom, o fato é que esses elementos podem nos levar a não tomar as melhores decisões para nós mesmos ou para a nossa comunidade porque não tivemos acesso às informações relevantes que pudessem nos orientar sobre os impactos dessa nossa escolha, por exemplo.

Nesse contexto nasce o nudge, uma metodologia que permite entender o processo de escolha das pessoas, identificar questões existentes e proporcionar algumas mudanças, os “empurrõezinhos”, na estrutura da tomada de decisão. São mudanças sutis que levam a um comportamento decisório mais previsível e positivo – sem limitar a autonomia e liberdade de escolha de cada um. Já aplicada no setor público, o nudge pode contribuir para a geração de transformações concretas mesmo nas escolhas mais simples e cotidianas. 

O nudge nas políticas públicas

O Reino Unido é referência no esforço de trazer o nudge ao setor público. Por lá, foi criada a primeira nudge unit governamental, ou unidade nudge, a chamada Behavioural Insights Team (BIT). Uma das experiências apoiadas pelo BIT foi desenvolvida pela organização GreeNudge, que busca reduzir o desperdício de comida em estabelecimentos comerciais. Para isso, adotaram duas estratégias: reduziram o tamanho dos pratos servidos e afixaram avisos informando que era possível repetir quantas vezes os clientes desejassem. Após implementação deste processo o desperdício de comida foi reduzido em quase 20% sem que houvesse qualquer impacto negativo na satisfação dos clientes.

 

Pixabay

O BIT, em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), também apoiou a elaboração de um kit de ferramentas com estratégias de nudge para apoiar governos no enfrentamento da violência doméstica, um grave problema que atinge quase 30% de todas as mulheres na América Latina e Caribe. 

Com mudanças de baixo custo e alta eficiência, foi possível aumentar o número de denúncias e o engajamento em diversos serviços públicos. Na central de atendimento de El Salvador,ao invés de batizá-la com termos como “apoio às vítimas” ou “auxílio às mulheres em situação de risco”, o serviço foi chamado de “Linha amiga da mulher”, nome com menor carga de preconceito ou estigma.

Um outro exemplo da aplicação de nudge foi relatada pela Bloomberg Philanthropies. Nos EUA, diversas cidades enfrentam um problema silencioso: os operadores da linha de emergência (a chamada 911) sofrem com esgotamento, desmotivação, faltas no trabalho e alta rotatividade. Para solucionar essa questão diretamente ligada à segurança pública, nove cidades implementaram um programa piloto em parceria com o BIT e baseado na metodologia nudge. 

Ao longo de seis semanas, a equipe do projeto pediu que os participantes escrevessem histórias de seu trabalho e também conselhos para novos operadores da linha de emergência. Uma iniciativa de baixo custo, que teve como base princípios do nudge e produziu resultados importantes: ao criar um forte senso de identidade de grupo e da importância do trabalho realizado, o projeto conseguiu reduzir 8 pontos na escala de esgotamento (chamada de burnout) – e esse resultado se manteve mesmo após 4 meses da intervenção.

No Brasil, a Fundação João Goulart foi responsável pela criação da primeira unidade de ciência comportamental aplicada às políticas públicas, a Nudge Rio. Um dos projetos implementados pela organização tinha como objetivo a redução de filas para a matrícula escolar. Para isso, foram realizadas alterações básicas no site, além do envio de mensagens de incentivo e conscientização para os pais. O processo resultou em um aumento de mais de 50% no número de matrículas realizadas online.

E há projetos sendo desenvolvidos por startups! A Movva, govtech acelerada pelo BrazilLAB, é a primeira empresa de nudgebot do Brasil. A solução consiste no envio de mensagens com conteúdos e atividades que buscam apoiar a tomada de decisões, seja no acompanhamento escolar dos filhos, com a Eduq+, seja para o planejamento de finanças pessoais, a partir do Poupe+. Em uma avaliação de impacto conduzida pela Universidade de Stanford, foram identificados os resultados da utilização do aplicativo: em São Paulo, houve um aumento da participação dos alunos de 15% e redução da taxa de reprovação e evasão escolar em 33%.

Estamos sendo controlados?

Há um grande debate ético envolvendo o uso de nudges. Seus críticos afirmam que a metodologia pode manipular a escolha das pessoas, especialmente considerando os desafios que vivemos nesses tempos de fake news.

Esse temor faz bastante sentido, mas deve ser entendido muito mais como um ponto de atenção para o uso responsável dos nudges nas políticas públicas. Uma boa estratégia não é tendenciosa e também não interfere no direito de escolha das pessoas. Ao contrário, ela influencia a arquitetura de tomada de decisão, transformando atos que seriam realizados de maneira automática em um processo de maior reflexão. 

As estratégias de nudge parecem ter vindo para ficar e influenciar diversas políticas públicas. Seus resultados são concretos, rápidos e com baixo custo: tudo o que precisamos para enfrentar os desafios do governo. 

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