Blog GovTech http://govtech.blogosfera.uol.com.br Acelerar ideias e estimular uma cultura voltada para a inovação do setor público. Mon, 10 Aug 2020 07:00:27 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Brasil pode mudar de mau exemplo a líder global pela vacina contra covid-19 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/08/10/uma-otima-noticia-brasil-pode-ser-lideranca-em-vacina-contra-covid-19/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/08/10/uma-otima-noticia-brasil-pode-ser-lideranca-em-vacina-contra-covid-19/#respond Mon, 10 Aug 2020 07:00:27 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=972

Vacina contra a covid-19 começa a se tornar realidade (Freepik)

Desde o início da crise trazida pela covid-19, o Brasil tem figurado de maneira negativa no cenário internacional. Não só somos um dos epicentros da pandemia, como também ilustramos o exemplo amargo de uma condução equivocada de políticas públicas para enfrentar a crise humanitária trazida pelo vírus.

Vemos, diariamente, uma baixa adesão às medidas que poderiam garantir o controle da contaminação, como o isolamento social, além da relativização da gravidade da doença, e também comportamentos oportunistas, descoordenados e irresponsáveis por parte das lideranças políticas em diversos níveis. 

Todos esses desencontros tiveram resultados concretos: somos o segundo país do mundo com o maior número de mortos e os números de vítimas da covid-19 só fazem aumentar diariamente. Isso sem falar nos impactos econômicos e sociais, com uma desocupação média de 14% e a estimativa de que o PIB decresça em 8% até o final do ano. 

Embora o cenário seja difícil, temos a possibilidade de revertê-lo. Enquanto o mundo se volta em busca de uma vacina que possa controlar a pandemia e nos devolver à normalidade –seja ela qual for– somos uma das principais nações no esforço de imunização contra a covid-19. 

Brasil, líder em imunização

O Brasil é referência mundial quando o assunto é vacinação. O Programa Nacional de Imunização (PNI) existe desde a década de 1970 e foi responsável pela erradicação de doenças graves, como poliomielite, varíola e rubéola. Ao todo, ele garante o acesso a 19 tipos de vacinas, desde o nascimento até a idade adulta, de forma gratuita e universal.

O país também é referência na produção de vacinas graças às suas instituições, como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com sua unidade Bio-Manguinhos, e o Instituto Butantan. 

Toda essa potência foi determinante para a escolha do Brasil como uma das nações nas quais seriam realizados testes da vacina contra o coronavírus. Também contaram para a decisão as características do país e o estágio de avanço da pandemia: somos uma nação com população numerosa e disseminação da doença em ascendência. 

Dentre as 26 propostas de imunização que já se encontram na fase de testagem clínica, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), uma delas é altamente promissora e está sendo testada no Brasil: a vacina elaborada pela Universidade de Oxford, em parceria com a farmacêutica britânica AstraZeneca, cujos testes no país estão sendo liderados pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

Há expectativa de que a eficácia da imunização da vacina Oxford-AstraZeneca já possa ser comprovada no ano que vem. Mas isso é só o começo. Isso porque, embora seja decisivo, comprovar a validade do medicamento é apenas o primeiro passo de um longo caminho para garantir que todos tenham acesso à proteção. 

União é força

Diversas medidas têm sido adotadas para possibilitar a produção de uma vacina em larga escala, como a destinação de recursos federais para a Fiocruz/Bio-Manguinhos, além de acordos de transferência da tecnologia entre as instituições. 

E como temos visto ao longo da crise trazida pelo coronavírus, a união de forças também será fundamental para garantir a imunização. Para viabilizar esse esforço, uma coalizão formada por empresas e fundações –Ambev, Americanas, Itaú Unibanco (Todos pela Saúde), Stone, Instituto Votorantim, Fundação Lemann, Fundação Brava e a Behring Family Foundation– se juntaram em uma coalizão para equipar e financiar a infraestrutura necessária à produção da vacina Oxford-AstraZeneca contra a covid-19.

Unindo suas competências técnicas e a doação de mais de R$ 100 milhões, o grupo será responsável pela construção da fábrica brasileira que será integralmente doada à Fiocruz. O investimento incluirá todos os equipamentos laboratoriais e industriais de ponta necessários à operação, e a previsão é que a unidade esteja pronta até o começo de 2021. 

A fábrica é um legado que será doado à Fiocruz e poderá trazer autonomia ao Brasil na produção de vacinas para futuras epidemias –um cenário que vivemos todos os anos, especialmente com as doenças tropicais, como dengue e chikungunya.

Estamos diante de um caso concreto que exemplifica algo que sempre ressalto por aqui: a importância do investimento na ciência e tecnologia e a potência que a parceria público-privada tem para transformar realidades e promover mudanças positivas para toda a sociedade.

Um futuro promissor – mas é só o começo 

Não há como mensurar o impacto positivo que uma imunização contra a covid-19 pode ter para as nações. Os investimentos necessários para a testagem e produção da vacina são pequenos se comparados aos benefícios econômicos e sociais que teremos uma vez que a maior parte da população esteja protegida contra a doença. 

Essa realidade nunca esteve tão perto. Alternativas promissoras avançaram rapidamente e, num esforço sem precedentes, é possível que tenhamos uma vacina já em 2021.

É verdade que os desafios ainda são muitos, assim como as dúvidas e incertezas. Por exemplo, ainda temos que avançar na compreensão sobre a eficácia da vacina para todos os públicos, isso sem mencionar os desafios de produção, envase e distribuição em um país de dimensões continentais como o Brasil. 

Mas não há dúvidas de que estamos diante de uma oportunidade histórica. Podemos nos redimir de nossa atuação desastrosa frente à pandemia, nos tornando uma liderança global em busca da vacina para o grande mal do século XXI. Temos total condição de fazê-lo.

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Nudge: “empurrãozinho” que afeta sua atitude é solução para o pós-pandemia http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/08/01/nudge-para-a-retomada-comportamento-individual-beneficios-coletivos/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/08/01/nudge-para-a-retomada-comportamento-individual-beneficios-coletivos/#respond Sat, 01 Aug 2020 07:00:10 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=952

Cadeira com marcação é um exemplo de nudge. Nudges são o “empurrãozinho” necessário para a retomada pós-pandemia (Freepik)

As últimas semanas trouxeram notícias muito positivas sobre a batalha contra o coronavírus. Com uma velocidade jamais vista antes, instituições de pesquisa e empresas farmacêuticas já desenvolveram potenciais vacinas. No Brasil, elas já estão sendo testadas e as perspectivas são muito promissoras: é bem provável que em 2021 já tenhamos encontrado uma resposta efetiva para a prevenção ao covid-19.

Mas enquanto a ciência tem se desenvolvido e esperamos uma alternativa que nos permita voltar ao curso da vida –seja ele qual for a partir de agora– ainda precisaremos contar com técnicas que já vêm sendo utilizadas há séculos e que podem parecer até mesmo simplórias e nada tecnológicas. 

Refiro-me aqui ao que a Organização Mundial de Saúde (OMS) chama de “respostas não farmacológicas”: o distanciamento social, a higiene correta das mãos e o uso de equipamentos de proteção, como máscaras.

Embora sejam práticas nada sofisticadas, elas dependem de alguns fatores cruciais: que o comportamento das pessoas seja informado, que elas estejam dispostas e também capazes de colocar em prática essas recomendações para a proteção. 

As medidas não farmacológicas, tão fundamentais para frear o avanço da doença nos próximos meses, serão mais efetivas quanto maior a disponibilidade das pessoas em utilizá-las. Elas dependem do comportamento individual, da abertura para cooperar e mudar a forma de agir.

Em outras palavras, por muito tempo ainda, nossa chance de combate ao coronavírus dependerá da soma do comportamento individual para produzir mudanças coletivas que sejam positivas.

Mas como acreditar que essas medidas serão efetivas diante das imagens que vemos diariamente, com pessoas se aglomerando em bares, recusando a utilizar máscaras ou não tendo acesso às condições básicas para higiene pessoal? 

Quando o comportamento dos indivíduos parece ser irracional ou ilógico –afinal, por que não cooperar com regras que podem beneficiar a todas as pessoas?– é preciso investigar e compreender o que os leva a agir de determinada forma. 

Esse é o trabalho das ciências comportamentais e de sua aplicação através de “nudges. Suas contribuições nunca foram tão importantes –e a boa notícia é que há muitos exemplos de como podem ser aplicados. 

Do que estamos falando?

Partindo da constatação de que nem todas as decisões dos indivíduos são racionais ou buscam o maior retorno positivo possível, as ciências comportamentais se dedicam a compreender o padrão de comportamento dos indivíduos e, a partir desta investigação, trazer insights –ou seja, ideias e propostas– de como é possível aprimorar a estrutura de escolha para ampliar os benefícios individuais ou coletivos. 

As ciências comportamentais indicam que, em cada decisão que tomamos, somos influenciados por vieses cognitivos. Um viés cognitivo é um padrão de pensamento específico que distorce nossa percepção da realidade. 

No contexto da pandemia, um levantamento liderado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) identificou alguns desses vieses, especialmente entre o público mais jovem:

  • O “viés otimista”, presente entre pessoas que tendem a subestimar o risco do vírus;
  • O “viés status quo”,  ou seja, uma aversão a modificar o estilo de vida que se tinha antes da pandemia;
  • O “viés da relevância”, ou seja, frente às dificuldades reais e cotidianas, a ameaça trazida por um vírus parece distante ou improvável;
  • O “viés de super confiança”, uma crença de que, por serem jovens, podem resistir ao vírus e desenvolver imunidade à doença uma vez que sejam expostos a elas. 

Ao identificar esses vieses e como eles influenciam negativamente a tomada de decisão é possível criar um conjunto de nudges — do inglês, “empurrão”– para alterar a arquitetura de decisão dos indivíduos, ou seja, como essas escolhas são “organizadas”. Isso não significa limitar a tomada de decisão, mas sim oferecer elementos para ampliar a probabilidade de que o indivíduo faça a escolha que seja mais benéfica para ele ou para outros. 

Nudges na prática contra o coronavírus

FreepikOs insights das ciências comportamentais têm sido adotados por diversas nações como estratégia para frear o avanço do vírus e também orientar os planos de retomada e reabertura econômica. Eles possuem diversas vantagens, principalmente, o potencial de alcançar o maior número de pessoas a um custo relativamente baixo e com grande possibilidade de promover mudanças de comportamento.

Nudges podem ser intervenções relativamente simples, desde o envio de conteúdos via SMS com mensagens criativas, engraçadas e efetivas; alterações no ambiente, como a disponibilização de álcool em gel e demarcações no chão que estimulem o distanciamento entre as pessoas; até campanhas publicitárias na televisão que reforcem a importância de permanecer em casa e a contribuição trazida por cada indivíduo ao fazê-lo. 

Seu uso tem sido incentivado por organizações internacionais, como a OMS, cujo escritório regional da Europa disponibilizou uma ferramenta que permite o desenvolvimento de estratégias baseadas no uso de nudges.

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) também tem produzido guias práticos para a implementação de nudges por governos em todo o mundo.

O “The Behavioral Insights Team (BIT)”, uma das maiores instituições dedicadas ao estudo das ciências comportamentais, já realizou mais de 40 testes com 80 mil pessoas de diversas partes do mundo para identificar quais são os vieses e possíveis nudges para apoiar a tomada de decisão e cooperação com as orientações de saúde no contexto da pandemia.

Na Inglaterra, por exemplo, quase 2 milhões de pessoas têm recebido mensagens diariamente trazendo informações sobre os riscos do coronavírus. Elaborados pelo National Health Service (conhecido como NHS, similar ao SUS do Brasil) esses conteúdos são customizados para cada público específico e foram elaborados tendo por base os conhecimentos sobre ciência comportamental. 

Também na Inglaterra, a cidade de Durham é um outro exemplo da aplicação de nudges. Após um diagnóstico extenso, os gestores públicos lançaram a campanha “Let´s Get Back on The Bull” (“Vamos fazer o Touro voltar”, em alusão ao mascote da cidade).

A iniciativa conta com um portal em que são apresentadas informações simples, atrativas e práticas: por exemplo, um “checklist” para que pequenos comércios possam fazer uma abertura segura; materiais gráficos, como posters e flyers, que podem ser impressos e afixados para o público; e orientações específicas para os cidadãos de Durham.

Ao invés de punir ou repreender comerciantes e moradores, a opção foi a de combinar uma comunicação precisa, o senso de contribuição individual e possibilidades de escolha. 

No Brasil, também há exemplos do uso de nudges para a orientar a reabertura segura pós-pandemia.

O Coronacidades, iniciativa do Arapyau e Centro de Liderança Pública (CLP), por exemplo, traz diversos conteúdos sobre o tema, desde materiais gráficos que podem ser utilizados por gestores municipais até “checklists” para orientar a reabertura de escolas, a comunicação com cidadãos ou a adoção de medidas preventivas e sanitárias. 

É preciso ir além

Por serem simples, de amplo alcance e com baixo custo, o uso de nudges e insights das ciências comportamentais deve ser fundamental para a reabertura das cidades em todo o mundo. Isso porque, mesmo com a descoberta da vacina e, quiçá, uma cura, ainda dependeremos do comportamento individual para garantir o controle da doença.

Ainda assim, estou segura de que eles não são a única resposta e a “bala de prata” para resolver todos os desafios que estamos enfrentamos e que ainda virão.

Nudges são uma das possíveis estratégias que teremos de adotar para enfrentar um problema que é tão complexo. Mesmo assim reforço a importância de que gestores públicos, empresas, escolas e tantos outros atores possam ampliar o uso dessa inovação. Todos nós só teremos a ganhar.

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O que a tecnologia já oferece para você cuidar da saúde mental na pandemia http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/07/25/emocoes-na-pandemia-tecnologia-como-aliada-na-saude-mental/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/07/25/emocoes-na-pandemia-tecnologia-como-aliada-na-saude-mental/#respond Sat, 25 Jul 2020 07:00:52 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=937

Atenção à saúde mental pode ser um dos maiores legados da pandemia de coronavírus (Pixabay)

No momento em que finalizo este texto completo mais de quatro meses em quarentena. Há tempos não vejo meus parentes ou amigos próximos. Minha equipe de trabalho está atuando remotamente e todos os meus compromissos estão sendo feitos online, seja pelo computador, celular ou e-mail. Há muito tempo a vida presencial tem se resumido ao perímetro da minha casa, com poucas saídas para resolver questões emergenciais e de extrema necessidade. 

Esse é um desafio que tem sido enfrentado por milhões de pessoas no Brasil e pela maioria dos países em todo o mundo. A pandemia de coronavírus e os esforços de isolamento social transformaram o nosso modo de viver, trabalhar, estudar e se relacionar. E mais do que abalar economias, trazer impactos sociais e também políticos, a pandemia e seus efeitos estão também influenciando uma dimensão quase sempre deixada de lado: a saúde mental. 

Antes mesmo da crise, o Brasil já sofria nessa dimensão. Segundo dados da OMS, nosso país tem a maior taxa de pessoas com depressão da América Latina, são 5,8% da população, o que equivale a 12 milhões de pessoas. Isso sem mencionar o transtorno de ansiedade: somos o país mais ansioso do mundo –9,3% da população sofre com esse mal.

O que já era grave tornou-se ainda pior. Segundo uma pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) que teve a participação de 1.460 pessoas em 23 estados e todas as regiões do país, os casos de depressão praticamente dobraram e as ocorrências de ansiedade e estresse tiveram um aumento estarrecedor de 80%. Os dados me levam a crer que vivemos, também, uma pandemia de males relacionados à saúde mental. 

E o que fazer em relação ao problema quando as perspectivas indicam a continuidade do isolamento social, o agravamento da situação econômica e do cenário político? Primeiro, entender que estar separado não significa estar isolado. Além disso, assumir que nunca foi tão importante estarmos atentos para a saúde mental e, com a ajuda da tecnologia, é possível enfrentar esse desafio que também atinge a todos nós. 

Como usar a tecnologia para fortalecer a saúde mental?

O medo talvez seja o principal fator que agrava os casos de depressão e ansiedade. Medo de perder o emprego, de adoecer ou perder alguém querido. E com as fake news –tema que já discuti aqui– esse sentimento pode crescer e, por vezes, tomar proporções que são irreais. Combina-se a isso o fato de que muitas pessoas estão distantes de entes queridos, têm a sorte –mas também o desafio– de permanecer em casa 24 horas por dia, assumindo tarefas de uma rotina que antes era muito diferente. 

A tecnologia pode encurtar distâncias, garantir presença e acompanhamento e também conforto emocional. E concretamente, o apoio à saúde mental pode se dar por meio de três grandes estratégias: telessaúde, aplicativos para smartphones e mídia social

Para promover o cuidado aliado às tecnologias, tem sido cada vez mais valorizado o trabalho das “e-mental health”, empresas que atuam criando soluções para a saúde mental. Integrante da rede do BrazilLAB, a Psicologia Viva é uma delas. A startup vem atuando na área de telepsicoterapia, consolidando uma rede de psicólogos e profissionais de saúde mental e permitindo o atendimento online de qualquer lugar. 

Com a pandemia, as healthtechs também têm se tornado cada vez mais importantes. Elas permitem o teleatendimento, acompanhamento de pacientes e, principalmente, acesso a informações confiáveis, transparentes e de qualidade. São exemplos de healthtechs a Universaúde e UpSaúde, que atuam com serviços de orientação sobre a pandemia, por exemplo, a partir de chats online disponíveis 24 horas por dia.

E há também tecnologias atuando em sintomas específicos que atingem à saúde mental: por exemplo, a insônia –caso da Sleepio-, a “gestão” do estresse –como promete o aplicativo da Welltory– e também ajudar pessoas que estão sozinhas durante o isolamento –como a Wysa e sua inteligência artificial

Um grupo de pessoas está especialmente propenso a males como estresse e depressão: são as pessoas idosas, um dos grupos de risco, e que, por vezes, estão em isolamento social sozinhas em casa. E mesmo que a questão geracional possa ser um desafio para que esse grupo possa utilizar as tecnologias, ela já não é mais uma barreira intransponível. 

As redes sociais, os aplicativos de comunicação – como o WhatsApp, por exemplo – têm sido ferramentas fundamentais para garantir a sociabilidade desse grupo. O estado de São Paulo, por exemplo, adaptou um de seus aplicativos e criou o Cérebro Ativo, especificamente para a população idosa: ainda em fase de testes, a ferramenta combina técnicas de gamificação, inteligência artificial e internet das coisas (IoT) para promover o cuidado da saúde mental da população idosa.

Outra iniciativa é o Vizinho do Bem, idealizada pela startup NokNox, e que busca criar uma rede colaborativa conectando pessoas dispostas a ajudar aqueles que precisam de ajuda, por exemplo, para ir ao mercado, farmácia ou para um passeio com o bichinho de estimação. E a Mais Vivida, uma plataforma que reúne voluntários dispostos a apoiar o grupo de pessoas idosas –inclusive, e principalmente, a como navegar no mundo da tecnologia. 

Um desejo para o futuro

Um dos principais legados da pandemia talvez seja a atenção com a saúde mental. Nunca o tema foi tão discutido e recebeu tanta atenção, seja de especialistas, mas também do público em geral. 

Desejo que esse possa ser um momento de reflexão sobre o autocuidado e a importância da saúde mental –que muitas vezes não recebe a mesma atenção que a física. Mas que também possa servir como uma experiência em que a solidariedade e o interesse coletivo sejam reconhecidos e valorizados. 

E mais: os exemplos crescem e mostram como a tecnologia pode nos ajudar a estarmos mais conectados, ainda que distantes. Afinal, uma das lições que a pandemia trouxe é que não estamos ou sairemos desse desafio sozinhos.

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Pandemia provoca explosão de diferentes usos da inteligência artificial http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/07/18/a-inteligencia-artificial-como-aliada-para-enfrentar-a-pandemia-de-covid-19/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/07/18/a-inteligencia-artificial-como-aliada-para-enfrentar-a-pandemia-de-covid-19/#respond Sat, 18 Jul 2020 07:00:31 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=926

Inteligência artificial tem sido aplicada nas mais diversas frentes de combate à pandemia (Pixabay)

O dia é 30 de dezembro de 2019. Uma startup canadense que atua com a previsão e monitoramento de surtos de doenças emite um alerta aos clientes sobre o que viria a ser o maior evento para a humanidade desde a Segunda Guerra Mundial: a pandemia de coronavírus

Por si só o feito já seria extraordinário, ou seja, ser a primeiro sinal de alerta para a crise que viveríamos em escala global meses antes dela iniciar. Mas dois elementos fazem com que essa descoberta seja ainda mais surpreendente: a BlueDot, empresa responsável pelo feito, alcançou essa previsão nove dias antes do anúncio da própria Organização Mundial da Saúde (OMS). E o mais interessante: contou, para isso, com o trabalho de uma inteligência artificial

O uso de inteligência artificial tem sido diverso e cada vez mais intenso nos últimos anos. Já falei sobre o tema por aqui, destacando como a IA, como é também conhecida, deixou o mundo da ficção científica e o imaginário coletivo para ocupar cada vez mais o nosso cotidiano, transformando o modo como nos relacionamos com a tecnologia e também ampliando as potencialidades que a inteligência das máquinas pode nos trazer. 

A propósito, a inteligência artificial “nada mais” é do que isso: um processo no qual as máquinas conseguem desenvolver aprendizado a partir da análise de grandes volumes de dados. Ao entender os padrões existentes, elas podem reproduzir ações tais como os seres humanos, criar inteligência a partir de informações e fazer previsões com base em observações do presente – como a BlueDot conseguiu. 

Mas com o agravamento da crise trazida pela pandemia, a utilização de inteligência artificial passou a se intensificar e hoje ela tem sido adotada nas mais diversas frentes, seja para produzir laudos médicos precisos, mas também para realizar auditorias nas compras públicas que vêm sendo realizadas no contexto da pandemia. 

Por onde quer que olhemos, a inteligência artificial tem sido uma importante aliada. E é importante entender suas aplicações, resultados e os cuidados que temos que garantir para a sua utilização no futuro. 

Inteligência artificial contra a covid-19

Há muito tempo a inteligência artificial desperta o temor de que possa transformar o ser humano em uma figura obsoleta. Este receio está, de fato, muito presente: o impacto sobre a geração de empregos e as implicações éticas são os principais receios de quase 14 mil participantes de estudo realizado pela consultoria BCG. 

Mas a verdade é que há muito tempo já estamos cercados por soluções que têm como base a inteligência artificial. No contexto da pandemia de coronavírus, seu uso permite alcançarmos um fator crucial quando se está lutando contra um problema de saúde pública e escala global: a rapidez e a precisão das respostas de enfrentamento. 

A inteligência artificial se “alimenta” da quantidade massiva de dados que são produzidos diariamente, a todo segundo e sem parar. Com um algoritmo específico, ela consegue fazer a “mineração” dessas informações para identificar padrões. Foi exatamente o que aconteceu no caso da BlueDots: utilizando dados de companhias aéreas, de instituições de saúde e de smartphones, a empresa conseguiu acompanhar o trajeto das pessoas que estiveram na região de Wuhan (China), epicentro da pandemia. Fazendo esse acompanhamento, entendendo o destino das pessoas e considerando a janela de 14 dias, fizeram a previsão de quais localidades seriam mais afetadas. 

E a BlueDot foi apenas o começo. O uso de inteligência artificial para combater o coronavírus tem sido exponencial. A tecnologia está presente, por exemplo, para apoiar a análise da crescente quantidade de pesquisas e artigos científicos que tem sido produzida sobre o tema, como promete o CovidScholar, uma ferramenta criada pelo Lawrence Berkeley National Laboratory do Departamento de Energia dos EUA.

A empresa chinesa Alibaba, por sua vez, desenvolveu um algoritmo que promete diagnosticar casos de covid-19 com 96% de precisão a partir da análise de exames como a radiografia. Um ativo precioso quando o número de testes disponíveis ainda é insuficiente. 

No Brasil, esse movimento também tem acontecido com muita intensidade. Há robôs sendo utilizados para esterilizar ambientes, performar cuidados básicos e também realizar a triagem de pacientes, como é o caso da Double Robots, implementada no Hospital das Clínicas em São Paulo.

Os drones também têm sido adotados como uma estratégia, seja para transportar equipamentos médicos, mas também para realizar a limpeza de vias públicas, como é o caso da experiência de Porto Alegre.

E a IA também está sendo utilizada em áreas nada convencionais, como o controle das contas públicas: a tecnologia foi aplicada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) para monitorar as compras realizadas durante o período de calamidade pública – no qual não é necessário realizar o processo de licitação – e tem sido fundamental para identificar, corrigir e evitar desvios de recursos. 

A IA também está presente no trabalho das startups. A Colab, uma das organizações aceleradas pelo BrazilLAB, juntamente com a Epitrack, desenvolveram o Brasil Sem Corona, uma plataforma de monitoramento da doença que conta com as informações compartilhadas pelos usuários a partir do celular.

A Portal Medicina, startup brasileira, desenvolveu um algoritimo capaz de analisar tomografias ou raios X e identificar se o paciente contraiu a covid-19 – com 95% de precisão.

Ainda entre as healthtechs, a brasileira Dr. Wilson, tem levado informações sobre cuidado e prevenção contra o coronavírus, um chatbot que já realizou mais de 153 mil conversas. 

Embora possa parecer que os seres humanos são coadjuvantes em todo esse processo é exatamente o contrário: a inteligência artificial faz com que o nosso trabalho seja mais eficiente ao trazer informações precisas e indicar caminhos que podem ser investigados e melhor compreendidos. 

Por exemplo, ao apontar para padrões que indicam uma doença, ela ilumina aquele caminho e permite que as pessoas – pesquisadores, analistas, empresas, governos – possam seguir investigando. Como já disse aqui, a inteligência artificial nos faz ser mais humanos e também mais necessários. 

A inteligência artificial nunca foi utilizada de maneira tão intensiva e variada. Ela tem mostrado como pode ser um recurso adaptável e aplicável às mais distintas condições e desafios. As questões relacionadas ao seu uso ético e responsável ainda permanecem, é verdade, mas já não há dúvidas sobre seu potencial para apoiar a humanidade nos momentos de maior desafio e crise – e para além deles também. 

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Tem uma solução para apoiar governos no desafio pós-covid? Podemos ajudar http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/07/11/tecnologia-sera-aliada-na-recuperacao-socioeconomica-do-brasil/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/07/11/tecnologia-sera-aliada-na-recuperacao-socioeconomica-do-brasil/#respond Sat, 11 Jul 2020 07:00:09 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=912

Força empreendedora será fundamental para apoiar o Brasil na recuperação da crise (Pixabay)

A crise trazida pela pandemia de coronavírus tem transformado de maneira profunda a nossa sociedade em todas as suas dimensões: trabalho, familiar, econômica e política. Não há espaço onde não se sintam essas mudanças e onde não estejamos repensando a nossa vida – desde o aspecto mais complexo até o mais simples.  

Embora tenha trazido impactos negativos para um número considerável de pessoas, empresas e países, também é verdade que a covid-19 foi um fator que acelerou diversas transformações. Uma delas, sem dúvida, tem sido a digitalização dos governos em diversos lugares do mundo – inclusive, no Brasil. 

Nas últimas semanas tenho discutido sobre o tema e busquei compartilhar como esse processo tem acontecido e, especialmente, quais são os seus resultados. Falei como temos nos tornado referência em legislativo digital, como a transparência é um requisito fundamental para os momentos de crise, compartilhei os desafios de garantir a continuidade da educação em ambiente digital e também trouxe para reflexão o papel das lideranças em tempos de crise. 

Desde o início da crise também tenho compartilhado notícias sobre um movimento positivo: a atuação de startups GovTechs no enfrentamento do coronavírus – falei sobre o tema aqui, aqui e aqui. As GovTechs adaptaram suas soluções ao contexto de crise, se dedicaram à formação de servidores públicos, isso sem contar as ferramentas e conteúdos que passaram a oferecer gratuitamente para diversas cidades do país. 

Como fundadora do BrazilLAB, primeiro hub do Brasil que ajuda a conectar startups e setor público, tenho a oportunidade de assistir esse processo de um lugar privilegiado: há anos acompanho o dia a dia das GovTechs e, no momento atual, posso dizer que elas incorporam os princípios mais fundamentais para enfrentar a crise: resiliência, foco em resultados e rapidez nas respostas. 

E entendendo como a força empreendedora pode ser um elemento fundamental para apoiar governos de todo país a enfrentar os desafios trazidos pela pandemia de covid-19, o BrazilLAB, junto com uma rede de parceiros, dentre eles Fundação Brava, Fundação Arymax, Instituto Humanize e Amazon Web Services, está lançando um movimento inédito e unindo forças em busca de startups e suas soluções para enfrentarmos a crise socioeconômica gerada pela pandemia: a Força-Tarefa Covid-19

A Força-Tarefa Covid-19

A iniciativa foi lançada ontem, dia 10 de julho, na Campus Party, um dos maiores eventos de inovação, criatividade e cultura maker do planeta, e que teve pela primeira vez em sua história uma edição 100% online e simultânea em 30 países diferentes. Fui convidada como uma representante do time de colunistas do Tilt para falar no evento e pude compartilhar detalhes sobre o projeto e como esperamos contribuir para a transformação digital dos governos no país.

A Força-Tarefa Covid-19 busca selecionar, acelerar e conectar GovTechs que tenham soluções implementáveis para as esferas municipal, estadual e federal, considerando três desafios principais: educação, digitalização no poder público e inclusão produtiva. Em um esforço para incentivar o ecossistema empreendedor, pela primeira vez, também buscamos pequenas e médias empresas e suas soluções tecnológicas para os governos. Afinal, o Brasil é uma nação empreendedora: mais de 39% da população economicamente ativa (18 a 64 anos) empreende.

Os desafios foram selecionados porque melhor representam o cenário que o setor público deve enfrentar no contexto pós-pandemia. E alguns dados reforçam essa tendência: segundo estimativas da Unicef, mais de 95% das crianças estão fora da escola na América Latina e no Caribe devido à pandemia de coronavírus, número equivale a 1,5 bilhão de estudantes globalmente.

A pandemia da covid-19 destruiu 7,8 milhões de postos de trabalho no Brasil até o mês de maio e a taxa de desemprego entre jovens foi de 27,1% no primeiro trimestre de 2020.

Além disso, a crise deixou evidente a necessidade de um governo inovador e tecnológico: demandas como identidade digital, atendimento online e transparência nunca foram percebidas como tão urgentes. Os desafios que vivemos agora devem se agravar nos meses seguintes, de modo que será fundamental investir em ações inovadoras, eficazes e rápidas para combater os impactos socioeconômicos da crise. 

Estamos em busca de startups, pequenas e médias empresas que tenham soluções criadas ou que possam ser adaptadas para os três desafios. Para a educação, por exemplo, será preciso investir no ensino à distância, na capacitação profissional, no desenvolvimento de habilidades e competências do século 21 e também na democratização do acesso.

No campo da inclusão produtiva, as tecnologias devem estar voltadas ao desenvolvimento de microempreendedores, à criação de oportunidades para o trabalho de jovens, ao desenvolvimento do empreendedor rural e ao engajamento de empresas em conexão com profissionais.

E pensando na atuação de um governo digital, buscamos soluções que possibilitem, por exemplo, o trabalho remoto, o desenvolvimento de serviços digitais para os cidadãos, a redução da burocracia e a ampliação de ações de transparência dos governos. 

A lista do que buscamos poderia se estender, mas a mensagem se resume ao seguinte objetivo: queremos fortalecer soluções inovadoras e digitais que possam apoiar os governos, e como todo processo disruptivo, não há limite para as boas ideias e para o “como fazer”. Sabemos muito bem quais são as dores – e a força empreendedora pode ajudar a encontrar os remédios. 

As empresas selecionadas devem passar por um programa intenso de aceleração que inclui formações sobre impacto social, legislação de compras públicas e experiência do usuário. Também faz parte do programa um conjunto de ações de capacitação Business to Government (B2G), ou seja, o mercado de atuação junto ao governo. Elas incluem o apoio de uma rede de mais de 60 mentores – especialistas, gestores públicos, CTOs, juristas – que poderão apoiar o aperfeiçoamento das soluções propostas. Além disso, o BrazilLAB proporcionará o acesso à sua rede de mais de 30 prefeituras parceiras e roadshows com gestores públicos. Os resultados serão avaliados ao longo do programa para que seja possível mensurar a mudança trazida pelas soluções GovTech. 

E considerando o momento sem precedentes, assim como a importância de valorizar tanto a memória quanto os aprendizados desta crise que é mundial, a Força-Tarefa Covid-19 também lançará um edital artístico para premiar vídeos, fotografias, textos e outras formas de expressão produzidas no momento atual. 

As inscrições vão até o dia 27 de julho de 2020 e podem ser feitas no Força-Tarefa Covid-19. Nesta primeira convocação serão escolhidas 15 empresas e suas soluções. 

A iniciativa é inédita. Embora tenha implementado programas de Aceleração todos os anos, a Força-Tarefa Covid-19 é muito mais: o BrazilLAB está criando agora um movimento em prol da transformação digital no Brasil. Buscamos soluções de impacto, que sejam escaláveis e possam ser implementadas pelos governos. Estamos seguros de que elas podem ser aliadas fundamentais para combater os efeitos socioeconômicos trazidos pela crise e apoiar a sociedade em um dos momentos mais difíceis que já vivemos. E o prognóstico é positivo. 

Brasil é referência GovTech

O Brasil é um país empreendedor por natureza. Também temos alcançado posição de destaque quando o assunto é o ecossistema de inovação: ocupamos o 4º lugar entre 16 países no GovTech Index elaborado pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), além disso, há mais de 13 mil startups no país, sendo que, aproximadamente 1.500 têm a possibilidade de modular suas soluções para se tornarem uma GovTech. Há muito potencial para o ecossistema empreendedor e para que as startups possam transformar o setor público.

Ao longo de quatro anos de história do BrazilLAB, tivemos mais de 950 startups inscritas em nosso Programa de Aceleração Anual, sendo que 81 foram selecionadas e 34% do portfólio está vendendo para o setor público. Pude ver a transformação trazida pela força empreendedora das GovTechs, seja no passado ou no momento crítico atual. E não tenho dúvidas que elas podem contribuir muito para enfrentarmos os desafios mais complexos, graves e históricos do país – especialmente agora. 

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Que tipo de liderança o Brasil precisa para superar a crise da pandemia? http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/07/04/lideranca-na-crise-reflexoes-sobre-o-papel-do-lider-frente-a-pandemia/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/07/04/lideranca-na-crise-reflexoes-sobre-o-papel-do-lider-frente-a-pandemia/#respond Sat, 04 Jul 2020 07:00:57 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=902

Visão de longo prazo, comunicação transparente e foco nos resultados são características fundamentais para os líderes (Jehyun Sung/ Unsplash)

O dicionário Michaelis traz diferentes significados para a palavra crise: conjuntura desfavorável; situação anormal e grave; conflito, tensão, transtorno. Em todos eles há a noção de que a crise é um evento negativo, que desestabiliza as nossas estruturas e que transforma o nosso modo de viver de maneira profunda. 

Não há dúvidas de que a palavra se encaixa muito bem para descrever o contexto atual. Vivemos um momento de crise trazido pela pandemia de coronavírus, algo que se manifesta nas dimensões econômicas, políticas e sociais. Não há país que não tenha sido impactado, em maior ou menor grau, pelos efeitos perversos desse desafio coletivo.

E dentre todas os requisitos fundamentais para enfrentar esse problema, talvez o principal deles seja o trabalho diligente de uma liderança

Há alguns anos tive a oportunidade de estudar na Universidade de Harvard com os professores Ronald Heifetz e Marty Linsky, teóricos da liderança adaptativa. Na época, eu atuava como consultora de investimentos de impacto e começava a sonhar com a criação do BrazilLAB, que veio a ser o primeiro hub GovTech do país que conecta o ecossistema de startups com o setor público. Mesmo tendo convivido com várias lideranças e sido eu, também, a líder de diversas organizações e times, os aprendizados que alcancei na experiência foram transformadores.

Para além de desmistificar ideias pré-concebidas – e quase cristalizadas – do que é ser uma liderança, estudar com Heifetz e Linsky me fez entender o poder que os líderes têm em incentivar pessoas e promover a mudança. E é no momento de crise que as lideranças se tornam ainda mais os protagonistas das transformações positivas – e não há dúvidas de que o momento requer exatamente isso. 

O que é ser líder e o que é liderar

A primeira lição que aprendi é que a noção bastante difundida de que a liderança tem um perfil inato e inalterável – geralmente, pessoas sérias, controladoras, fortes e impositivas – não condiz em nada com a realidade.

Mais do que as características pessoais, a liderança – e não a chefia ou comando – nasce de pessoas que combinam três elementos principais: a preocupação com uma visão de longo prazo, mesmo que conectada com os dados e possibilidades que o presente traz; a habilidade de se comunicar, dialogar e mobilizar as pessoas que estão “sob sua responsabilidade” e o foco prioritário em alcançar resultados concretos e transformadores.  

E cada vez mais temos visto como esses três elementos se manifestam em líderes que têm um perfil adaptativo. São aqueles que fazem um diagnóstico aprofundado e sistêmico antes de agir, considerando as características do contexto, o impacto nas pessoas e a necessidade de ser transparente ao comunicar mudanças.

São as pessoas capazes de gerar um sentimento de propósito e pertencimento, e aquelas que sabem ouvir e rever posicionamentos.

Esse perfil não receia a realidade; ela a abraça, em sua complexidade e desafios, e demonstra um respeito absoluto ao conhecimento. Uma liderança exercida de forma adaptativa é capaz de promover a união em momentos em que esse sentimento é fundamental para vencer os desafios que atingem a todos, sem exceção. 

Lideranças em ação

A liderança adaptativa também não está relacionada à idade, alinhamento político ou nacionalidade. Mas ela tem relação com o gênero. É o que mostra as nações que têm lutado contra a pandemia e são prova de que as mulheres são as que mais têm alcançado êxito contra esse mal.

Países como Taiwan, Alemanha, Nova Zelândia e Islândia, para dar alguns exemplos, contaram com lideranças femininas que combinaram visão de longo prazo, comunicação transparente e foco nos resultados para enfrentar os desafios trazidos pela crise. Em um momento sem precedentes, foram tomadas decisões rápidas, contundentes e efetivas. Os resultados vieram rapidamente e são incontestáveis: a redução da progressão da doença e, por consequência, do número de mortes. 

Há também lideranças adaptativas no mundo privado. É o caso de Luiza Trajano, presidente da Magazine Luiza. Na sexta-feira (3) conversamos na live do projeto “Conversas para Inspirar”, que tenho realizado todos os meses em meu Instagrame refletimos sobre o papel da liderança em momentos de crise.  

No outro espectro do perfil adaptativo estão líderes que negaram a realidade e resistiram em agir frente ao contexto que estava se modificando de maneira veloz e profunda. Ao não realizarem um diagnóstico sobre a complexidade do desafio que se impunha, passaram a buscar soluções fáceis, de baixo custo e que não apresentavam resultados. E o pior, na luta por manterem seu estilo de liderar, acabavam por se desconectar das pessoas e por romper com o principal ativo que uma liderança deve cultivar: a confiança. 

Nos últimos anos, especialmente nos países em desenvolvimento e na América Latina, temos sido tomados por uma onda de desconfiança nas instituições e nas lideranças políticas. Há vários estudos que se dedicam a investigar os impactos desse fenômeno – e espero poder falar mais sobre a sua relação com a tecnologia, em breve – mas é a confiança, como sentimento compartilhado, que faz com que seja possível navegar nas incertezas.

E ela será fundamental para o momento de reconstrução e retomada que ainda viveremos. Sem confiança no caminho construído pela liderança, não há como mobilizar pessoas a trilhar. 

Ainda há tempo

O Brasil tem diversos desafios e precisamos de uma liderança que garanta que sairemos da crise, ao menos, não piores do que adentramos. Teremos uma longa e árdua tarefa, afinal, são milhões de brasileiros e brasileiras que hoje se encontram em isolamento social, que viram suas possibilidades de geração de renda minguarem ou que perderam seus negócios, fontes da renda de várias famílias. Será preciso senso de urgência, propósito e confiança para que saiamos, juntos, desse momento. 

E mais do que pensar somente nos próximos meses, temos que acreditar que os cidadãos brasileiros merecem uma liderança que seja inspiradora e comprometida com o interesse público. Esse ano viveremos o exercício renovador das eleições municipais, momento em que se inicia um próximo ciclo. Que possamos escolher com sabedoria verdadeiros líderes que vejam na política o potencial de transformação que ela pode gerar.

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Nudges na pandemia: comportamento individual, benefícios coletivos http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/07/01/nudges-na-pandemia-comportamento-individual-beneficios-coletivos/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/07/01/nudges-na-pandemia-comportamento-individual-beneficios-coletivos/#respond Wed, 01 Jul 2020 07:00:19 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=948  

 

As últimas semanas trouxeram notícias muito positivas sobre a batalha contra o coronavírus. Com uma velocidade jamais vista antes, instituições de pesquisa e empresas farmacêuticas já desenvolveram potenciais vacinas. No Brasil, três dessas estão sendo testadas e as perspectivas são muito promissoras: é bem provável que em 2021 já tenhamos encontrado uma resposta efetiva para a prevenção ao covid-19.

Mas enquanto a ciência tem se desenvolvido e esperamos uma alternativa que nos permita voltar ao curso da vida – seja ele qual for a partir de agora – ainda precisaremos contar com técnicas que já vêm sendo utilizadas há séculos e que podem parecer até mesmo simplórias e nada tecnológicas. 

Me refiro aqui ao que a Organização Mundial de Saúde (OMS) chama de “respostas não farmacológicas”: são elas o distanciamento social, a lavagem correta das mãos e o uso de equipamentos de proteção, como máscaras. Embora sejam práticas não complexas, elas dependem de alguns fatores cruciais: que o comportamento das pessoas seja informado, que elas estejam dispostas e também capazes de colocar em prática as medidas de proteção. 

As medidas não-farmacológicas, tão fundamentais para frear o avanço da doença nos próximos meses, serão mais efetivas quanto maior a disponibilidade das pessoas em utilizá-las. Elas dependem do comportamento individual, da abertura para cooperar e mudar a forma de agir. Em outras palavras, por muito tempo ainda, nossa chance de combate ao coronavírus dependerá da soma do comportamento individual para produzir mudanças coletivas que sejam positivas.

Mas como acreditar que essas medidas serão efetivas diante das imagens que vemos diariamente, com pessoas se aglomerando em bares, recusando a utilizar máscaras ou não tendo acesso às condições básicas para higiene pessoal? 

Quando o comportamento dos indivíduos parece ser irracional ou ilógico – afinal, por que não cooperar com regras que podem beneficiar a todas as pessoas? – é preciso investigar e compreender o que os leva a agir de determinada forma. 

Esse é o trabalho das ciências comportamentais e de sua aplicação através de nudges. Suas contribuições nunca foram tão importantes – e a boa notícia é que há muitos exemplos de como podem ser aplicados. 

Do que estamos falando?

Partindo da constatação de que nem todas as decisões dos indivíduos são racionais ou buscam o maior retorno positivo possível, as ciências comportamentais se dedicam a compreender o padrão de comportamento dos indivíduos e, a partir desta investigação, trazer insights – ou seja, ideias e proposições – de como é possível aprimorar a estrutura de escolha para ampliar os benefícios individuais ou coletivos. 

As ciências comportamentais indicam que em cada decisão que tomamos somos influenciados por vieses cognitivos. Um viés cognitivo é um padrão de pensamento específico que distorce nossa percepção da realidade. 

No contexto da pandemia, um levantamento liderado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) identificou alguns desses vieses, especialmente entre o público mais jovem: o “viés otimista”, presente entre pessoas que tendem a subestimar o risco do vírus; “o viés status quo”,  ou seja, uma aversão a modificar o estilo de vida que se tinha antes da pandemia; o “viés da relevância”, ou seja, frente às dificuldades reais e cotidianas, a ameaça trazida por um vírus parece distante ou improvável; e o “viés de super confiança”, uma crença de que, por serem jovens, podem resistir ao vírus e desenvolver imunidade à doença uma vez que sejam expostos a elas. 

Ao identificar esses vieses e como eles influenciam negativamente a tomada de decisão é possível criar um conjunto de nudges – do inglês, “empurrão” – para alterar a arquitetura de decisão dos indivíduos – ou seja, como essas escolhas são “organizadas”. Isso não significa limitar a tomada de decisão, mas sim oferecer elementos para ampliar a probabilidade de que o indivíduo faça a escolha que seja mais benéfica para ele ou para outros. 

Nudges na prática contra o coronavírus

Os insights das ciências comportamentais têm sido adotados por diversas nações como estratégia para frear o avanço do vírus e também orientar os planos de retomada e reabertura econômica. Eles possuem diversas vantagens, principalmente, o potencial de alcançar o maior número de pessoas, a um custo relativamente baixo e com grande potencial para promover mudanças de comportamento.

Nudges podem ser intervenções relativamente simples, desde o envio de conteúdos via SMS com mensagens atrativas, engraçadas e efetivas; alterações no ambiente, como a disponibilização de álcool em gel e demarcações no chão que estimulem o distanciamento entre as pessoas; até campanhas publicitárias na televisão que reforçam a importância de permanecer em casa e a contribuição trazida por cada indivíduo ao fazê-lo. 

Seu uso tem sido incentivado por organizações internacionais, como a OMS, cujo escritório regional da Europa disponibilizou uma ferramenta que permite o desenvolvimento de estratégias baseadas no uso de nudges; O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) também tem produzido guias práticos para a implementação de nudges por governos em todo o mundo; e o “The Behavioral Insights Team (BIT)”, uma das maiores instituições dedicadas ao estudo das ciências comportamentais, já realizou mais de 40 testes com 80 mil pessoas de diversas partes do mundo para identificar quais são os vieses e possíveis nudges para apoiar a tomada de decisão e cooperação com as orientações de saúde no contexto da pandemia.

Na Inglaterra, por exemplo, quase 2 milhões de pessoas têm recebido mensagens diariamente trazendo informações sobre os riscos do coronavírus. Elaborados pelo National Health Service (conhecido como NHS, similar ao SUS do Brasil) esses conteúdos são customizados para cada público específico e foram elaborados tendo por base os conhecimentos sobre ciência comportamental. 

Também na Inglaterra, a cidade de Durham é um outro exemplo da aplicação de nudges. Após um diagnóstico extenso, os gestores públicos lançaram a campanha “Let´s Get Back on The Bull” – ou “Vamos fazer o Touro voltar”, em alusão ao mascote da cidade. A iniciativa conta com um portal em que são apresentadas informações simples, atrativas e práticas: por exemplo, um “checklist” para que pequenos comércios possam fazer uma abertura segura; materiais gráficos, como posters e flyers, que podem ser impressos e afixados para o público; e orientações específicas para os cidadãos de Durham. Ao invés de punir ou repreender comerciantes e moradores, a opção foi a de combinar uma comunicação precisa, o senso de contribuição individual e possibilidades de escolha. 

No Brasil, também há exemplos do uso de nudges para a orientar a reabertura segura pós-pandemia. O Coronacidades, iniciativa do Arapyau e Centro de Liderança Pública (CLP), por exemplo, traz diversos conteúdos sobre o tema: desde materiais gráficos que podem ser utilizados por gestores municipais, até “checklists” para orientar a reabertura de escolas, a comunicação com cidadãos ou a adoção de medidas preventivas e sanitárias. 

É preciso ir além

Por serem simples, de amplo alcance e com baixo custo, o uso de nudges e insights das ciências comportamentais devem ser fundamentais para a reabertura das cidades em todo o mundo. Mesmo com a descoberta da vacina e, quiçá, uma cura, ainda dependeremos do comportamento individual para garantir o controle da doença. Que gestores públicos possam ampliar o uso dessa inovação. Todos nós só teremos a ganhar. 

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Até seu like influi: como o Brasil está lutando contra as fake news http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/06/27/infodemia-porque-e-importante-estarmos-atentos-as-fake-news/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/06/27/infodemia-porque-e-importante-estarmos-atentos-as-fake-news/#respond Sat, 27 Jun 2020 07:00:37 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=890  

Vivemos uma infodemia, e a pandemia de coronavírus reforçou a importância de combater as fake news (Ketut Subiyanto/ Pexels)

Desde o início da epidemia de coronavírus, você deve ter recebido mensagens nos grupos do WhatsApp que falavam de remédios, curas milagrosas ou que questionavam a seriedade do problema e os números divulgados pelas autoridades de saúde. O fato é que há um outro “vírus” entre nós e que se dissemina com muita rapidez: as fake news. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) se refere a esse fenômeno chamando-o de “infodemia”, ou seja, a disseminação em massa de informações falsas, dúbias, descontextualizadas, tendenciosas ou deturpadas.

É verdade, são muitos os adjetivos para descrever o problema. Isso porque, embora não haja uma definição única e precisa sobre o termo “fake news”, há muito temos percebido que não se trata somente do compartilhamento de notícias puramente falsas.

Aqueles que contribuem para que esse mal possa crescer e se espalhar também evoluíram seus métodos, muitas vezes, criando uma linha tênue entre o que é verdade ou não – misturando elementos da realidade com outros inventados ou descontextualizados, por exemplo.

Há vários fatores que dificultam o combate às fake news. Podemos dizer que esse é um problema complexo: envolve milhões de pessoas, o uso cada vez maior de redes sociais como fonte de informação e também a ausência de sanções específicas para os crimes relacionados ao mundo digital.

Soma-se a esse cenário o fato de que, diariamente, há uma estrutura robusta, tecnológica e estrategicamente posicionada para produzir de forma massiva conteúdos sobre diversos temas – como saúde, educação, segurança e política – sem que se tenha compromisso com a verdade ou com o interesse público.

Pode parecer assustador mas, de fato, há pessoas que dedicam suas vidas para gerar mentiras e, com isso, fazer o mal.

A boa notícia é que nunca se falou tanto sobre o tema e, nas últimas semanas, diversos acontecimentos contribuíram para colocar a questão na ordem do dia. Além disso, nunca estivemos mais preparados para combater as fake news e os seus efeitos danosos.

Afinal, por que acreditamos na mentira?

O Brasil vive um verdadeiro paradoxo quando se trata desse tema: ao mesmo tempo, somos o país que mais acredita em mentiras e uma nação que se preocupa com a verdade das informações, segundo levantamento do Ipsos.

A luta contra as fake news se acirrou no contexto das últimas eleições nacionais, quando as redes sociais e, especialmente, o WhatsApp se transformaram na principal ferramenta da disputa política, acirrando os embates e a polarização na sociedade – fenômenos que seguem firmes até hoje.

E essa contradição entre a crença nas mentiras e o desejo pela verdade acaba por deixar evidente o desafio que as fake news impõem: trata-se de um problema complexo e que, como tem provado a ciência, não se relaciona somente ao lado racional das pessoas, mas sim às suas emoções: argumentos de autoridade, viés de confirmação, groupthinking – esses são apenas alguns dos conceitos que podem explicar o processo “não tão lógico” que nos leva a compartilhar as fake news.

Para além do comportamento individual, há outras ferramentas que potencializam esse desafio. Estamos falando de estruturas tecnológicas montadas para compartilhar informações – os bots “do mal” – e o uso intensivo das redes sociais, especialmente o WhatsApp. Segundo o Reuters Institute Digital News Report 2019, 58% dos brasileiros entrevistados compartilham informações via redes social, mensagens ou e-mail.

O desafio é que essas ferramentas não apresentam qualquer recurso para checagem de informações – ou seja, quem recebe algum dado precisa acessar outra plataforma online para pesquisar sua veracidade. Uma tarefa especialmente árdua para um país como o Brasil, em que 20 milhões de domicílios não têm acesso à internet.

Como podemos ver, nosso país é um cenário especialmente sensível para o crescimento das fake news. Mas podemos ser uma referência positiva, já que há iniciativas em curso para enfrentar esse mal. E elas podem se beneficiar do uso – e da inteligência – trazida pelas tecnologias.

S. Hermann & F. Richter/ Pixabay

A agenda atual

Vivemos um momento de ebulição sobre a questão das fake news. Há pautas em tramitação no Legislativo Federal, como o controverso Projeto de Lei das fake news, há também o inquérito sobre o tema no Supremo Tribunal Federal (STF), isso sem falar na recente iniciativa que visa enfraquecer economicamente portais que disseminam notícias falsas  – a Sleeping Giants BR.

Há também iniciativas da sociedade civil, como o Redes Cordiais, um projeto de educação midiática que busca disseminar conhecimento e combater a desinformação nas redes sociais, especialmente com o apoio de influenciadores digitais – tema que discuti na semana passada.

Definitivamente, o problema está em pauta e deve permanecer pelos próximos meses. É fato que essas iniciativas têm sido muito debatidas e precisamos estar atentos aos seus desdobramentos, especialmente para garantir que não haja violação de privacidade, da segurança de dados dos usuários ou da liberdade de expressão. Mas elas não deixam também de ser um excelente sinal de que está surgindo um compromisso público de diversos atores para fazer com que o compartilhamento desse tipo de notícias seja cada vez mais enfraquecido.

Mas é preciso ir além, atuando de maneira coordenada contra o problema. Para isso, entram em cena as tecnologias disruptivas: big data, blockchain, machine learning, inteligência artificial. Todas elas permitem a análise do emaranhado de informações disseminadas a cada segundo e, especialmente, a checagem e a transparência de fontes confiáveis.

E há muitas startups atuando no tema: como a Logically, do Reino Unido, que trabalha com a checagem de grandes quantidade de informações a partir de um aplicativo para smartphone ou a Factmata que permite a análise de dados para que empresas possam vincular suas marcas a portais confiáveis. O recado é: para combater um inimigo tão ágil só com tecnologias muito avançadas e que nos coloquem um passo à frente de quem quer nos fazer mal.

O poder está nas nossas mãos – ou melhor, em nossos likes

Não custa lembrar: a ação individual é um componente fundamental para o sucesso das fake news. Por isso, antes de compartilhar uma informação sobre a qual você não conhece a fonte e a veracidade, pense que ela pode trazer um dano imenso – inclusive, para você mesmo.

As fake news não prosperam sem pessoas ajudando com o seu compartilhamento – e cada um de nós tem um papel fundamental para garantir que, nessa disputa, elas saiam perdendo.

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Influencer consciente pode ser o novo normal da internet pós-pandemia http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/06/20/influenciador-consciente-a-pandemia-esta-transformando-o-uso-da-internet/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/06/20/influenciador-consciente-a-pandemia-esta-transformando-o-uso-da-internet/#respond Sat, 20 Jun 2020 07:00:55 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=876

Influenciadores digitais ainda estão na moda, mas sua atuação deve ser muito diferente (Freepik)

Você que está lendo esse texto certamente já deve ter visto ou compartilhado alguma live durante o período da pandemia. Não há escapatória. A oferta tem sido grande, constante e diversificada, atende aos diversos gostos, de música à discussões sobre espiritualidade e política.

O fenômeno das lives tem sido uma transformação na gigantesca indústria da música e entretenimento. O adjetivo não é à toa: segundo a consultoria PwC, no Brasil, o setor deve gerar uma receita de US$ 43,7 bilhões em 2021 – são US$ 2,23 trilhões em todo o mundo. Nenhuma empresa – inclusive organizações públicas – pode ignorar que a comunicação, especialmente através das redes sociais, é um ativo estratégico e fundamental para o sucesso do bem ou serviço que se deseja ofertar.

E se a comunicação é a “menina dos olhos” de qualquer marca, os influenciadores digitais (ou influencers, como também são conhecidos) viraram o personagem principal dessa narrativa: são eles que divulgam produtos e serviços, mostrando experiências reais que se conectam com o dia a dia das pessoas. 

Mas a pandemia de coronavírus representou um divisor de águas para o universo do marketing de influência – área em que se situam os influenciadores digitais. Se antes era fácil compartilhar e incentivar a compra de viagens, cosméticos, roupas e serviços de beleza, todos esses produtos perdem a percepção de valor e importância no contexto em que o isolamento social, incertezas sobre o futuro e, mais concretamente, as restrições econômicas estão presentes todos os dias e para muitas pessoas. 

Mas nem de longe esse será o fim dos influencers. Como em quase todas as áreas, devemos encontrar um novo normal passado o período agudo da pandemia. E arrisco a dizer que a nova “versão” tem tudo para ser ainda melhor. 

O que mudou?

Antes da pandemia, estávamos acostumados a acompanhar o trabalho dos influenciadores digitais, especialmente como pessoas que combinam três elementos principais: conectividade, vida cotidiana e informalidade. Com a pandemia muitas mudanças para o trabalho dessas pessoas acabaram acontecendo. E também colocaram em xeque a atuação dessas figuras. Essas transformações vieram em “ondas”, uma levando à outra.

Inicialmente, surgiu a necessidade de se reinventar. Com mais pessoas na internet – estimativas apontam que o engajamento em redes sociais aumentou em 61% durante o período da pandemia – há uma busca maior por conteúdos que não estejam relacionados às compras. Isso por si só já representou a primeira mudança: afinal, como alterar a narrativa de um influenciador que tem como base a divulgação de viagens? Ou roupas? Ou equipamentos de ginástica?  

Essa nova realidade tem demandado a necessidade de rever conteúdos e estratégias de inserção nas redes sociais. Alguns influenciadores foram bem sucedidos, mas outros, nem tanto. O resultado, quase sempre, chegava imediatamente: perda de seguidores ou de contratos comerciais com marcas que representavam. 

Isso leva ao ápice do que, acredito, estamos vivendo no momento. Há sinais de que uma nova fase pode estar surgindo: uma busca por conteúdos que sejam significativos, responsáveis – economicamente, socialmente e ambientalmente – e que se conectem com a realidade das pessoas de maneira verdadeira. E isso indica para a possibilidade de um novo momento para o trabalho dos influenciadores.  

Nova era?

Por mais que se queira dizer o contrário, o mercado não está saturado para os influenciadores digitais. Uma recente pesquisa publicada pelas agências Brunch e Youpix, que entrevistaram 164 marcas diferentes, aponta que 78,5% delas mantém a verba para marketing de influência mesmo no contexto da pandemia. Ou seja: esse continua sendo um mercado de valor e aquecido. Mas também não é possível dizer que as coisas serão exatamente como antes.  

De um lado, as empresas buscam influenciadores que tenham “fit” com o propósito de suas marcas. De outro, o público está interessado em conteúdos que sejam significativos e verdadeiros – muito além do puro consumo. 

Nesse movimento, acredito que há uma real possibilidade para o surgimento daquilo que chamo de influenciadores conscientes. São pessoas que se tornam referência na internet porque usam o seu espaço de fala para vocalizar pautas relevantes, atuais e com uma linguagem que é muito acessível e, principalmente, atrativa. 

Temos visto como isso se manifesta especialmente no momento atual: Atila Iamarino, pesquisador brasileiro que tem sido uma referência técnica quando o assunto é coronavírus. Seu canal no Youtube já tem mais de um milhão de seguidores e ele contabiliza participações em programas de grande alcance na TV aberta. Se definindo como um “divulgador científico”, Atila consegue “traduzir” pesquisas acadêmicas para uma linguagem que seja compreensível inclusive para quem não tem familiaridade com a academia. E há tantos outros exemplos desse movimento, especialmente de figuras que se envolvem em ações de combate à pandemia – quem não se lembra da #ficaemcasa?

E o mais interessante é que o trabalho dos influenciadores conscientes pode ser uma ferramenta fundamental para apoiar no combate às fake news

A Organização Mundial de Saúde tem alertado para o fato de que vivemos uma infodemia, ou seja, uma epidemia de notícias falsas ou descontextualizadas. E para enfrentar esse problema, mais do que dizer a verdade e dar publicidade à informação, será preciso garantir que a forma como se faz isso seja simples, acessível e transparente. 

E não há dúvidas de que os influenciadores digitais são referências em criar uma comunicação que possa engajar mais e mais pessoas. Eles podem ser atuantes no combate às fake news, expondo a importância do tema e divulgando novas formas de promover a checagem de informações. Essa será uma batalha fundamental e, embora o governo brasileiro tenha se recusado a aderir a um compromisso internacional assinado por mais de 130 países, 9 em cada 10 brasileiros acreditam na importância de uma legislação contra notícias falsas na internet, segundo recente pesquisa do Ibope. 

É claro que um problema complexo como esse não pode ser combatido somente com o trabalho de influenciadores. Será preciso adotar outras estratégias, como regulação, soluções de inteligência artificial e muita educação digital. Mas não há dúvidas que uma mudança está em curso e que os influenciadores podem ser aliados valiosos. 

Um convite

Dentro deste contexto, resolvi então utilizar o espaço da internet para promover conversas propositivas e positivas. Acredito que o papel de um influenciador digital deve ser cada vez mais consciente, passando pelo processo de fomentar diálogos construtivos a partir de uma escuta atenta e plural.

O projeto “Conversas para Inspirar” nasceu, então, com a ideia de discutir com colegas de diversas áreas a respeito do que temos vivido, como podemos aprender e repensar a nossa sociedade e o futuro a partir do advento da tecnologia.

Já tive a chance de conversar sobre o futuro da indústria do entretenimento com a Didi Wagner, sobre o papel do jornalismo e os desafios da maternidade em tempo de pandemia com a Pétria Chaves, e muitas outras conversas inspiradoras ainda estão por vir. Se você quiser acompanhar esse projeto, siga minhas redes. Estou certa de que a internet ainda pode ser um bom espelho da humanidade. Temos, todos, a responsabilidade de avançar nesse sentido.

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Desafio de educar crianças a distância no Brasil inclui até acesso à luz http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/06/13/edtechs-transformando-a-forma-de-ensinar-e-aprender/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/06/13/edtechs-transformando-a-forma-de-ensinar-e-aprender/#respond Sat, 13 Jun 2020 07:00:47 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=852

(Crédito: Getty Images)

De todas as áreas impactadas pela pandemia de coronavírus, poucas foram tão profundamente afetadas como a educação. 48,5 milhões é o número de alunos que cursam a educação básica no Brasil e que não estão frequentando as aulas presencialmente em atendimento às medidas de distanciamento social. Segundo estimativas da Unicef, mais de 95% das crianças estão fora da escola na América Latina e no Caribe. O número equivale a 1,5 bilhão de estudantes.

Para além dos evidentes impactos que esse evento sem precedentes pode ter para o aprendizado, há outros efeitos que surgem com a não frequência à escola, já que ela é fundamental para os estudantes em outros aspectos como, por exemplo, para apoio psicológico e atividades extracurriculares. Além disso, nunca custa lembrar que a escola é, para muitas crianças e jovens, a principal fonte de alimentação – daí a importância de políticas como a merenda escolar.

Não havia qualquer planejamento ou preparação para esse cenário – seja no Brasil ou em qualquer lugar do mundo. Em um momento de crise e grandes incertezas, foram implementados planos de contingência para tentar garantir uma mínima continuidade das atividades escolares, mesmo que à distância. E como pudemos observar em outras áreas, tais como trabalho e saúde, as ações adotadas envolveram o uso intensivo de tecnologias.

E os resultados também são distintos. Para muitas escolas, o processo tem se desenvolvido bem, com alunos participando de atividades à distância. Para outras, especialmente as públicas, os desafios começaram a aparecer e refletem o cenário de desigualdades existente no país: ausência de conexão à internet, baixas habilidades digitais e também a inexistência de processos pedagógicos específicos para o meio digital.

Ainda assim, o momento atual não deixa de representar um espaço para entender quais os desafios e possibilidades para que o ensino remoto possa ser adotado pelo Brasil, especialmente no contexto pós-crise.

Estamos diante da chance de construir um legado futuro que seja positivo.

O cenário hoje

Segundo um levantamento do CIEB, publicado em abril, das 2.520 redes municipais que já haviam publicado alguma normativa para suspensão das aulas presenciais, 945 (37%) declararam não utilizar nenhum recurso digital. Ainda neste grupo, mais de 90% das secretarias não estavam recolhendo dados sobre os estudantes – por exemplo, presença em aulas ou atividades desenvolvidas.

Como é possível perceber, há um desafio para a incorporação de ferramentas digitais que possibilitem a continuidade das aulas. E mesmo nos contextos em que elas existem, surge um segundo problema: o acesso dos estudantes à internet e ao computador.

Em todo o mundo, 826 milhões de estudantes não possuem computador no domicílio e outros 706 milhões não têm acesso à internet em casa. O cenário se repete no Brasil: segundo a pesquisa TIC Domicílios, publicada em maio pelo Cetic.Br, 20 milhões de domicílios no Brasil não possuem internet – 50% destes pertencentes às classes D/E.

Esse quadro é muito grave porque, na prática, significa que milhões de estudantes não estão conseguindo continuar seus estudos. O resultado pode ser o aprofundamento de problemas já existentes na educação brasileira: evasão escolar, déficit de aprendizagem, oportunidades desiguais e baixo atendimento das necessidades de estudantes.

Feliphe Schiarolli/ Unsplash

Não devemos jogar toda a experiência fora

Não podemos ignorar os diversos problemas que hoje existem para a implementação do ensino remoto a partir de soluções digitais. Em um país com um nível de desigualdade abissal como o Brasil, é preciso reconhecer que nem todos os lares têm acesso à internet, computador e, inclusive, energia elétrica – nas regiões mais remotas do país.

Mas é sempre importante considerar que a tecnologia não é o problema. Ela pode e deve ser uma solução para a construção de uma educação do futuro e das competências digitais – um cenário que deve ser cada vez mais demandado no futuro próximo e não somente no contexto da pandemia.

E os resultados podem ser muito positivos. No GovTech Brasil 2018 [veja vídeo abaixo], Ricardo Paes de Barros, pesquisador do Insper, ressaltou que a inclusão de tecnologias educacionais poderia representar um aumento de oito pontos no desempenho da escala SAEB – sistema de avaliação da educação básica no Brasil. E são várias as suas possibilidades de aplicação: a criação de trilhas pedagógicas e conteúdos personalizados para os alunos; a utilização de diferentes métodos para transformar o ensino em algo mais interessante e engajador; isso sem mencionar as infinitas possibilidades de formação docente e gestão escolar.

Com a pandemia, diversas dessas soluções para o ensino remoto passaram a ser conhecidas, por exemplo, o Centro de Mídias de Educação, no Amazonas, uma experiência que existe há muitos anos para garantir a transmissão de aulas ao vivo e diariamente para comunidades das zonas rurais do estado. Outras iniciativas foram desenvolvidas especialmente como resposta à crise. É o caso do SME Carioca, aplicativo criado pela Prefeitura do Rio de Janeiro para garantir a continuidade das aulas dos mais de 500 mil alunos da rede – da educação infantil até a EJA, educação de jovens e adultos.

Há muito tempo as edtechs também buscam aliar tecnologia à educação. Elas correspondem à maior parte de startups do país – mais de 940 organizações, segundo levantamento da Abstartups. Muitas delas fazem parte da rede do BrazilLAB, como a Faz Game, cuja solução permite que os alunos desenvolvam competências socioemocionais a partir de técnicas para a criação de games educacionais. Ou a MobiEduca.Me, uma plataforma para a gestão escolar completa – desde o controle da presença de estudantes até a avaliação sobre o aprendizado. E a Árvore de Livros, que é a maior plataforma de leitura digital do Brasil e disponibiliza aos estudantes um acervo de mais de 30 mil títulos.

Há diversas possibilidades de aplicação de tecnologias na educação. Independente da solução adotada, é importante compreender que ela é um caminho que deve ser combinado com a infraestrutura necessária e uma visão sobre a estratégia educacional que se deseja implementar.

É verdade que estamos vivendo um momento muito difícil e várias mudanças são necessárias para que a tecnologia possa ser incorporada no cotidiano escolar de maneira mais igualitária. Precisamos também estar atentos e preparados para corrigir os déficits de aprendizado que devem surgir após o período agudo da pandemia – especialmente entre os mais vulneráveis. Mas podemos e devemos aproveitar o momento para identificar quais são os desafios e que estratégias devem ser adotadas no futuro – que será marcado por uma maior presença da tecnologia na educação.

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