Blog GovTech http://govtech.blogosfera.uol.com.br Acelerar ideias e estimular uma cultura voltada para a inovação do setor público. Sat, 18 Jan 2020 07:00:33 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Reinventar o saneamento básico com a tecnologia é desafio para salvar vidas http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/01/18/como-a-tecnologia-pode-ajudar-a-enfrentar-o-desafio-do-saneamento-basico/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/01/18/como-a-tecnologia-pode-ajudar-a-enfrentar-o-desafio-do-saneamento-basico/#respond Sat, 18 Jan 2020 07:00:33 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=525

Ainda vivemos no século XIX quando falamos de saneamento básico. Tecnologia pode ajudar a transformar essa realidade (Pixabay)

No final de 2019, a plataforma de streaming Netflix lançou o documentário “O código Bill Gates”, que investiga a trajetória e a mente do fundador da legendária Microsoft. Uma das passagens me chamou bastante a atenção: após ler uma notícia sobre a morte de crianças em decorrência de diarreia, Bill e Melinda Gates decidem dedicar parte considerável dos recursos de sua fundação filantrópica para enfrentar a falta de saneamento básico, um problema global  que, segundo dados do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), atinge 4,5 bilhões de habitantes do planeta.

E essa é uma realidade difícil de compreender. No Brasil, por exemplo, metade de nossos habitantes não têm acesso à rede de tratamento de esgoto e 35 milhões de brasileiros não são abastecidos por água tratada – número que equivale à população do Canadá. E o impacto desse descaso é cruel. Mais de 1,5 milhão de crianças com menos de 5 anos em todo o mundo morrem devido ao fornecimento inadequado de água. 

Os desafios para mudar esse cenário são enormes e, talvez, o principal deles seja o custo para universalizar o serviço, já que as cifras giram em torno de R$ 508 bilhões só para o nosso país, de acordo com estimativas do Instituto Trata Brasil, para o período de 2014 a 2033. 

No entanto, o grave problema do saneamento básico também pode se tornar uma oportunidade de economia de recursos da ordem de US$200 bilhões, além de um mercado potencial de US$6 bilhões até 2030 – segundo dados da Bloomberg e do Boston Consulting Group (BCG), respectivamente. 

Reinventando o saneamento básico

O saneamento básico compreende, pelo menos, quatro áreas de atuação: o tratamento de esgoto, o abastecimento de água, a gestão de recursos pluviais (chuva) e dos resíduos sólidos. E garantir um atendimento adequado desses componentes tem sido um desafio não só para países pobres, mas também para aqueles que possuem muitos recursos.

Para os países em desenvolvimento, o desafio é assegurar soluções que sejam baratas e que possam ser replicadas em larga escala. Já as nações com mais recursos, que contam com uma oferta de saneamento organizada, têm o desafio de realizar a manutenção de sua estrutura – muitas vezes antiga e cara – e garantir o atendimento enquanto o número de habitantes cresce. Essa é a realidade de grandes metrópoles como, por exemplo, São Paulo.

Esse cenário transforma o saneamento básico em uma equação bastante difícil de se resolver: o desafio é urgente, tem alto impacto mas, ao mesmo tempo, precisa de soluções de baixo custo e que possam ser implementadas em distintos contextos. Ele é um problema complexo e, como tal, demanda iniciativas inovadoras – e a tecnologia tem se mostrado como o principal elemento para balancear esses fatores.  

 A falta de saneamento básico é um problema humanitário, urgente e que tem comprometido o desenvolvimento de países (Pixabay)

Nada se perde, tudo se transforma

As tecnologias recentes têm combinado ciência e inovação para dar novo destino aos detritos e propor novas soluções para o tratamento da água. Entre as estratégias utilizadas estão a oxidação úmida, combustão seca, estações de biotratamento e processamento eletroquímico. Os nomes soam complexos, mas trazem consigo uma excelente notícia: quando falamos de saneamento básico, o antigo (e caro) modelo de sistemas de esgotos, canos e estações de tratamento pode estar com os dias contados.

Algumas startups perceberam a oportunidade desse mercado e têm desenvolvido novas soluções a cada dia, inclusive aqui no Brasil.

Um exemplo é a startup SDW (Safe Drinking Water for All), fundada pela biotecnologista baiana, Anna Beserra. A solução, chamada Aqualuz, implementada na região do semiárido nordestino, utiliza somente a energia solar para filtrar a água de cisternas, deixando-a própria para o consumo humano. A solução custa, em média, R$ 400, dura 20 anos e sua operação pode ser realizada de maneira muito simples, pelas próprias famílias. Graças ao sucesso da iniciativa, a fundadora recebeu, em 2019, a premiação Jovens Campeões da Terra, organizado pela ONU.

Outra startup do ramo é a Oncase, uma das selecionadas no 4o Ciclo do Programa de Aceleração do BrazilLAB. No Brasil, 38,5% da água distribuída é perdida, segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) de 2018. A empresa viu nesse problema uma oportunidade e desenvolveu a Scora Acqua, uma solução que combate o desperdício a partir da utilização de inteligência artificial, que identifica, analisa e seleciona equipamentos que devem ser substituídos. 

As experiências de sucesso vêm também de outros países. A Ekam Eco Solutions, por exemplo, desenvolveu um sistema de sanitários que independe de água para o seu funcionamento. De maneira semelhante, a 3S (Sanitation Solution Simplified) criou um modelo de sanitários de baixo custo e alta eficiência que já foi implementado em várias localidades da Índia.

Para não deixar dúvidas

A falta de saneamento básico é um problema humanitário, urgente e que tem comprometido o desenvolvimento de vários países, incluindo o Brasil. Ele pode até parecer invisível, mas a verdade é que representa uma ameaça à vida das pessoas – quase sempre as que já estão em maior situação de vulnerabilidade social e econômica.

Não há como avançar sem que essa questão esteja resolvida. Levará tempo, é verdade, mas a boa notícia é que a tecnologia é um instrumento poderoso para enfrentar esse desafio. Os exemplos estão surgindo, cada vez mais disruptivos e inovadores; e o resultado também surgirá: segundo o Instituto Trata Brasil, para cada R$ 1 investido em saneamento básico, é possível gerar uma economia de R$ 4 em gastos com saúde.

]]>
0
Como os drones têm transformado nossas vidas – e quais são os seus riscos http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/01/11/como-os-drones-tem-transformado-nossas-vidas-e-quais-sao-os-seus-riscos/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/01/11/como-os-drones-tem-transformado-nossas-vidas-e-quais-sao-os-seus-riscos/#respond Sat, 11 Jan 2020 07:00:24 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=514

Drones trazem benefícios e riscos. É importante analisar seu propósito (Pixabay)

Uma notícia tomou conta das manchetes de jornais na última semana: o governo dos Estados Unidos, sob liderança do presidente Donald Trump, realizou uma ação que resultou na morte do general iraniano Qassem Soleimani. Ainda vamos acompanhar os desdobramentos desta investida, mas um aspecto chama bastante atenção: o ataque foi realizado por um veículo aéreo não tripulado (VANT), conhecido mais popularmente como drone.

Os drones são aeronaves que não necessitam de um piloto a bordo, podendo ser guiadas à distância por um controle remoto. O seu uso nos esforços de guerra não é uma novidade, já que esses equipamentos nasceram exatamente com esse propósito. Já o número e a aplicação para outras finalidades é que tem se tornado uma tendência crescente no mundo e no Brasil: segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), até dezembro de 2017 havia 30.087 drones registrados no Brasil. Em 2019, esse número saltou para 79.671 – um crescimento, portanto, de 165% em apenas 2 anos.

Grande parte desses equipamentos ainda é utilizada com finalidades recreativas, porém, quase 40% do total foi registrado como sendo de uso profissional. E as aplicações são as mais diversas: monitoramento de fronteiras, transporte de medicamentos, resgates e salvamentos, combate ao desmatamento e a focos de doenças – como a dengue – atividades na agricultura e tantas outras.

Como em outras tecnologias, o impacto dos drones tem se mostrado determinante: dados da consultoria PwC revelam que, até 2030, este mercado poderá trazer um crescimento de 42 bilhões de libras ao PIB do Reino Unido, aliado ao surgimento de 628 mil empregos para garantir a operação dos 76 mil equipamentos que estarão em uso.

O céu já não é o limite

A base de dados da Crunchbase contabiliza mais de 330 startups atuando no mercado de drones no mundo, com valores que superam US$ 2 bilhões de investimentos.

Um exemplo de empresa que atua neste setor é a Wing, startup que pertence à Alphabet (holding do Google). Ela promete fazer entregas – de remédios até alimentos – percorrendo uma distância de 9,6 quilômetros em até 6 minutos (“6 miles in 6 minutes”). Com operação nos Estados Unidos, Finlândia e Austrália, os drones da startup são controlados por um software o que, segundo informações, garante um processo autônomo e seguro.

Já a Zipline atua em Ruanda e Gana no envio de suprimentos médicos – como remédios e bolsas de sangue – para comunidades localizadas em áreas de difícil acesso. Desde 2014, foram realizadas mais de 26 mil entregas por drones da companhia. Os números são surpreendentes: uma viagem que antes demoraria 5 horas, pode ser realizada, pelo drone, em média, com 30 minutos entre o pedido e entrega final. A iniciativa, inclusive, chamou a atenção de Bono Vox que, além de vocalista do U2, é filantropo e realizou investimentos na startup, passando a compor seu conselho. Segundo o músico, o lugar em que uma pessoa nasce não deve definir se ela pode viver, e a Zipline tem acabado com as distâncias, fazendo o que antes se pensava impossível. 

No Brasil, os drones têm se mostrado um importante aliado para as atividades de inteligência na área de segurança pública, como no processo de planejamento de operações, na investigação de crimes e até a vigilância de áreas de risco. No estado de São Paulo, segundo dados de abril de 2019, havia 250 drones em operação; a estimativa é de que o custo operacional de um drone de alta tecnologia seja 140 vezes menor do que o custo de um helicóptero da Polícia Militar. A tecnologia tem sido utilizada pela Prefeitura de São Paulo para o monitoramento de regiões de alta vulnerabilidade, como a Cracolândia. E também está presente em outros Estados, como Bahia e Rio de Janeiro.

Recentemente, os drones também foram estratégicos no combate aos efeitos de desastres ambientais, seja no monitoramento de áreas atingidas pelo derramamento de óleo na região nordeste do país, assim como no trabalho de identificação de áreas com queimadas na região amazônica.  

É preciso orientar e regular

Assim como acontece com outras tecnologias, os drones despertam muitas dúvidas sobre os potenciais riscos atrelados à sua utilização, como erros na operação e desvios em sua utilização, por exemplo. É importante ressaltar que nenhuma inovação é, por si, boa ou ruim, já que os resultados obtidos com a sua aplicação dependem dos propósitos aos quais ele serve. 

Para diminuir os riscos da má utilização desta tecnologia, é essencial assegurar a existência de uma legislação que regule a sua utilização para evitar desvios que possam causar algum dano à integridade física e à privacidade dos cidadãos. No Brasil, está em tramitação um projeto de lei especificamente voltado à regulação do uso de drones na segurança pública, por exemplo; atualmente, essas orientações são encontradas em normativas da ANAC.

É imprescindível também garantir treinamento adequado aos responsáveis pela operação desses equipamentos. Somente investindo na formação de pessoas podemos assegurar que as políticas públicas possam se beneficiar das vantagens trazidas pela tecnologia dos drones, sem comprometer o bem-estar dos cidadãos.

]]>
0
Por que você deve ser otimista com a inovação dos governos no Brasil? http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/01/04/por-que-voce-deve-ser-otimista-com-a-inovacao-dos-governos-no-brasil/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2020/01/04/por-que-voce-deve-ser-otimista-com-a-inovacao-dos-governos-no-brasil/#respond Sat, 04 Jan 2020 07:00:24 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=499

O cenário das GovTechs no Brasil é uma das grandes boas notícias de 2020 (Franck V. / Unsplash)

Em dezembro, o BrazilLAB, hub de inovação que acelera soluções e conecta empreendedores com o setor público, divulgou o resultado de seu  Ciclo de Aceleração de GovTechs: ao todo, foram mais de 300 inscrições de startups interessadas em oferecer soluções ao setor público – 25% delas já vendendo para governos. 

Considerando a estimativa de que 1500 startups atuem hoje no Brasil em temas relacionados ao governo, é possível dizer que o Programa de Aceleração é um relevante termômetro sobre o ecossistema de GovTechs. Somando todas as quatro edições, ao total já foram mais de 950 startups inscritas. O cenário é muito promissor.

Motivações para transformar os governos

Uma importante constatação sobre 2019 é que a transformação digital no Brasil já começou: hoje é possível realizar pedidos de aposentadoria, licença maternidade, carteira de trabalho digital e carteira de vacinação internacional pela internet ou por aplicativos de celular.

No entanto, a agenda da transformação não poderá se consolidar dentro do governo sem a participação de atores externos, que possam tanto garantir o cumprimento dos resultados, mas também trazer ideias inovadoras.

Dentre esses atores, os empreendedores de negócios B2G (business to government) são os principais: as suas startups trazem soluções disruptivas que pode transformar as estruturas burocráticas dos governos para trazer mais qualidade e eficiência aos serviços públicos. E o mercado das GovTechs traz cifras que impressionam: os negócios B2G podem movimentar US$ 400 bilhões até 2025. E mais: estima-se que, globalmente, a economia anual decorrente da digitalização do governo seja da ordem de US$ 1 trilhão. 

Boas ideias de toda a parte 

As inscrições para o Programa de Aceleração 2019 do BrazilLAB vieram de 23 Estados e Distrito Federal, com destaque para São Paulo, com 35% das inscrições, seguido do Rio de Janeiro, com 10%. Ao todo, 91 cidades brasileiras estão representadas. O número de inscrições internacionais também surpreendeu, já que este ano startups da Estônia, Colômbia, Finlândia, Argentina, Portugal e Índia também se candidataram ao Programa de Aceleração.

Foram selecionadas 28 startups que apresentaram soluções para os 3 desafios propostos: Smart Cities e UrbanTechs, Habilidades na Sociedade 5.0 e Eficiência na Gestão Pública. A maior parte das selecionadas (46,4%) têm atuado nos desafios da gestão pública, que envolve a busca de soluções não só para o Poder Executivo, mas também para o Legislativo e Judiciário. 

Recebemos inscrições de projetos incríveis, como o da startup Colab (São Paulo, SP), que apostou no desenvolvimento de um canal de comunicação e relacionamento direto entre governo e cidadão. O aplicativo permite que cada cidadão possa registrar problemas da cidade – como uma lixeira quebrada, buraco na via, árvore que precisa de poda – compartilhando a informação para que a prefeitura possa encaminhar uma solução. Por sua vez, a Atlas.IA (Florianópolis, SC) criou a MAIA, uma solução baseada em inteligência artificial que pode ser aplicada no Poder Judiciário para dar maior agilidade na resolução de demandas repetitivas apresentadas aos Tribunais. Outro exemplo é a Parças – Developers School (São Paulo, SP), startup que implementa cursos de programação para adolescentes que estão no sistema socioeducativo, aliando a justiça restaurativa à tecnologia, educação e empregabilidade.

A missão do Programa de Aceleração do BrazilLAB é fomentar uma cultura de inovação no setor público, promovendo ferramentas para construir governos eficientes e que permitam que o cidadão seja o foco central das políticas públicas. As startups são essenciais para que essa transformação ocorra “de fora para dentro” e com a qualidade e rapidez tão necessárias para enfrentar os desafios mais urgentes de nosso país.

]]>
0
Viu como a revolução digital avançou? Seu voto também pode ajudar em 2020 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2019/12/30/viu-como-a-revolucao-digital-avancou-entao-cuide-do-seu-voto-em-2020/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2019/12/30/viu-como-a-revolucao-digital-avancou-entao-cuide-do-seu-voto-em-2020/#respond Mon, 30 Dec 2019 07:00:05 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=481

2020 promete ser ainda mais disruptivo no Brasil – e as eleições municipais serão um importante acontecimento (shayne_ch13/ Freepik)

Estamos a um passo de entrar na segunda década do século 21. É visível como o mundo está cada vez mais acelerado e como a tecnologia se inseriu no nosso dia a dia. No Brasil, os dados revelam que na média já são dois smartphones por pessoa e que gastamos 9 horas por dia na internet

Tudo ficou mais fácil. Pedimos comida e transporte em um simples clique, temos a chance de pesquisar milhares de sites antes de efetuarmos uma compra e a educação, de uma certa forma, se tornou mais acessível e democrática. Por conta do avanço da economia compartilhada, as novas gerações também já não estão tão presas a sonhos de consumo de ativos fixos como carro, apartamento, entre outros. A qualidade de vida e as experiências se tornaram os bens mais desejáveis.  

Se por um lado temos a tecnologia como uma ferramenta importante para a evolução da sociedade, de outro ainda ficam os alertas de que é necessário nos mobilizarmos para entendermos os efeitos colaterais da revolução digital.

São inúmeras as perguntas que ainda não foram respondidas – qual o impacto da exposição do ser humano à tanta tecnologia? O mundo está mais ansioso por conta da dependência que temos hoje do nosso celular e da exposição às redes sociais? O que precisa ser regulamentado para que a revolução digital seja de fato democrática e acessível a todos? Quais são os dilemas éticos que ainda vamos enfrentar?     

Foi nessa lógica que construímos ao longo do ano de 2019 diferentes reflexões aqui no nosso blog. Alguns textos destacaram os avanços da tecnologia e o impacto positivo para resolvermos problemas complexos da sociedade, enquanto outros trouxeram reflexões importantes a respeito dos desafios que vivemos – ou que ainda iremos viver – a partir dessa revolução. Sendo assim, convido você, leitor, para uma breve retrospectiva. 

2019: o poder da tecnologia  

No início do ano, falamos sobre o custo dos congestionamentos e como a tecnologia pode ajudar a resolver esse problema. Somente nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro estima-se um custo total de R$ 98 bilhões por ano. Este é um grande desafio que continua comprometendo a qualidade de vida das pessoas que vivem em grandes cidades. 

O fato positivo é que a população urbana aderiu a novos modais – como o compartilhamento de carros, bicicletas e patinetes por aplicativos. Inúmeras startups surgiram e estão focadas em contribuir com soluções para a mobilidade urbana. E mesmo que alguns setores se sintam ameaçados pelas novidades, dificilmente as pessoas irão abrir mão da facilidade gerada por essa inovação. Justamente pensando sob essa lógica que discutimos aqui no blog o quanto prefeitos e gestores públicos podem aprender com as UrbanTechs, empresas como Uber, Airbnb e outras.

Tragédias fizeram parte de 2019. E isso não é algo pontual deste ano, claro, mas foi possível ver que a presença da tecnologia poderia sanar muitos de nossos maiores temores. O caso de um novo rompimento de barragem em Minas Gerais, em janeiro passado, evidenciou que sistemas de alarme e monitoramento são fundamentais para o controle nesse ramo. O tema meio ambiente foi amplamente discutido e,  em agosto, quando o dia virou noite em São Paulo, Mato Grosso e Paraná por conta de queimadas na região amazônica, mais uma vez o poder da tecnologia em fazer o controle ambiental foi percebido como central.

Tudo isso impactou de maneira premente a vida da população brasileira. E a existência e atuação de startups foi lembrada em nosso blog sob diferentes temas e perspectivas – desde a questão da inclusão dos idosos na revolução digital até os avanços e impactos no sistema de saúde e educação

Diferentes experiências internacionais também foram relatadas, como o caso de Portugal que tem avançado muito na digitalização de seus serviços públicos e a experiência da Coreia do Sul que já investe pesado para a implantação do 5G.

Em julho de 2019 tivemos também o fim dos likes no Instagram e apesar de toda polêmica a respeito dos reais motivos do aplicativo por trás dessa estratégia, o fato é que isso gerou uma série de reflexões importantes sobre a saúde mental das pessoas e o quanto de fato nós estamos no controle do nosso “eu digital”.

E sendo a maior razão da existência desse blog, discutimos também, ao longo de todo o ano, a importância dos governos aderirem a pauta de transformação digital. Inteligência artificial, blockchain,  entre outras tecnologias, quando aplicadas para a construção do Governo 4.0 têm o potencial – só no Brasil – de aumentar até 5,7 % do PIB.

2020: cidades digitais 

O ano de 2020 promete ser ainda mais disruptivo. No Brasil teremos grandes oportunidades visto que as eleições municipais serão um importante acontecimento para o nosso país. 

Os mais de cinco mil municípios brasileiros terão novas lideranças políticas que, por sua vez, encontrarão desafios muitas vezes antigos, já conhecidos e que continuam a comprometer a vida da população: falta de saneamento básico, baixa cobertura de serviços de saúde, sensação de insegurança, aprendizado insuficiente dos estudantes, entre tantos outros. 

A tecnologia e as GovTechs têm um potencial enorme de melhorar a vida nas cidades, produzindo soluções para os mais diversos desafios existentes.  Cidades cada vez mais digitais com foco na melhoria da vida das pessoas e na inclusão plena será uma grande tendência em 2020 e o blog se dedicará a cobrir este tema, incluindo pesquisas e experiências relevantes.

O momento de pausa entre um ano e outro é sempre importante para fazermos um balanço dos avanços, desafios e, ainda, reprogramar prioridades. Se você também espera um Brasil mais digital e inclusivo, escreva aqui nos comentários quais são outros temas importantes que gostaria de debater. 

Boa virada digital para todos! Até 2020! 

]]>
0
Tecnologia na educação não é trocar caderno por tablet. Veja o que pode vir http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2019/12/21/tecnologia-na-educacao-nao-e-trocar-caderno-por-tablet-veja-o-que-pode-vir/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2019/12/21/tecnologia-na-educacao-nao-e-trocar-caderno-por-tablet-veja-o-que-pode-vir/#respond Sat, 21 Dec 2019 07:00:34 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=471

Jovens podem se beneficiar da ampla variedade de recursos e aplicações trazida pelas soluções tecnológicas (Unsplash)

A tecnologia tem transformado todas as dimensões de nossas vidas. Não poderia ser diferente na educação, principalmente considerando que as crianças e adolescentes da chamada geração Z – os nascidos entre meados dos anos 1990 até o início do ano 2010 – são os principais usuários de tecnologias e da internet. Mas, para além de serem recebedoras de novos dispositivos e da conexão, as crianças precisam ser guiadas a promover seu próprio futuro. Esse, sim, é um presente de valor inestimável – e não apenas para esse Natal.

Dados do Cetic.br colhidos pela pesquisa TIC Kids 2018 mostram como as crianças e jovens estão conectados: 77% das crianças de 9 a 10 anos acessaram a internet nos últimos 3 meses; esse número salta para 94% quando analisada a faixa etária de 15 a 17 anos. Em todas as regiões do país, o acesso ultrapassa os 70%, com destaque para a região Sul, em que 95% de crianças e adolescentes de 9 a 17 tiveram acesso à rede. 

Esses dados podem soar como uma ameaça para os que acreditam que as tecnologias têm transformado as interações humanas – deixando a todos nós como seres distantes e até mesmo alienados da realidade. Mas o cenário é positivo: segundo um levantamento da J‑PAL North America, organização ligada ao MIT (Massachusets Institute of Technology), há evidências científicas de que o uso de tecnologias traz impactos positivos para ampliar o engajamento das famílias e o aprendizado de estudantes, sobretudo em matemática.

A verdade é que, quando estimuladas com a tecnologia correta e com a orientação educativa adequada, crianças e adolescentes podem se beneficiar da ampla variedade de recursos e aplicações trazida pelas soluções tecnológicas. Educação e desenvolvimento cognitivo que abracem e envolvam a tecnologia são, aliás, um fenômeno que já surge com força em muitas escolas brasileiras. Mas quase sempre aquelas da esfera particular.

Acontece que as escolas públicas, por sua vez, têm um papel fundamental na inovação e no impacto social. Segundo dados do Censo Escolar de 2018, das quase 182 mil escolas de educação básica existentes no Brasil, 141,3 mil são públicas (aproximadamente 77%). O ensino público é amplo e tem a capacidade de alcançar grande parte das crianças e jovens do país. Cada aluno ou professor que se vê envolvido em um projeto de inovação tech traz boas ideias para a comunidade – pois, é claro, essas ideias vão refletir demandas que representem a realidade daquelas pessoas.

Para sermos mais precisos, a tecnologia aplicada ao aprendizado é capaz de mudar até o básico: manter as crianças interessadas nos estudos e prevenir que os adolescentes se sintam desestimulados e abandonem as aulas, por exemplo. Ela também é essencial para formar cidadãos que possam contribuir para o futuro do país. Nesse sentido, o panorama é preocupante: uma avaliação do Brookings Institution, organização sem fins lucrativos que estuda políticas públicas situada em Washington DC (EUA), se o setor educacional permanecer em sua trajetória atual, até 2030, metade de todas as crianças e jovens do mundo não terão as habilidades básicas de nível secundário necessárias para prosperar.

Todos conectados pela educação

Ainda que os dados mostrem uma alta conectividade de crianças e adolescentes, as atividades online não são necessariamente educativas, estando concentradas principalmente no entretenimento. Esse é um importante aspecto da questão: o simples uso da tecnologia não garante um impacto no aprendizado, dado que o acesso à rede ou às ferramentas nem sempre está focado em atividades educacionais. Além disso, a introdução de ferramentas tech nas escolas, hoje, geralmente se concentra no reforço das práticas tradicionais de ensino – em vez do que é realmente necessário para dar um salto na educação, que é aplicar, avaliar e criar conhecimento. Em outras palavras: não adianta apenas deixar o caderno de lado e colocar um tablet no lugar. É preciso mais.

Wadi Lissa/ Unsplash

De maneira geral, a tecnologia pode ajudar a enfrentar três principais desafios da educação. Primeiro, o da qualidade do aprendizado. Para isso, os recursos tecnológicos podem ampliar e potencializar o alcance das lições passadas pelos professores, reforçando os conteúdos por meio de vídeos e apoiando experiências de aprendizado lúdicas. Eles também apresentam a possibilidade de personalização, dado que as plataformas podem acompanhar o progresso de cada aluno de uma maneira individualizada, apontando que caminho seguir para alcançar o desempenho desejado. 

A partir do uso de tecnologias, também é possível ampliar o acesso de estudantes. Pensando na realidade de um país de dimensões continentais como o nosso, as barreiras geográficas podem não mais ser um empecilho a partir da utilização de recursos simples, como as vídeo-aulas e as plataformas com conteúdos de ensino; com eles, qualquer pessoa, de qualquer lugar, pode ter acesso a conhecimentos e ao aprendizado. 

A permanência de estudantes é o terceiro desafio que pode se beneficiar do uso de tecnologias. Transformar o ato de aprender em algo que seja contemporâneo, estimulante, desafiador e atrativo para os estudantes é imprescindível para mantê-los engajados. 

A adição da tecnologia nas escolas, é bom fazer o reforço, não significa subtrair os professores. Um estudo de 2016 feito pela consultoria McKinsey relatou que o ensino é uma das profissões menos prováveis ​​de serem completamente automatizadas. Quando usada efetivamente como uma ferramenta para aprimoramento, seu poder é focado em transformar as interações entre alunos e professores, potencializando o aprendizado.

Por onde a transformação deve começar

Para que tudo isso aconteça, antes de tudo, é preciso garantir as bases para o desenvolvimento e o uso das tecnologias. E eles são muitos: coleta de dados, conexão com a internet, desenvolvimento de softwares e também a infraestrutura de hardware, que são os computadores, tablets e outros equipamentos.

O estímulo e financiamento a outros players desse setor é também um ponto crucial: as EdTechs, startups focadas na área da educação, têm papel decisivo em solucionar e otimizar esses problemas. Apenas no Brasil, hoje, somam-se mais de 700 empresas consideradas EdTechs; grande parte delas foca a educação infantil e básica, algo importante para enraizar novas mentalidades; muitas outras criam ferramentas focadas nos adolescentes e jovens; e um número menor faz um trabalho também muito interessante e importante – de incluir crianças das zonas rurais e aquelas que estão fora das escolas por motivos de violência ou abandono.

Algumas dessas startups fazem parte do portfólio de parceiras do BrazilLAB. Uma delas é a Árvore Educação, que disponibiliza mais de 30 mil livros em seu acervo, além de ferramentas de suporte pedagógico aos professores, contribuindo para ampliar o acesso de crianças e jovens à leitura. E o eduq+ da Movva, uma solução baseada em nudgebot, em outras palavras, que busca influenciar de maneira positiva o comportamento dos indivíduos: a ferramenta envia mensagens semanalmente para as famílias, buscando ampliar a participação na vida escolar de seus filhos. Os resultados são relevantes: em seis meses de uso da plataforma, houve um aumento de 15% da participação dos alunos nas aulas e a diminuição em 33% da taxa de reprovação.

Todo esse ecossistema deve ser incentivado a continuar dando suporte e a criar métodos disruptivos de aprender. Os agentes de governo, por sua vez, precisam se abrir para liderar a inovação educacional. O melhor presente para as crianças e jovens pode estar mesmo ligado a um computador, celular ou videogame nesse Natal. Mas não fora da escola, e sim unido a ela em prol da ampliação e da ressignificação do aprendizado.

]]>
0
Fim da fila de espera e mais: como startups querem recriar o setor de saúde http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2019/12/14/a-saude-recriada-como-a-tecnologia-vai-transformar-a-vida-dos-cidadaos/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2019/12/14/a-saude-recriada-como-a-tecnologia-vai-transformar-a-vida-dos-cidadaos/#respond Sat, 14 Dec 2019 07:00:54 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=463

As tecnologias podem ajudar a enfrentar os desafios para o agendamento de consultas (FreePik)

O Sistema Único de Saúde, conhecido como SUS, é uma das maiores e mais complexas políticas públicas de assistência à saúde do mundo. Os serviços oferecidos vão desde a oferta de vacinas, a partir da atenção primária, até procedimentos altamente complexos, como os transplantes de órgãos. E com um destaque: o atendimento é totalmente universal, integral e gratuito. 

Apesar de sua grandiosidade, o SUS é grande alvo de críticas pela baixa qualidade de seus serviços. Segundo pesquisa Ibope de 2018, 75% dos brasileiros avaliam a saúde pública como ruim ou péssima; em 2011, esse percentual era de 61%. E não para por aí: oito em cada dez brasileiros concordam que já deixaram de procurar um médico ou fazer exames pela dificuldade no agendamento. A saúde privada também não escapa das avaliações negativas: em pesquisa publicada em 2018 pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), 94% dos que possuem plano de saúde avaliam a saúde – seja pública ou privada – como ruim ou péssima. 

Os dados demonstram que toda a insatisfação tem justificativa. Em 2017, eram quase 1 milhão de pessoas na fila de atendimento de Estados e capitais do país, com mais da metade dos procedimentos concentrada em cirurgias de baixa complexidade, como catarata, retirada da vesícula e varizes.

O desenvolvimento de novas tecnologias traz infinitas possibilidades para a saúde. E esse tem sido um tema altamente trabalhado no mundo das startups. Segundo dados de 2019 da Startup Genome, o Brasil é o maior mercado de healthcare da América Latina e o sétimo maior do mundo, com mais de US$ 42 bilhões gastos anualmente em atendimento privado. Há 353 startups atuando no ramo de healthtech no país, sendo que quase 35% concentradas no Estado de São Paulo, de acordo com levantamento da Abstartups. Os números já são animadores, mas ainda há muitas possibilidades para crescimento e para alcançar também o setor público. 

O básico e o sofisticado salvando vidas

Desde a melhoria da burocracia até o aprimoramento de serviços médicos, as possibilidades de aplicação de tecnologias em saúde são as mais diversas: robótica, wearables (ou seja, as tecnologias para “vestir”, como um relógio que monitora a pressão arterial), monitoramento remoto, impressão 3D, registros eletrônicos de saúde, Big Data, realidade virtual e aumentada, telemedicina, inteligência artificial e muitas outras.

No aspecto burocrático, por exemplo, registros eletrônicos de saúde, substituindo os de papel, já são realidade em alguns países e mudam a interação de todos com a medicina: permitem que pacientes possam não apenas acessar seus registros com um clique, mas também com a garantia de que erros sejam evitados ou detectados rapidamente, além de possibilitarem a existência de dados valiosos a pesquisadores, ajudando a aprimorar o conhecimento médico e o desenvolvimento de tratamentos.  

As tecnologias podem também ajudar a enfrentar os desafios para o agendamento de consultas: as filas não fazem mais sentido para o cidadão e representam perda de recursos também para o setor público. Assim, a automação de agendamentos de consultas e exames é uma urgência. A UpSaúde, uma das startups aceleradas pelo hub de inovação BrazilLAB, é uma GovTech que atua justamente nesse sentido, sendo uma plataforma de telemedicina.

Em relação ao atendimento médico em si, o uso de tecnologias permite a atenção remota aos pacientes. Não se trata de substituir a presença de um profissional, mas sim facilitar e agilizar o acesso no caso de procedimentos mais simples: contatar um enfermeiro que tire dúvidas sobre cuidados ou um médico que avalie o exame pedido, ações ideais para os sistemas de vídeo – que economizam deslocamentos e muito tempo. 

A tecnologia também tem sido aplicada para tratar os principais males do nosso século: as doenças relacionadas à saúde mental. A Organização Mundial da Saúde registra que uma em cada quatro pessoas no mundo será afetada por distúrbios mentais ou neurológicos em algum momento de suas vidas. Atualmente, cerca de 450 milhões de pessoas sofrem dessas condições.

A norte-americana Spring Health é uma startup que visualizou o problema e criou uma solução a partir dele. Reunindo e tratando dados, a empresa se dispõe a entender as necessidades de trabalhadores com questões de saúde mental e prever o tratamento certo para acelerar a recuperação, tudo com base nas soluções de machine learning. A atuação junto aos usuários pode sugerir medicamentos, exercícios de mindfulness e até terapia por teleatendimento. Desde sua fundação, em 2016, a Spring Health levantou US$ 8 milhões e foi contratada por gigantes como Gap, Whole Foods e Equinox.

As healthtechs oferecem uma variedade de soluções para os desafios em saúde, trazendo maior agilidade, qualidade e maior acesso para os serviços desse setor tão essencial em nossas vidas. Não há dúvidas de que a tecnologia será, daqui por diante, uma ferramenta valiosa nas mãos dos especialistas e um remédio eficaz para a vida plena da população.

]]>
0
Governo começa a estudar a inteligência artificial; devemos ter medo? http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2019/12/07/por-que-nao-devemos-temer-a-inteligencia-artificial/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2019/12/07/por-que-nao-devemos-temer-a-inteligencia-artificial/#respond Sat, 07 Dec 2019 07:00:51 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=452

Pixabay

A inteligência artificial tem estado presente no imaginário coletivo há muito tempo. Quase sempre retratada de maneira negativa em filmes futuristas, a partir de cenários de disputa entre máquinas e seres humanos, não é surpresa reconhecer que muito pouco tem se discutido sobre os avanços e possíveis benefícios trazidos por essa tecnologia disruptiva. 

Para começar: a inteligência artificial, ou IA, consiste em um processo no qual as máquinas conseguem desenvolver aprendizado a partir da análise de grandes volumes de dados. Ao entender os padrões existentes, elas podem desenvolver ações muito similares àquelas que são realizadas por nós, humanos: de um jogo de xadrez até o diagnóstico de doenças a partir de exames médicos. 

O temor de que a IA possa transformar o ser humano em uma figura obsoleta está, de fato, muito presente: segundo pesquisa realizada pela consultoria BCG, o impacto sobre a geração de empregos e as implicações éticas são os principais receios de quase 14 mil participantes do estudo. Ainda, 25% manifestaram receio sobre a existência de discriminação ou viés pela IA, ao passo que 31% destacaram como preocupação a baixa transparência no processo decisório da tecnologia. Considerando o papel do governo, 58% acreditam que ele deve regular o uso da IA de modo a assegurar que as vagas de trabalho hoje existentes não serão extintas.

Ainda que o medo seja um fator considerável, também é verdade que as organizações governamentais, instituições de ensino, profissionais de saúde e outros agentes públicos estão cada vez mais reconhecendo, em todo o mundo, que atender às necessidades dos cidadãos demandará a adoção de novas tecnologias. E a inteligência artificial pode representar essa importante ferramenta para expandir as capacidades humanas, trazendo mais eficiência e efetividade também para o governo. 

O Brasil está dando os primeiros passos para se inserir neste movimento transformador. Recentemente, o Ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, anunciou a criação de oito laboratórios de inteligência artificial no país. Pontes afirmou que quatro laboratórios estarão diretamente ligados a temas específicos – cidades 4.0, indústria 4.0, agro 4.0 e saúde 4.0 -, um será dedicado à questão de cibersegurança e, dos três restantes, um será ligado à inteligência artificial aplicada à administração pública. Este é uma importante medida para transformar o cenário governamental como o conhecemos. 

Cidadãos querem mais

Para quem lê as manchetes dos jornais, pode haver a sensação de que um investimento em inteligência artificial está distante do que o país precisa. Mas o cenário precisa ser avaliado de uma maneira bem mais ampla.

A geração dos Millennials (nascidos nos anos 1980 e 1990) e a geração Z (nascidos entre o final dos 1990 e até 2010) têm expectativas diferentes de seus pais. Com a globalização e a democratização do conhecimento a partir dessas gerações, impulsionadas, principalmente, pela internet e os dispositivos móveis, o cidadão médio passou a consumir serviços de todos os tipos de uma maneira totalmente nova. Desde o pagamento de um imposto diretamente pelo smartphone até a localização, em tempo real, do ônibus, passamos a desejar acesso a serviços de saúde, educação e tantos outros de uma maneira mais conveniente. E a inteligência artificial geralmente é a solução para fornecê-lo.

Por exemplo, essa tecnologia pode apoiar o governo a receber, armazenar e gerenciar um volume avassalador de dados – que hoje, estão quase sempre desconectados entre as diversas instituições públicas. Com a inteligência artificial, há um imenso ganho não só pela conexão desses bancos, mas principalmente pela geração de insights ricos e capazes de otimizar decisões e ações de prefeituras, estados e do governo federal.

Outro grande desafio governamental que a tecnologia abraça é a segurança cibernética. Ao manter sistemas antiquados, os governos gastam muito tempo tentando protegê-los – o que pode, inclusive, expor informações e dados confidenciais a fraudes e colocar em risco todo o ecossistema. 

A economia é outro ponto central na defesa da IA no setor público. Um relatório da consultoria Deloitte, avaliando o cenário dos EUA, estimou que simplesmente automatizar tarefas que os computadores já fazem rotineiramente poderia liberar 96,7 milhões de horas de trabalho da esfera federal anualmente – economizando em torno de US$ 3,3 bilhões. Mas, se fossem aplicadas tecnologias de inteligência artificial nos projetos, seriam liberadas 1,2 bilhão de horas de trabalho por ano, gerando uma economia de US$ 41,1 bilhões.

As aplicações da IA são concretas e infinitas: uma análise minuciosa de imagens de vídeo pode ajudar a encontrar suspeitos em casos criminais; um sistema integrado pode identificar, dentre os alunos em uma classe, quem precisa se dedicar mais a qual tema para evoluir; uma varredura no sistema de saúde identifica, pelo registro de atendimentos, quais ações podem controlar uma epidemia. 

Ser humano em uma realidade de IA

As preocupações que envolvem o uso de IA são reais, relevantes e não podem ser ignoradas. Também é verdade que a transformação digital é um caminho de grande impacto positivo e para o qual não há volta. Assim, nos resta decidir como queremos nos inserir na mudança. 

Em um momento de transição tecnológica e em que muitas perguntas ainda não possuem resposta, podemos trabalhar com base em alguns princípios: a construção de confiança, a transparência no processo e o fortalecimento das capacidades de instituições públicas liderarem a transformação. Há muitos benefícios trazidos pelas tecnologias e pela IA – não podemos deixar que o medo nos impeça de aproveitá-los.

]]>
0
Digitalização de serviços tem potencial de subir PIB e economizar dinheiro http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2019/11/30/ramo-das-govtechs-aquece-o-mercado-de-startups-no-brasil/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2019/11/30/ramo-das-govtechs-aquece-o-mercado-de-startups-no-brasil/#respond Sat, 30 Nov 2019 07:00:28 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=438

A digitalização de serviços pode trazer ao Brasil um aumento de 5,7% do PIB (Dylan Gillis/Unsplash)

O nosso blog GovTech está comemorando o seu primeiro aniversário. Desde a primeira vez que escrevi aqui sobre como novas startups e soluções podem impactar o setor público no Brasil e mundo afora, muita coisa aconteceu. 

Ter a oportunidade de compartilhar com mais e mais pessoas o que essa revolução significa – e qual é a sua importância – tem sido o propósito de meu trabalho e, a cada vez mais, uma satisfação. 

Vale retomar para aqueles e aquelas que estão lendo esse blog pela primeira vez: as chamadas GovTechs são startups que se dedicam a construir e oferecer produtos ou serviços para que o setor público possa transformar sua atuação e impactar positivamente os cidadãos. Elas são feitas por pessoas que acreditam no poder transformador das tecnologias e no legado que as suas soluções podem trazer para as mais diferentes políticas públicas – de educação a saúde; de meio ambiente até empreendedorismo e inclusão social.  

E não só de desejos se faz o poder das novas tecnologias. Segundo dados do relatório “Estratégia Brasileira para a Transformação Digital“, a digitalização de serviços pode trazer ao Brasil um aumento de 5,7% do PIB e economizar até 97% dos custos de atendimento. Para além dos benefícios financeiros, a transformação digital traz inúmeros resultados para a qualidade dos serviços e para ampliar a confiança de cidadãos na atuação governamental. Os ganhos são muitos – e para muitos. 

Foi por isso que, há três anos e meio, nasceu o BrazilLAB – uma plataforma pioneira para incentivar o ecossistema de GovTechs, promovendo a conexão de startups, suas tecnologias e o setor público, fortalecendo os estados, municípios e o governo federal. Tem sido muito gratificante acompanhar o desenvolvimento desta pauta.

Há cada vez mais pessoas discutindo sobre tecnologia e inovação e um interesse legítimo por propor soluções que possam melhorar os governos. Alguns momentos sintetizam a nossa atuação e sinalizam o quanto estamos trilhando um caminho positivo. Na última semana tivemos um desses momentos: nosso 4º Ciclo de Aceleração acaba de encerrar suas inscrições com números importantes. Foram, neste ano, nada menos que 294 startups se candidatando a essa oportunidade de novos negócios – e de imprimir um importante legado para o país.

Desafios brasileiros e mundiais

A cada programa de aceleração lançado, o BrazilLAB seleciona temas (ou verticais) para que sejam tratados pelas startups. Em 2019, focamos três desses desafios: Smart Cities e UrbanTechs, Habilidades na Sociedade 5.0 e Eficiência na Gestão Pública. São linhas de ação criadas para chamar os empreendedores que atuam com essas demandas – e melhorar nossas cidades, nossos profissionais e a administração de nossos governos. 

Também são temas que, em outras partes do mundo, já se tornaram uma conversa real entre o poder público, empresas de tecnologia tradicionais, startups disruptivas, agentes de governo e o cidadão. Talvez por isso mesmo, entre os aplicantes deste ano, surgiram ideias vindas da Estônia, Colômbia, Finlândia, Argentina, Portugal e da Índia. Juntamente com Reino Unido, Japão e, claro, os Estados Unidos, essas são nações que perceberam o poder de trazer a tecnologia para os serviços públicos – economizando recursos, acelerando processos, privilegiando a transparência e priorizando a qualidade.

Adeolu Eletu/ Unsplash

As evidências dos números

Os números do programa permitem também outras “leituras” a respeito desse setor, hoje, no Brasil. Dentre as 294 startups inscritas, 25% já venderam suas soluções para governos; além disso, 44% delas já possuem um nível considerável de maturidade, já que alcançam faturamento de recursos em sua operação. Esses números são extremamente positivos e demonstram que o ecossistema de GovTechs tem se consolidado nos últimos anos – mas ainda há muito espaço para fortalecer essas organizações. 

Ficou registrado também um maior volume de aplicantes com empresas sediadas no estado de São Paulo (35%). Apesar de as demandas por serviços serem nacionais e de ser extremamente saudável que soluções surjam em regiões diferentes – contemplando, assim, desafios próprios de cada localidade -, o sudeste do Brasil ainda se consagra como foco das startups (o Rio de Janeiro foi o segundo estado com mais candidatos, com 10% das inscrições).

O Programa de Aceleração do BrazilLAB contribui para que as startups possam escalar suas soluções e iniciar a contratação pelo setor público – um processo que pode ser bastante complexo para aqueles que não conhecem o contexto, a legislação e os requisitos para tal. 

Os resultados são concretos: a grande vencedora da edição de 2018, a startup GESUAS, já escalou sua solução para a gestão das políticas de assistência social e hoje está presente em mais de 90 prefeituras, impactando mais de 1,8 milhão de usuários em todo o país, além de 800 mil famílias e mais de 2.500 gestores públicos. 

As outras startups vencedoras do 3º Ciclo de Aceleração são igualmente grandes cases de sucesso. A Fábrica de Negócio, implementou uma solução para auditar a folha de pagamentos de Recife, gerando economia de R$ 10 milhões. A UpSaúde, consiste em um programa de telemedicina para a gestão do SUS com grande impacto na redução dos custos em saúde. 

Em breve, uma seleção de startups

O Programa de Aceleração do BrazilLAB terá seus selecionados divulgados em 13 de dezembro. Depois disso, serão quatro meses de módulos de capacitação sobre diversos temas – como experiência do usuário (UX), legislação e impacto social – passando por palestras, workshops, mentorias com especialistas e até a chance de estar junto aos gestores de mais de 30 municípios parceiros da plataforma.

Desse grupo sairá um grande vencedor, que receberá assessoria, investimentos, orientação e uma viagem para o Vale do Silício, nos EUA – berço de inovação tecnológica e que pode trazer mais inspiração para criar e evoluir. Mas quem vai ganhar, de fato, é a sociedade. Lembram do aumento de 5,7% no PIB e da redução de 97% dos custos com atendimento? É desse Brasil e dos resultados das GovTechs que queremos falar cada vez mais. E do qual também queremos ouvir falar.

]]>
0
Como startups estão atuando para conter o desperdício mundial de comida http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2019/11/23/como-startups-estao-atuando-para-conter-o-desperdicio-mundial-de-comida/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2019/11/23/como-startups-estao-atuando-para-conter-o-desperdicio-mundial-de-comida/#respond Sat, 23 Nov 2019 07:00:44 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=418

Nrd/Unsplash

Parece até contra intuitivo: em um mundo onde milhões de pessoas sofrem com a fome, há uma epidemia de desperdício de alimentos. Os números são realmente assustadores: aproximadamente um terço dos alimentos produzidos no mundo para consumo humano a cada ano é perdido ou desperdiçado, correspondendo a 1,3 bilhão de toneladas. As perdas de alimentos totalizam algo em torno de US$ 680 bilhões nos países industrializados e US$ 310 bilhões nos países em desenvolvimento; frutas e vegetais (como os tubérculos) têm as maiores taxas de desperdício; e quem mais tem é quem mais joga comida fora –  europeus e norte-americanos desperdiçam, per capita, entre 95 e 115 kg por ano, enquanto pessoas no norte da África e no sudeste da Ásia perdem apenas 6 a 11 kg por ano. No Brasil, segundo dados da FAO (Nações Unidas), a fome afeta 14 milhões de pessoas. São números grandes – e conter esse descaso com uma necessidade básica do ser humano pede ações urgentes, sistêmicas e universais.

O desperdício de alimentos representa uma grande perda também de recursos, algo que vai além dos produtos jogados fora. Isso porque a cadeia de produção de alimentos envolve uma multiplicidade de recursos para a sua sustentação. Podemos considerar, portanto, a perda de água, terra, energia, trabalho e capital – sem contar a geração desnecessária de emissões de gases de efeito estufa, que contribui diretamente para as mudanças climáticas. O impacto sobre as cidades é violento, uma vez que todas as externalidades – ou seja, os efeitos colaterais – da indústria alimentícia são muito maiores nos grandes centros urbanos.

Para enfrentar este descaso, é preciso, então, entender a sua motivação: por que desperdiçamos tantos alimentos? A resposta varia em função do estágio de desenvolvimento. Nos países em desenvolvimento, o desperdício e as perdas ocorrem, principalmente, nos estágios iniciais da cadeia de valor dos alimentos – e vêm das questões gerenciais e técnicas de plantio e colheita até as instalações de armazenamento e refrigeração, por exemplo. 

Nos países desenvolvidos, os alimentos são desperdiçados e perdidos principalmente nas fases posteriores da cadeia de suprimentos – porque o comportamento dos consumidores desempenha um papel importante nos países industrializados.

Todos esses dados foram colhidos e analisados no estudo “Save Food”, organizado pelas Nações Unidas a partir de 2011. Ao longo dos anos, a pesquisa vem identificando questões centrais para este problema, como a falta de coordenação entre os players da cadeia de suprimentos. Os resultados deste diagnóstico são, então, utilizados em estratégias para combater o problema: conscientizar indústrias, varejistas e consumidores, além de encontrar um uso benéfico para os alimentos que atualmente são jogados fora.

Thilo Becker/ Pixabay

Muitas ideias à mesa

Iniciativas paralelas e muito bem-sucedidas são suporte e evidências para esse novo olhar sobre como lidamos com a fonte de nossa alimentação. É o caso de diversas startups, as chamadas FoodTechs, que se dispõem a repensar pontos decisivos sobre o comportamento individual no consumo de produtos alimentícios. Um dos pontos determinantes é o visual da comida; sim, o visual importa para entender o desperdício. O Fruta Feia é uma iniciativa que tenta modificar esse mindset sobre os alimentos. 

O projeto português foi iniciado há mais de cinco anos para quebrar os padrões estéticos criados para o consumo de alimentos – que, como se sabe, não têm relação com sua qualidade ou mesmo servem para definir o quão seguro o produto está para o consumo. Em um sistema de cooperativas, o programa recolhe diretamente com os produtores e vende ao consumidor itens que seriam certamente dispensados por grandes redes de supermercados – tomates, cenouras ou batatas “esquisitos”, com protuberâncias ou pontas, ganham o mesmo destino de itens “perfeitos” a um custo mais baixo.

Hoje, o Fruta Feia está disponível para milhares de consumidores em diversas cidades de Portugal – e programas semelhantes se espalham pelo mundo em lugares como São Francisco (com a Imperfect Produce) e São Paulo (com o Fruta Imperfeita).

Nichos para a atuação de startups que ajudem a conter o desperdício de alimentos não faltam. A norte-americana Copia desenvolveu a primeira solução para lidar ao mesmo tempo com alimentos jogados fora e a fome de pessoas carentes. Restaurantes, hotéis, hospitais, lanchonetes corporativas e outras empresas usam um software criado pela empresa para entender suas tendências de superprodução e reduzir o excedente a longo prazo, ao mesmo tempo em que o excesso de comida seja enviado para pessoas que necessitam do alimento.

Uma iniciativa brasileira também chama a atenção – e vinda de uma startup de cunho social (SocialTech) certificada pela “Save Food” da ONU. “Somos um hub de soluções tecnológicas contra o desperdício. Nossa função é, com uma estratégia de geolocalização, aproximar quem tem alimentos bons para serem doados daqueles que precisam desses recursos”, diz Daniela Leite, fundadora do aplicativo Comida Invisível. “O desperdício é um hábito – e hábito a gente só muda com educação e recorrência. A gente quer que as pessoas olhem para o invisível, para todo esse processo mecânico de preparo, compra, transporte, produção dos alimentos”, completa.

Gratuita e aberta, a plataforma permite que qualquer pessoa física e jurídica que queira doar e receber alimentos possa se cadastrar. Conversei sobre as Foodtechs com a Daniela e discutimos também o papel do poder público frente ao desafio do combate ao desperdício de alimentos.

Jasmin Sessler/ Pixabay

Ficou claro que o Brasil ainda precisa avançar muito. “Atualmente, há 30 projetos de lei em tramitação sobre o tema do desperdício de alimentos. Essa é uma questão básica a ser resolvida, porque existe um mito na questão do desperdício – de que a doação de alimentos é algo ilegal. Escuto muito dizer que não se pode doar porque, caso os alimentos façam mal a alguém, é possível responder judicialmente por isso. Nós, do Comida Invisível, fizemos uma extensa pesquisa sobre jurisprudência em relação a esse tema. Não achamos casos de pessoas que foram condenadas por terem doado alimentos. Temos que entender que o alimento é a maior rede social do mundo. Ele é o que nos une e, por um lado, também nos separa. Eu desejo que a gente possa fazer valer, de fato, essa importante conexão”. 

As palavras de Daniela Leite sintetizam bem este desejo para o futuro: que o alimento possa ser fonte de união entre as pessoas – e as Foodtechs e a tecnologia possam contribuir de forma positiva e central para de fato erradicarmos a fome no mundo.

]]>
0
Tecnologia e reforma da previdência: o que ainda precisa ser discutido http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2019/11/16/tecnologia-e-reforma-da-previdencia-o-que-ainda-precisa-ser-discutido/ http://govtech.blogosfera.uol.com.br/2019/11/16/tecnologia-e-reforma-da-previdencia-o-que-ainda-precisa-ser-discutido/#respond Sat, 16 Nov 2019 07:00:32 +0000 http://govtech.blogosfera.uol.com.br/?p=411

Algumas áreas seriam diretamente impactadas pela aplicação de tecnologia na previdência – entre elas a arrecadação das contribuições e a melhoria do atendimento ao cidadão (Foto: Unsplash/Nick Karvounis)

Há alguns dias, o BrazilLAB, em parceria com a Fundação Brava e o Centre for Public Impact (CPI), divulgou um estudo sobre como a tecnologia pode ampliar a eficiência e tornar mais efetivas as políticas públicas da previdência social. Para se ter uma ideia desse potencial, segundo estimativas da pesquisa, a economia gerada somente com a digitalização dos atendimentos poderia estar entre R$ 1,7 bilhão e R$ 4,7 bilhões ao ano –dependendo da velocidade de implantação das mudanças.

Este ano, a discussão e a aprovação da reforma da previdência tomaram a agenda do nosso país, e várias questões que foram discutidas estavam relacionadas ao alto custo do sistema previdenciário e a decorrente necessidade de adotar medidas que possam garantir a sua sustentabilidade futura. 

No estudo do BrazilLAB,  por exemplo, verificou-se que nossa previdência social tem um potencial aumento de arrecadação próximo a 35% –superando R$ 150 bilhões ao ano. Aliado a isso, existe também a potencial redução de despesas em torno de 15%, próximo a R$ 120 bilhões ao ano. Os ganhos de arrecadação seriam obtidos, principalmente, a partir do combate à inadimplência e da não-aderência (ou seja, a não contribuição à previdência social e a fraude fiscal).

A aplicação de ferramentas digitais teria uma contribuição decisiva para alcançar essa economia. Por exemplo: se aplicadas na arrecadação, seria possível resgatar de 10% a 25% das perdas por inadimplência, de 10% a 15% das perdas por sonegação e de 5% a 10% do custo de oportunidade com colaboradores informais –representando algo em torno de R$ 15 a R$ 30 bilhões ao ano, considerando dados de 2017.

Podemos dizer que quatro áreas fundamentais seriam diretamente impactadas pela aplicação de tecnologia: a arrecadação das contribuições, o pagamento dos benefícios, o aperfeiçoamento de operações internas e a melhoria do atendimento ao cidadão.

Em cada uma dessas áreas, o uso de recursos tecnológicos permitiria ao governo alcançar resultados decisivos –desde o combate à evasão fiscal e a identificação de fraudes até a automação e racionalização das tarefas desenvolvidas pelos órgãos públicos envolvidos. As possibilidades e ferramentas disponíveis são as mais diversas possíveis: coleta e análise de dados, uso de identidade digital e biometria, registros e documentos digitais, metodologia ágil e a criação de plataformas e paineis (dashboards) para o acompanhamento de informações. Muitos países já iniciaram essa revolução, e o Brasil pode se beneficiar dos exemplos e da potência transformadora.

Experiências para inspirar

A Suécia aposta desde 2014 no minPension, um portal que fornece informações sobre as pensões em tempo real –assim como uma projeção da renda de aposentadoria, facilitando o acesso de informações pelos cidadãos e contribuindo para a transparência governamental. A Holanda faz algo semelhante desde 2011 com uma plataforma digital para pensões tanto de funcionários públicos quanto de empresas privadas.

No Reino Unido, foi criado um programa para apoiar os excluídos digitais –pessoas que têm dificuldade na utilização ou não têm acesso a tecnologias– a usar os serviços do governo, dentre eles, solicitações à previdência social. Outro bom exemplo é o da Eslovênia, que usa uma plataforma de comunicação entre agências do governo, permitindo a troca de informações e uma verificação mais ágil dos pedidos de benefícios apresentados por cidadãos.

Algumas experiências vêm de países com contextos e desafios semelhantes aos brasileiros. É o caso da Índia, onde o Aadhaar se tornou o maior serviço de identificação biométrica do mundo –e, desde 2009, se mostra uma ferramenta para a prevenção de fraude de identidade. São 1,24 bilhões de usuários cadastrados (cerca de 92% da população do país) e uma abrangência de 3.500 serviços governamentais e não governamentais.

O Brasil tem realizado avanços no tema, sobretudo a partir da implementação do INSS Digital e do Meu INSS. Ambas são ferramentas online que foram responsáveis pela digitalização de atendimentos e pela disponibilização de informações à população, reduzindo a alta demanda que antes existia no atendimento presencial. Basta lembrar que, até bem pouco tempo, iniciar a solicitação de um benefício significava passar horas nas filas do INSS. Os resultados foram muito significativos, é verdade, mas ainda há barreiras a superar.

Primeiro, ampliar a utilização dos serviços online pela população. Dados de 2017 mostram que 28% dos atendimentos realizados pelo INSS eram presenciais, 44% por telefone e 28% pelo aplicativo digital (Meu INSS). A Austrália, referência em digitalização do serviço, tinha uma distribuição bem diferente já em 2015: 12% de atendimento presencial nas agências, 19% por telefone e 69% por meio digital –com a expectativa de que este canal possa ser responsável por 85% dos atendimentos até 2025.

A proposta não é substituir o atendimento presencial pelo digital. A existência de agências garante que as pessoas excluídas do mundo digital tenham acesso aos seus direitos, e isso deve ser mantido. Mas é possível ampliar a utilização pela maioria da população que já está conectada aos celulares, de forma a garantir um atendimento rápido, fácil e muito mais barato para os cofres públicos.  

O INSS consegue dar vazão a apenas 50% dos pedidos que entram por mês; segundo dados da pesquisa, aproximadamente 1,2 milhão de processos se encontram pendentes de análise e 800 mil pedidos com mais de 45 dias de atraso. Com atrasos, as análises ficam menos minuciosas, o que pode abrir espaço para fraudes, por exemplo.

Além disso, são necessárias mudanças em todas as rotinas de solicitação, processamento e concessão de benefícios. É preciso capacitar funcionários e adaptar as organizações para receber a tecnologia; do contrário, corre-se o risco de adotarmos um movimento já discutido aqui no blog: a e-burocracia

Transformação que começa já

São as mudanças culturais, tecnológicas e de processos que vão otimizar os recursos públicos enquanto melhoram a qualidade das ações e colocam as necessidades reais do cidadão em destaque. Exemplos dessa mudanças? Permitir maior participação de fornecedores da área tecnológica (como as startups), capacitar servidores para as tecnologias mais recentes, apoiar a população no uso dos serviços digitais e mudar as bases de como se faz política pública, explorando ideias inovadoras e disruptivas.

Uma das estimativas deixa evidente o impacto positivo da digitalização dos serviços: a redução considerável sobre o valor unitário de atendimentos aos usuários da previdência. Enquanto o modelo presencial unitário custa, em média, R$ 43,70, o mesmo serviço realizado por meio digital teria um custo de R$ 1,20. Isso representaria uma economia de 97% dos recursos públicos por transação.

São múltiplas as possibilidades de aplicação da tecnologia para o setor previdenciário. Há também vários exemplos positivos de como essa mudança pode ocorrer, inspirando gestores nos processos de mudança. A previdência social ainda precisa continuar na agenda –se quisermos garanti-la como um direito para as gerações do futuro.

]]>
0