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E você, está no controle do seu “eu digital”?

Letícia Piccolotto

02/11/2019 04h00

Privacidade e segurança estão em evolução e têm alto potencial de se tornarem negócios bastante rentáveis – no sentido da prevenção de falhas e de crimes digitais, cloud security, cybersecurity e muitos outros (Foto: Antoine Beauvillain/Unsplash)

 

Recentemente eu tive meu celular furtado. Sim, foi uma experiência péssima, principalmente porque, hoje, temos toda a nossa vida registrada em smartphones – desde fotos das crianças e trocas de mensagens relacionadas ao trabalho até aplicativos importantes, agendas, contatos, senhas e mais senhas… Perder o aparelho traz uma dor de cabeça tremenda. Mas, no meu caso, achei que estava protegida, afinal lido muito bem com tecnologia. Não foi exatamente assim.

Depois de perceber o furto, fui direto acessar o dispositivo de localização do aparelho. E não funcionou. Estava confiante no backup – mas descobri que ele falhou há algumas semanas e as fotos do aniversário de 5 anos da minha filha, por exemplo, foram perdidas para sempre. Ainda não tive coragem de contar para ela…

Mas dizem que tudo o que é ruim de viver, é importante de contar. Como aprendizado mesmo. Bem, toda essa experiência desagradável me fez refletir sobre a importância da segurança de dados – além dos cuidados diários que precisamos ter com o nosso "eu digital".

Vejo agora que checar o backup, fazer atualização de senhas, ler (de verdade) a política de privacidade dos aplicativos que usamos, entre vários outros pontos, deve se tornar mesmo um hábito de quem usa regularmente aparelhos e a web como um todo. Sim, um hábito diário até, como escovar os dentes por exemplo. 

Para começo de conversa, privacidade 

De acordo com um estudo recente lançado pelo BrazilLAB sobre transformação digital, o brasileiro gasta, em média, 9 horas por dia na internet. Somos um dos países mais conectados do mundo – e tudo isso apesar dos desafios que ainda enfrentamos quanto ao acesso, cobertura e infraestrutura das redes. Segurança, nesse caso, deveria ser um ponto central para nós.

Mas vamos voltar ao meu exemplo: analisando meus dados, sei que gasto em média 6 horas por dia na internet – para trabalhar, assistir séries e operar tantas atividades conectadas por meio de aplicativos. Gero, assim, um volume grande de informações – e é quase certo que eu nem mesma saiba todas as pegadas que meu "eu digital" deixa por aí.

O mesmo não pode ser dito sobre um grande número de empresas, algoritmos, robôs e agências de marketing digital: essas organizações me conhecem, me acompanham e usam ou comercializam as informações que colhem do meu perfil online. Em resumo, elas sabem como os dados produzidos de maneira despretensiosa por mim são valiosos e importantes. 

Para lidar com esse desafio, várias startups estão nascendo em países como os Estados Unidos com o objetivo principal de proteger a privacidade dos usuários de internet. Mais do que isso: elas se propõem a decifrar e compreender políticas de consentimento que, de tão específicas ou prolixas, acabam não sendo lidas por esmagadores 91% das pessoas (segundo um estudo da consultoria multinacional Deloitte).

O que isso mostra é que privacidade e segurança estão em evolução e têm alto potencial de se tornarem negócios bastante rentáveis. Esses setores podem ser abraçados no sentido da prevenção de falhas e de crimes digitais, cloud security, cybersecurity e muitos outros. Basta ver o exemplo da OneTrust.

Quando a União Européia aprovou leis de proteção ao consumidor em 2016, empresas de todos os setores precisaram mudar a maneira como lidavam com os dados das pessoas. A OneTrust, fundada dois meses depois, se dispôs a ajudar essas empresas a navegar pelos complicados requisitos das novas regras – conquistando um mercado inexplorado. Passados três anos, a startup chegou ao status de unicórnio, sendo avaliada em US$ 1,3 bilhão.

A PeerNova, norte-americana, é outro caso. O serviço criado pela startup permite que instituições financeiras sincronizem de forma contínua os dados que possuem em vários sistemas internos e externos garantindo a integridade das informações e do processo. Essa sincronização simplifica e automatiza o processamento de exceções e traz visibilidade aos fluxos de trabalho em tempo real. Ah: e a PeerNova acaba de levantar US$ 31 milhões em uma rodada de financiamento.

Há também soluções disponíveis para apoiar a decisão de usuários individuais. É o caso da Transcend. Criada por dois recém-formados de Harvard, Ben Brook e Michael Farrell, a empresa ajuda usuários a compreender como as empresas estão utilizando os dados coletados. São dois os principais serviços: a "tradução" dos termos de uso de dados, geralmente longos e pouco compreensíveis, para uma linguagem próxima dos usuários; e o acesso aos dados pessoais existentes e que estão à disposição das empresas. 

Lei de proteção de dados: um assunto para todos nós 

Se privacidade e segurança se tornaram uma demanda global para pessoas e empresas, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) colocou o tema, em boa hora, no cenário brasileiro. A lei abrange não só um nível mais rigoroso no tratamento das informações que as companhias possuem sobre seus clientes como também aumenta a interação, direitos e demandas entre empresas, fornecedores e consumidores.

Faltando menos de um ano para entrar em vigor (a data é agosto de 2020), a LGPD fará com que as empresas repensem o modo como cuidam das informações fornecidas pelos clientes. E devem pensar rápido mesmo: segundo levantamento da Serasa Experian, 85% das companhias brasileiras dizem que ainda não estão preparadas para a nova lei. Nesse período crucial até a implementação, planejamento e adequação será um serviço precioso a oferecer – e muito disputado no mercado. As startups brasileiras podem – e devem – seguir essa tendência. 

Para assegurar a execução da LGPD, como vimos, é muito importante que a sociedade possa adequar suas práticas de produção, armazenamento e difusão de dados. Além disso, torna-se imprescindível que o governo tenha um grande protagonismo na aplicação da Lei e nos demais aspectos de regulação. Para isso, o fortalecimento da Autoridade Nacional de Proteção de Dados Pessoais (ANPD) e do Conselho Nacional de Proteção de Dados Pessoais é um passo primordial para garantir maior participação, transparência e controle do processo. A ANPD terá como funções principais a de estabelecer um elo entre governo e sociedade, assegurando a plena implementação da LGPD. Ao mesmo tempo, também apoiará empresas e o próprio governo em relação às novas exigências relacionadas à proteção de dados de cidadãos.  

Entender o impacto e a importância de aplicar essa lei e de garantir seus desdobramentos é fundamental para que possamos evoluir como indivíduos e como sociedade. A experiência com o furto do celular me fez ficar mais consciente sobre isso. Aquele jargão de que dados valem mais do que petróleo pode até estar batido, mas não deixa de ser verdadeiro – e nós somos os primeiros com a missão de nos apropriarmos e cuidarmos constantemente do nosso "eu digital".

Sobre a autora

Letícia Piccolotto é mestre em Ciências Sociais, especialista em Gestão Pública pela Harvard Kennedy School e fundadora do BrazilLAB, a única plataforma brasileira que conecta startups e governos para estimular a inovação no setor público.

Sobre o blog

Acelerar ideias e estimular uma cultura voltada para a inovação do setor público. Este é um blog para falar de empreendedores engajados em buscar soluções para os desafios mais complexos vividos pela sociedade brasileira.

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