PUBLICIDADE
Topo

Nudge: "empurrãozinho" que afeta sua atitude é solução para o pós-pandemia

Letícia Piccolotto

01/08/2020 04h00

Cadeira com marcação é um exemplo de nudge. Nudges são o "empurrãozinho" necessário para a retomada pós-pandemia (Freepik)

As últimas semanas trouxeram notícias muito positivas sobre a batalha contra o coronavírus. Com uma velocidade jamais vista antes, instituições de pesquisa e empresas farmacêuticas já desenvolveram potenciais vacinas. No Brasil, elas já estão sendo testadas e as perspectivas são muito promissoras: é bem provável que em 2021 já tenhamos encontrado uma resposta efetiva para a prevenção ao covid-19.

Mas enquanto a ciência tem se desenvolvido e esperamos uma alternativa que nos permita voltar ao curso da vida –seja ele qual for a partir de agora– ainda precisaremos contar com técnicas que já vêm sendo utilizadas há séculos e que podem parecer até mesmo simplórias e nada tecnológicas. 

Refiro-me aqui ao que a Organização Mundial de Saúde (OMS) chama de "respostas não farmacológicas": o distanciamento social, a higiene correta das mãos e o uso de equipamentos de proteção, como máscaras.

Embora sejam práticas nada sofisticadas, elas dependem de alguns fatores cruciais: que o comportamento das pessoas seja informado, que elas estejam dispostas e também capazes de colocar em prática essas recomendações para a proteção. 

As medidas não farmacológicas, tão fundamentais para frear o avanço da doença nos próximos meses, serão mais efetivas quanto maior a disponibilidade das pessoas em utilizá-las. Elas dependem do comportamento individual, da abertura para cooperar e mudar a forma de agir.

Em outras palavras, por muito tempo ainda, nossa chance de combate ao coronavírus dependerá da soma do comportamento individual para produzir mudanças coletivas que sejam positivas.

Mas como acreditar que essas medidas serão efetivas diante das imagens que vemos diariamente, com pessoas se aglomerando em bares, recusando a utilizar máscaras ou não tendo acesso às condições básicas para higiene pessoal? 

Quando o comportamento dos indivíduos parece ser irracional ou ilógico –afinal, por que não cooperar com regras que podem beneficiar a todas as pessoas?– é preciso investigar e compreender o que os leva a agir de determinada forma. 

Esse é o trabalho das ciências comportamentais e de sua aplicação através de "nudges". Suas contribuições nunca foram tão importantes –e a boa notícia é que há muitos exemplos de como podem ser aplicados. 

Do que estamos falando?

Partindo da constatação de que nem todas as decisões dos indivíduos são racionais ou buscam o maior retorno positivo possível, as ciências comportamentais se dedicam a compreender o padrão de comportamento dos indivíduos e, a partir desta investigação, trazer insights –ou seja, ideias e propostas– de como é possível aprimorar a estrutura de escolha para ampliar os benefícios individuais ou coletivos. 

As ciências comportamentais indicam que, em cada decisão que tomamos, somos influenciados por vieses cognitivos. Um viés cognitivo é um padrão de pensamento específico que distorce nossa percepção da realidade. 

No contexto da pandemia, um levantamento liderado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) identificou alguns desses vieses, especialmente entre o público mais jovem:

  • O "viés otimista", presente entre pessoas que tendem a subestimar o risco do vírus;
  • O "viés status quo",  ou seja, uma aversão a modificar o estilo de vida que se tinha antes da pandemia;
  • O "viés da relevância", ou seja, frente às dificuldades reais e cotidianas, a ameaça trazida por um vírus parece distante ou improvável;
  • O "viés de super confiança", uma crença de que, por serem jovens, podem resistir ao vírus e desenvolver imunidade à doença uma vez que sejam expostos a elas. 

Ao identificar esses vieses e como eles influenciam negativamente a tomada de decisão é possível criar um conjunto de nudges — do inglês, "empurrão"– para alterar a arquitetura de decisão dos indivíduos, ou seja, como essas escolhas são "organizadas". Isso não significa limitar a tomada de decisão, mas sim oferecer elementos para ampliar a probabilidade de que o indivíduo faça a escolha que seja mais benéfica para ele ou para outros. 

Nudges na prática contra o coronavírus

FreepikOs insights das ciências comportamentais têm sido adotados por diversas nações como estratégia para frear o avanço do vírus e também orientar os planos de retomada e reabertura econômica. Eles possuem diversas vantagens, principalmente, o potencial de alcançar o maior número de pessoas a um custo relativamente baixo e com grande possibilidade de promover mudanças de comportamento.

Nudges podem ser intervenções relativamente simples, desde o envio de conteúdos via SMS com mensagens criativas, engraçadas e efetivas; alterações no ambiente, como a disponibilização de álcool em gel e demarcações no chão que estimulem o distanciamento entre as pessoas; até campanhas publicitárias na televisão que reforcem a importância de permanecer em casa e a contribuição trazida por cada indivíduo ao fazê-lo. 

Seu uso tem sido incentivado por organizações internacionais, como a OMS, cujo escritório regional da Europa disponibilizou uma ferramenta que permite o desenvolvimento de estratégias baseadas no uso de nudges.

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) também tem produzido guias práticos para a implementação de nudges por governos em todo o mundo.

O "The Behavioral Insights Team (BIT)", uma das maiores instituições dedicadas ao estudo das ciências comportamentais, já realizou mais de 40 testes com 80 mil pessoas de diversas partes do mundo para identificar quais são os vieses e possíveis nudges para apoiar a tomada de decisão e cooperação com as orientações de saúde no contexto da pandemia.

Na Inglaterra, por exemplo, quase 2 milhões de pessoas têm recebido mensagens diariamente trazendo informações sobre os riscos do coronavírus. Elaborados pelo National Health Service (conhecido como NHS, similar ao SUS do Brasil) esses conteúdos são customizados para cada público específico e foram elaborados tendo por base os conhecimentos sobre ciência comportamental. 

Também na Inglaterra, a cidade de Durham é um outro exemplo da aplicação de nudges. Após um diagnóstico extenso, os gestores públicos lançaram a campanha "Let´s Get Back on The Bull" ("Vamos fazer o Touro voltar", em alusão ao mascote da cidade).

A iniciativa conta com um portal em que são apresentadas informações simples, atrativas e práticas: por exemplo, um "checklist" para que pequenos comércios possam fazer uma abertura segura; materiais gráficos, como posters e flyers, que podem ser impressos e afixados para o público; e orientações específicas para os cidadãos de Durham.

Ao invés de punir ou repreender comerciantes e moradores, a opção foi a de combinar uma comunicação precisa, o senso de contribuição individual e possibilidades de escolha. 

No Brasil, também há exemplos do uso de nudges para a orientar a reabertura segura pós-pandemia.

O Coronacidades, iniciativa do Arapyau e Centro de Liderança Pública (CLP), por exemplo, traz diversos conteúdos sobre o tema, desde materiais gráficos que podem ser utilizados por gestores municipais até "checklists" para orientar a reabertura de escolas, a comunicação com cidadãos ou a adoção de medidas preventivas e sanitárias. 

É preciso ir além

Por serem simples, de amplo alcance e com baixo custo, o uso de nudges e insights das ciências comportamentais deve ser fundamental para a reabertura das cidades em todo o mundo. Isso porque, mesmo com a descoberta da vacina e, quiçá, uma cura, ainda dependeremos do comportamento individual para garantir o controle da doença.

Ainda assim, estou segura de que eles não são a única resposta e a "bala de prata" para resolver todos os desafios que estamos enfrentamos e que ainda virão.

Nudges são uma das possíveis estratégias que teremos de adotar para enfrentar um problema que é tão complexo. Mesmo assim reforço a importância de que gestores públicos, empresas, escolas e tantos outros atores possam ampliar o uso dessa inovação. Todos nós só teremos a ganhar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Letícia Piccolotto é mestre em Ciências Sociais, especialista em Gestão Pública pela Harvard Kennedy School e fundadora do BrazilLAB, a única plataforma brasileira que conecta startups e governos para estimular a inovação no setor público.

Sobre o blog

Acelerar ideias e estimular uma cultura voltada para a inovação do setor público. Este é um blog para falar de empreendedores engajados em buscar soluções para os desafios mais complexos vividos pela sociedade brasileira.