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Por que devemos substituir o foco em crescimento econômico por prosperidade

Letícia Piccolotto

29/08/2020 04h00

Nattanan Kanchanaprat/ Pixabay

A humanidade vivenciou um marco muito importante, mas que pode ter passado despercebido: o Dia de Sobrecarga da Terra, no último sábado, 22 de agosto. A partir desse momento, passamos a consumir mais recursos naturais e serviços ecossistêmicos do que o nosso planeta Terra é capaz de regenerar em um ano. Literalmente, estamos vivendo "no crédito". 

Um ponto interessante, no entanto, é que este ano o Dia de Sobrecarga da Terra aconteceu três semanas mais tarde do que em 2019. Se você acha que a pandemia de coronavírus tem algo a ver com isso, você está coberto de razão. 

Como discuti aqui, a pandemia tem sido efeito e também causa quando o assunto é meio ambiente: ela nasceu em função de nosso comportamento e suas restrições têm gerado mudanças em nossas dinâmicas econômicas e sociais, reduzindo os indicadores de poluição em diversas cidades do mundo, inclusive no Brasil.

As regras para conter o avanço do vírus, principalmente, o isolamento social, nos mostram como nossas atividades econômicas impactam o mundo em que vivemos: no momento em que reduzimos nosso consumo desenfreado, nossa mobilidade e a pressão sobre os recursos naturais, vemos como o planeta pode se recuperar e voltar ao seu equilíbrio original. 

Embora os resultados possam ser animadores, especialistas indicam que eles não terão a escala ou a durabilidade necessárias para reverter o cenário de mudanças climáticas que ameaça a nossa própria existência no planeta Terra. As três semanas que ganhamos em relação ao Dia de Sobrecarga da Terra precisam se expandir, permitindo que o planeta tenha o tempo necessário para se regenerar.

Essa equação parece simples, mas todos sabemos que não é. Na escolha entre os pólos econômicos e ambientais, quase sempre pendemos para o primeiro: queremos crescer, expandir, gerar riquezas financeiras, garantindo um patamar de consumo de massa que está sempre em ascensão. 

Mas esse é o único fim que devemos (e podemos) almejar? Ou há um outro cenário em que o equilíbrio entre pessoas, natureza, economia e desenvolvimento das nações pode ser uma realidade? 

Cada vez mais pessoas –especialistas, governantes, jovens e empresas– acreditam que sim.

"Uma economia saudável deve buscar a prosperidade – e não o crescimento"

A frase acima não é de minha autoria. Ela foi dita em 2018 por Kate Raworth, professora das Universidades de Cambridge e Oxford. A princípio, ela pode soar dura, até mesmo absurda. Afinal, a maioria das pessoas que hoje habita a Terra faz parte de gerações para as quais o crescimento econômico é o objetivo. 

Os países são medidos pelo seu Produto Interno Bruto. As plataformas de políticos precisam ter um desenho que agrade ao setor econômico e, recentemente, vimos como esse mantra ficou ainda mais evidente: na luta contra a pandemia, salvar vidas ou garantir o crescimento econômico se tornou a principal questão do debate público. 

Se torna difícil, é verdade, pensar em um cenário no qual o crescimento econômico não seja o principal –por vezes, único– indicador de sucesso de uma nação. Segundo Raworth, somos socialmente, politicamente e economicamente "viciados" no crescimento: o desejamos sempre, a qualquer custo, sendo ele o grande motor da nossa felicidade. Estamos em um avião que está sempre subindo. Mas a pergunta que fica é: quando e como será possível pousar?

É verdade que o crescimento econômico trouxe prosperidade para bilhões de pessoas mas, ao mesmo tempo, gerou desigualdades abissais e uma relação com o planeta que é degenerativa e desestabilizante. 

Para Raworth, precisamos ter uma nova ambição, a de gerar prosperidade. Em suas palavras: "o grande desafio do século XXI será o de atender a todas as necessidades das pessoas considerando os recursos de nosso planeta que é único, de modo que todas as criaturas possam prosperar". 

É hora de termos uma nova ambição

Essa ambição não pode somente ser guiada por um ímpeto de crescimento ininterrupto e insustentável. O caminho da prosperidade implica em defender o equilíbrio dinâmico entre os diversos recursos naturais e os fatores que garantem uma vida digna para todos –acesso à saúde, educação, alimentação, saneamento básico etc.

Segundo Kate Raworth, será preciso garantir sistemas políticos, econômicos e sociais que sejam regenerativos e distributivos por natureza. E o uso de tecnologias é um pilar fundamental para que esse cenário seja alcançado.

Há muitas experiências mostrando como isso pode se tornar realidade. Já tive a oportunidade de conhecer e falar diversas vezes sobre elas aqui no blog e, atuando no BrazilLAB, primeiro hub GovTech do Brasil, observo como esse movimento só se amplia ano após ano. 

startups atuando para resolver o problema do saneamento básico, criando soluções que transformam resíduos poluentes em energia; agritechs aproveitando os espaços das cidades para construir fazendas urbanas, eficientes no uso da água e quase independentes dos agrotóxicos; edtechs que ampliam as oportunidades de estudantes acessarem conteúdos educacionais; healthtechs que democratizam o acesso à saúde; urban and city techs que ajudam a fazer uma gestão inteligente das cidades; e a lista, por sorte, não para por aqui. 

No mundo novo, as tecnologias que hoje já têm transformado o nosso modo de viver serão ferramentas para a prosperidade de todos e todas.

You may say I'm a dreamer…

Pode parecer que toda essa ideia de prosperidade é utópica e distante. E é compreensível que assim seja. Mas o primeiro passo já foi dado: a transformação não somente é necessária, mas tem sido desejada pelas pessoas. 

As novas gerações, dos meus filhos e sobrinhos, de Greta Thunberg e tantos outros jovens inspiradores, estão nos mostrando o caminho. Eles estão abertos a outros modelos de vida, no qual o consumo não é cultuado, a preservação da natureza é um bem valioso e a prosperidade de todos é buscada acima do crescimento econômico de alguns poucos –esse é um tema que tenho discutido bastante em minhas redes sociais

E esse desejo de mudança já está mostrando impactos, no bolso das empresas, inclusive: segundo pesquisa do Ibope, 62% dos consumidores afirmam que já boicotaram marcas ou empresas por questões como violações a direitos trabalhistas, testes ou maus tratos a animais e crimes ambientais. Vivemos um momento de despertar. E já não há mais volta. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Letícia Piccolotto é mestre em Ciências Sociais, especialista em Gestão Pública pela Harvard Kennedy School e fundadora do BrazilLAB, a única plataforma brasileira que conecta startups e governos para estimular a inovação no setor público.

Sobre o blog

Acelerar ideias e estimular uma cultura voltada para a inovação do setor público. Este é um blog para falar de empreendedores engajados em buscar soluções para os desafios mais complexos vividos pela sociedade brasileira.