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Pandemia provoca explosão de diferentes usos da inteligência artificial

Letícia Piccolotto

18/07/2020 04h00

Inteligência artificial tem sido aplicada nas mais diversas frentes de combate à pandemia (Pixabay)

O dia é 30 de dezembro de 2019. Uma startup canadense que atua com a previsão e monitoramento de surtos de doenças emite um alerta aos clientes sobre o que viria a ser o maior evento para a humanidade desde a Segunda Guerra Mundial: a pandemia de coronavírus

Por si só o feito já seria extraordinário, ou seja, ser a primeiro sinal de alerta para a crise que viveríamos em escala global meses antes dela iniciar. Mas dois elementos fazem com que essa descoberta seja ainda mais surpreendente: a BlueDot, empresa responsável pelo feito, alcançou essa previsão nove dias antes do anúncio da própria Organização Mundial da Saúde (OMS). E o mais interessante: contou, para isso, com o trabalho de uma inteligência artificial

O uso de inteligência artificial tem sido diverso e cada vez mais intenso nos últimos anos. Já falei sobre o tema por aqui, destacando como a IA, como é também conhecida, deixou o mundo da ficção científica e o imaginário coletivo para ocupar cada vez mais o nosso cotidiano, transformando o modo como nos relacionamos com a tecnologia e também ampliando as potencialidades que a inteligência das máquinas pode nos trazer. 

A propósito, a inteligência artificial "nada mais" é do que isso: um processo no qual as máquinas conseguem desenvolver aprendizado a partir da análise de grandes volumes de dados. Ao entender os padrões existentes, elas podem reproduzir ações tais como os seres humanos, criar inteligência a partir de informações e fazer previsões com base em observações do presente – como a BlueDot conseguiu. 

Mas com o agravamento da crise trazida pela pandemia, a utilização de inteligência artificial passou a se intensificar e hoje ela tem sido adotada nas mais diversas frentes, seja para produzir laudos médicos precisos, mas também para realizar auditorias nas compras públicas que vêm sendo realizadas no contexto da pandemia. 

Por onde quer que olhemos, a inteligência artificial tem sido uma importante aliada. E é importante entender suas aplicações, resultados e os cuidados que temos que garantir para a sua utilização no futuro. 

Inteligência artificial contra a covid-19

Há muito tempo a inteligência artificial desperta o temor de que possa transformar o ser humano em uma figura obsoleta. Este receio está, de fato, muito presente: o impacto sobre a geração de empregos e as implicações éticas são os principais receios de quase 14 mil participantes de estudo realizado pela consultoria BCG. 

Mas a verdade é que há muito tempo já estamos cercados por soluções que têm como base a inteligência artificial. No contexto da pandemia de coronavírus, seu uso permite alcançarmos um fator crucial quando se está lutando contra um problema de saúde pública e escala global: a rapidez e a precisão das respostas de enfrentamento. 

A inteligência artificial se "alimenta" da quantidade massiva de dados que são produzidos diariamente, a todo segundo e sem parar. Com um algoritmo específico, ela consegue fazer a "mineração" dessas informações para identificar padrões. Foi exatamente o que aconteceu no caso da BlueDots: utilizando dados de companhias aéreas, de instituições de saúde e de smartphones, a empresa conseguiu acompanhar o trajeto das pessoas que estiveram na região de Wuhan (China), epicentro da pandemia. Fazendo esse acompanhamento, entendendo o destino das pessoas e considerando a janela de 14 dias, fizeram a previsão de quais localidades seriam mais afetadas. 

E a BlueDot foi apenas o começo. O uso de inteligência artificial para combater o coronavírus tem sido exponencial. A tecnologia está presente, por exemplo, para apoiar a análise da crescente quantidade de pesquisas e artigos científicos que tem sido produzida sobre o tema, como promete o CovidScholar, uma ferramenta criada pelo Lawrence Berkeley National Laboratory do Departamento de Energia dos EUA.

A empresa chinesa Alibaba, por sua vez, desenvolveu um algoritmo que promete diagnosticar casos de covid-19 com 96% de precisão a partir da análise de exames como a radiografia. Um ativo precioso quando o número de testes disponíveis ainda é insuficiente. 

No Brasil, esse movimento também tem acontecido com muita intensidade. Há robôs sendo utilizados para esterilizar ambientes, performar cuidados básicos e também realizar a triagem de pacientes, como é o caso da Double Robots, implementada no Hospital das Clínicas em São Paulo.

Os drones também têm sido adotados como uma estratégia, seja para transportar equipamentos médicos, mas também para realizar a limpeza de vias públicas, como é o caso da experiência de Porto Alegre.

E a IA também está sendo utilizada em áreas nada convencionais, como o controle das contas públicas: a tecnologia foi aplicada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) para monitorar as compras realizadas durante o período de calamidade pública – no qual não é necessário realizar o processo de licitação – e tem sido fundamental para identificar, corrigir e evitar desvios de recursos. 

A IA também está presente no trabalho das startups. A Colab, uma das organizações aceleradas pelo BrazilLAB, juntamente com a Epitrack, desenvolveram o Brasil Sem Corona, uma plataforma de monitoramento da doença que conta com as informações compartilhadas pelos usuários a partir do celular.

A Portal Medicina, startup brasileira, desenvolveu um algoritimo capaz de analisar tomografias ou raios X e identificar se o paciente contraiu a covid-19 – com 95% de precisão.

Ainda entre as healthtechs, a brasileira Dr. Wilson, tem levado informações sobre cuidado e prevenção contra o coronavírus, um chatbot que já realizou mais de 153 mil conversas. 

Embora possa parecer que os seres humanos são coadjuvantes em todo esse processo é exatamente o contrário: a inteligência artificial faz com que o nosso trabalho seja mais eficiente ao trazer informações precisas e indicar caminhos que podem ser investigados e melhor compreendidos. 

Por exemplo, ao apontar para padrões que indicam uma doença, ela ilumina aquele caminho e permite que as pessoas – pesquisadores, analistas, empresas, governos – possam seguir investigando. Como já disse aqui, a inteligência artificial nos faz ser mais humanos e também mais necessários. 

A inteligência artificial nunca foi utilizada de maneira tão intensiva e variada. Ela tem mostrado como pode ser um recurso adaptável e aplicável às mais distintas condições e desafios. As questões relacionadas ao seu uso ético e responsável ainda permanecem, é verdade, mas já não há dúvidas sobre seu potencial para apoiar a humanidade nos momentos de maior desafio e crise – e para além deles também. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Letícia Piccolotto é mestre em Ciências Sociais, especialista em Gestão Pública pela Harvard Kennedy School e fundadora do BrazilLAB, a única plataforma brasileira que conecta startups e governos para estimular a inovação no setor público.

Sobre o blog

Acelerar ideias e estimular uma cultura voltada para a inovação do setor público. Este é um blog para falar de empreendedores engajados em buscar soluções para os desafios mais complexos vividos pela sociedade brasileira.