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Como os drones têm transformado nossas vidas – e quais são os seus riscos

Letícia Piccolotto

11/01/2020 04h00

Drones trazem benefícios e riscos. É importante analisar seu propósito (Pixabay)

Uma notícia tomou conta das manchetes de jornais na última semana: o governo dos Estados Unidos, sob liderança do presidente Donald Trump, realizou uma ação que resultou na morte do general iraniano Qassem Soleimani. Ainda vamos acompanhar os desdobramentos desta investida, mas um aspecto chama bastante atenção: o ataque foi realizado por um veículo aéreo não tripulado (VANT), conhecido mais popularmente como drone.

Os drones são aeronaves que não necessitam de um piloto a bordo, podendo ser guiadas à distância por um controle remoto. O seu uso nos esforços de guerra não é uma novidade, já que esses equipamentos nasceram exatamente com esse propósito. Já o número e a aplicação para outras finalidades é que tem se tornado uma tendência crescente no mundo e no Brasil: segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), até dezembro de 2017 havia 30.087 drones registrados no Brasil. Em 2019, esse número saltou para 79.671 – um crescimento, portanto, de 165% em apenas 2 anos.

Grande parte desses equipamentos ainda é utilizada com finalidades recreativas, porém, quase 40% do total foi registrado como sendo de uso profissional. E as aplicações são as mais diversas: monitoramento de fronteiras, transporte de medicamentos, resgates e salvamentos, combate ao desmatamento e a focos de doenças – como a dengue – atividades na agricultura e tantas outras.

Como em outras tecnologias, o impacto dos drones tem se mostrado determinante: dados da consultoria PwC revelam que, até 2030, este mercado poderá trazer um crescimento de 42 bilhões de libras ao PIB do Reino Unido, aliado ao surgimento de 628 mil empregos para garantir a operação dos 76 mil equipamentos que estarão em uso.

O céu já não é o limite

A base de dados da Crunchbase contabiliza mais de 330 startups atuando no mercado de drones no mundo, com valores que superam US$ 2 bilhões de investimentos.

Um exemplo de empresa que atua neste setor é a Wing, startup que pertence à Alphabet (holding do Google). Ela promete fazer entregas – de remédios até alimentos – percorrendo uma distância de 9,6 quilômetros em até 6 minutos ("6 miles in 6 minutes"). Com operação nos Estados Unidos, Finlândia e Austrália, os drones da startup são controlados por um software o que, segundo informações, garante um processo autônomo e seguro.

Já a Zipline atua em Ruanda e Gana no envio de suprimentos médicos – como remédios e bolsas de sangue – para comunidades localizadas em áreas de difícil acesso. Desde 2014, foram realizadas mais de 26 mil entregas por drones da companhia. Os números são surpreendentes: uma viagem que antes demoraria 5 horas, pode ser realizada, pelo drone, em média, com 30 minutos entre o pedido e entrega final. A iniciativa, inclusive, chamou a atenção de Bono Vox que, além de vocalista do U2, é filantropo e realizou investimentos na startup, passando a compor seu conselho. Segundo o músico, o lugar em que uma pessoa nasce não deve definir se ela pode viver, e a Zipline tem acabado com as distâncias, fazendo o que antes se pensava impossível. 

No Brasil, os drones têm se mostrado um importante aliado para as atividades de inteligência na área de segurança pública, como no processo de planejamento de operações, na investigação de crimes e até a vigilância de áreas de risco. No estado de São Paulo, segundo dados de abril de 2019, havia 250 drones em operação; a estimativa é de que o custo operacional de um drone de alta tecnologia seja 140 vezes menor do que o custo de um helicóptero da Polícia Militar. A tecnologia tem sido utilizada pela Prefeitura de São Paulo para o monitoramento de regiões de alta vulnerabilidade, como a Cracolândia. E também está presente em outros Estados, como Bahia e Rio de Janeiro.

Recentemente, os drones também foram estratégicos no combate aos efeitos de desastres ambientais, seja no monitoramento de áreas atingidas pelo derramamento de óleo na região nordeste do país, assim como no trabalho de identificação de áreas com queimadas na região amazônica.  

É preciso orientar e regular

Assim como acontece com outras tecnologias, os drones despertam muitas dúvidas sobre os potenciais riscos atrelados à sua utilização, como erros na operação e desvios em sua utilização, por exemplo. É importante ressaltar que nenhuma inovação é, por si, boa ou ruim, já que os resultados obtidos com a sua aplicação dependem dos propósitos aos quais ele serve. 

Para diminuir os riscos da má utilização desta tecnologia, é essencial assegurar a existência de uma legislação que regule a sua utilização para evitar desvios que possam causar algum dano à integridade física e à privacidade dos cidadãos. No Brasil, está em tramitação um projeto de lei especificamente voltado à regulação do uso de drones na segurança pública, por exemplo; atualmente, essas orientações são encontradas em normativas da ANAC.

É imprescindível também garantir treinamento adequado aos responsáveis pela operação desses equipamentos. Somente investindo na formação de pessoas podemos assegurar que as políticas públicas possam se beneficiar das vantagens trazidas pela tecnologia dos drones, sem comprometer o bem-estar dos cidadãos.

Sobre a autora

Letícia Piccolotto é mestre em Ciências Sociais, especialista em Gestão Pública pela Harvard Kennedy School e fundadora do BrazilLAB, a única plataforma brasileira que conecta startups e governos para estimular a inovação no setor público.

Sobre o blog

Acelerar ideias e estimular uma cultura voltada para a inovação do setor público. Este é um blog para falar de empreendedores engajados em buscar soluções para os desafios mais complexos vividos pela sociedade brasileira.

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