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Como evitar que voltemos às aulas pior do que antes da pandemia

Letícia Piccolotto

12/09/2020 04h00

Na volta às aulas, devemos ter um compromisso: não voltar pior do que entramos na pandemia  (Alexandra_Koch/ Pixabay)

A educação foi a área mais impactada pela pandemia de coronavírus no Brasil. Em um movimento talvez sem precedentes, crianças e adolescentes estão há 6 meses sem frequentar as salas de aula. Segundo estimativas da ONU, 1,5 bilhão de estudantes em todo o mundo estão fora da escola. 

No Brasil, temos vivido um verdadeiro experimento educacional: o ensino à distância (EAD) foi implementado em larga escala, com diferentes intensidades e níveis de preparação técnica e, mesmo sem qualquer planejamento prévio, tem permitido a continuidade das aulas para milhões de crianças –ao menos nas redes de escolas privadas. 

Quando falamos do ensino público, o cenário é bastante diferente: muitos alunos não têm acesso à internet, computadores ou celulares, tecnologias indispensáveis para a manutenção das aulas.

A pandemia tem exposto a profunda desigualdade educacional do país e, frente a esse contexto, as redes de ensino inovam e operam como podem, inclusive, com a transmissão de aulas via rádio ou televisão. 

Em diversos estados do país, não há previsão de um retorno às aulas presenciais, mas outros, como diz a expressão, começaram a colocar o pé na água. Nesta última semana, Rio Grande do Sul e São Paulo iniciaram a reabertura das escolas, que deve ser gradual, não obrigatória e prevê diversas medidas de monitoramento, cuidado e proteção com estudantes, professores e funcionários. As duas experiências são fundamentais porque os primeiros a "arriscar" uma retomada serão aqueles que servirão de referência para as demais redes de ensino –todos estamos atentos, portanto, aos resultados que poderão surgir.   

Confesso que, nesse momento, minha mente de profissional especialista em políticas públicas se confunde com meu coração de mãe. Tenho três crianças, duas delas estão em idade escolar. Convivo diariamente com o desafio das aulas em casa e também com o exercício de fazer a gestão da ansiedade que as pequenas sentem por quererem voltar à rotina da escola. 

Entendo a importância de retornar às aulas presenciais, algo que será fundamental para reduzirmos, o quanto antes, o déficit de aprendizado, mas também não me sinto completamente segura com a perspectiva de volta no momento atual, em que o número de casos da doença ainda não reduziu de maneira significativa. Aparentemente, eu não sou a única a ter receios: pesquisa do Instituto Datafolha realizada em agosto aponta que 79% acreditam que a abertura das escolas deve agravar a pandemia. 

Como quase tudo o que diz respeito à pandemia de coronavírus, teremos que lidar com uma situação em que há mais incertezas do que respostas concretas. Mas também temos diante de nós a oportunidade de fazer diferente: se, num primeiro momento, tivemos que suspender as aulas sem qualquer tipo de preparação, podemos, agora, construir uma retomada gradual e, sobretudo, planejada. Aprender com quem já trilhou esse caminho e usar a tecnologia a nosso favor são fatores imprescindíveis para que isso seja possível. 

Aprender com quem já fez

Pixabay

Durante a pandemia, por vezes, sinto como se estivéssemos em uma máquina do tempo. Diversos países já vivenciaram os mesmo problemas que, hoje, enfrentamos. Isso pode ser entendido como uma grande vantagem: podemos antecipar o que ainda está por vir e, principalmente, incorporar os aprendizados de boas práticas –evitando cometer os mesmos erros, importante lembrar. 

Analisando as estratégias de nações como Dinamarca, Coreia do Sul, Cingapura, Reino Unido e França, é possível identificar protocolos e práticas comuns: a separação de alunos em subgrupos que frequentam a escola em dias alternados, o reforço de práticas de limpeza dos ambientes e da higiene pessoal, especialmente a lavagem de mãos, a checagem de temperatura e até a criação de "classes híbridas", em que parte dos estudantes está presencialmente e parte assiste às aulas com recursos online.

Será fundamental entender esses protocolos de retomada, quais foram os desafios de sua adoção e, principalmente, os seus resultados para conter um dos principais riscos que a abertura pode trazer: a ampliação dos casos de contaminação. 

E para apoiar todas as estratégias de segurança "analógicas" –a higiene das mãos e ambientes, por exemplo– e, especialmente, para combater os outros efeitos negativos trazidos pelo fechamento das escolas, podemos e devemos contar com diversas estratégias tecnológicas. 

Tecnologia como aliada para a retomada

Há concordância entre os especialistas em relação à retomada das aulas: é impossível voltarmos de onde paramos. Os seis meses de afastamento –que podem ser ainda maiores– deverão gerar um passivo muito grande para a educação brasileira. E considerando o histórico de defasagens educacionais de nosso país, especialmente na rede pública de ensino, o cenário se torna ainda mais grave. 

Soma-se a isso o risco de que muitos alunos sequer retornem para as escolas e a taxa de evasão, já bastante alta, possa se acentuar ainda mais. Os efeitos serão catastróficos: em uma pesquisa realizada pela Fundação Brava em parceria com o Insper, conseguimos identificar que a evasão escolar no ensino médio custa ao Brasil R$ 49 bilhões por ano, algo alarmante considerando que o valor gasto com educação no período analisado era de R$ 50 bilhões. 

O Brasil tem uma singularidade, portanto: na retomada das aulas, precisamos garantir a saúde de estudantes e suas famílias, ao mesmo tempo em que asseguramos o aprendizado, especialmente entre os grupos mais vulneráveis da educação pública, e também cuidamos para reduzir a evasão escolar. 

Para lidar com um cenário tão complexo, não há respostas fáceis. Será preciso garantir coordenação entre diversos atores públicos, famílias e estudantes. Mas a tecnologia tem sido –como discuti aqui– e pode continuar a ser uma aliada fundamental nesse esforço. 

Pensando nisso, o BrazilLAB lançou a Força-Tarefa Covid-19, um projeto voltado a acelerar startups, pequenas e médias empresas que apresentem soluções para o desafio da educação no Brasil. Uma das selecionadas, a Filho Sem Fila, criou um software que permite organizar e registrar os fluxos de entrada e saída de alunos, reduzindo em 75% as aglomerações dentro da escola e a permanência de pais do lado de fora. A solução conta, ainda, com um questionário interativo de sintomas de covid-19, tanto para alunos como para colaboradores, que permite avaliar a possibilidade de frequentar a escola. 

A Agenda Edu, por sua vez, é uma plataforma de gestão de comunicação que une alunos, responsáveis e escolas. Ela substitui bilhetes ou agendas impressas e permite a comunicação em meio digital pelo celular – algo que será fundamental para garantir o compartilhamento de orientações entre escolas, alunos e famílias. 

Também selecionamos a Prova Fácil e Tamboro, que com suas plataformas permitem a avaliação de estudantes e a oferta de recursos pedagógicos, elementos que serão fundamentais para a retomada do aprendizado.

A quinta selecionada foi a Árvore de Livros e sua solução que promete democratizar o acesso aos livros: ela é a maior plataforma de leitura digital do Brasil, com mais de 35 mil obras em seu acervo.

Essas são algumas das mais de 300 soluções que conseguimos identificar com o Força-Tarefa Covid-19. Elas exemplificam como a tecnologia é fundamental para enfrentar desafios que devem estar presentes em nossa retomada da educação. E arrisco a dizer que sem a adoção de soluções tecnológicas e inovadoras, corremos o risco de não conseguir alcançar aquilo que deve ser um compromisso público: retomar a educação no Brasil não pior do que entramos no início da pandemia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Letícia Piccolotto é mestre em Ciências Sociais, especialista em Gestão Pública pela Harvard Kennedy School e fundadora do BrazilLAB, a única plataforma brasileira que conecta startups e governos para estimular a inovação no setor público.

Sobre o blog

Acelerar ideias e estimular uma cultura voltada para a inovação do setor público. Este é um blog para falar de empreendedores engajados em buscar soluções para os desafios mais complexos vividos pela sociedade brasileira.