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Até seu like influi: como o Brasil está lutando contra as fake news

Letícia Piccolotto

27/06/2020 04h00

 

Vivemos uma infodemia, e a pandemia de coronavírus reforçou a importância de combater as fake news (Ketut Subiyanto/ Pexels)

Desde o início da epidemia de coronavírus, você deve ter recebido mensagens nos grupos do WhatsApp que falavam de remédios, curas milagrosas ou que questionavam a seriedade do problema e os números divulgados pelas autoridades de saúde. O fato é que há um outro "vírus" entre nós e que se dissemina com muita rapidez: as fake news. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) se refere a esse fenômeno chamando-o de "infodemia", ou seja, a disseminação em massa de informações falsas, dúbias, descontextualizadas, tendenciosas ou deturpadas.

É verdade, são muitos os adjetivos para descrever o problema. Isso porque, embora não haja uma definição única e precisa sobre o termo "fake news", há muito temos percebido que não se trata somente do compartilhamento de notícias puramente falsas.

Aqueles que contribuem para que esse mal possa crescer e se espalhar também evoluíram seus métodos, muitas vezes, criando uma linha tênue entre o que é verdade ou não – misturando elementos da realidade com outros inventados ou descontextualizados, por exemplo.

Há vários fatores que dificultam o combate às fake news. Podemos dizer que esse é um problema complexo: envolve milhões de pessoas, o uso cada vez maior de redes sociais como fonte de informação e também a ausência de sanções específicas para os crimes relacionados ao mundo digital.

Soma-se a esse cenário o fato de que, diariamente, há uma estrutura robusta, tecnológica e estrategicamente posicionada para produzir de forma massiva conteúdos sobre diversos temas – como saúde, educação, segurança e política – sem que se tenha compromisso com a verdade ou com o interesse público.

Pode parecer assustador mas, de fato, há pessoas que dedicam suas vidas para gerar mentiras e, com isso, fazer o mal.

A boa notícia é que nunca se falou tanto sobre o tema e, nas últimas semanas, diversos acontecimentos contribuíram para colocar a questão na ordem do dia. Além disso, nunca estivemos mais preparados para combater as fake news e os seus efeitos danosos.

Afinal, por que acreditamos na mentira?

O Brasil vive um verdadeiro paradoxo quando se trata desse tema: ao mesmo tempo, somos o país que mais acredita em mentiras e uma nação que se preocupa com a verdade das informações, segundo levantamento do Ipsos.

A luta contra as fake news se acirrou no contexto das últimas eleições nacionais, quando as redes sociais e, especialmente, o WhatsApp se transformaram na principal ferramenta da disputa política, acirrando os embates e a polarização na sociedade – fenômenos que seguem firmes até hoje.

E essa contradição entre a crença nas mentiras e o desejo pela verdade acaba por deixar evidente o desafio que as fake news impõem: trata-se de um problema complexo e que, como tem provado a ciência, não se relaciona somente ao lado racional das pessoas, mas sim às suas emoções: argumentos de autoridade, viés de confirmação, groupthinking – esses são apenas alguns dos conceitos que podem explicar o processo "não tão lógico" que nos leva a compartilhar as fake news.

Para além do comportamento individual, há outras ferramentas que potencializam esse desafio. Estamos falando de estruturas tecnológicas montadas para compartilhar informações – os bots "do mal" – e o uso intensivo das redes sociais, especialmente o WhatsApp. Segundo o Reuters Institute Digital News Report 2019, 58% dos brasileiros entrevistados compartilham informações via redes social, mensagens ou e-mail.

O desafio é que essas ferramentas não apresentam qualquer recurso para checagem de informações – ou seja, quem recebe algum dado precisa acessar outra plataforma online para pesquisar sua veracidade. Uma tarefa especialmente árdua para um país como o Brasil, em que 20 milhões de domicílios não têm acesso à internet.

Como podemos ver, nosso país é um cenário especialmente sensível para o crescimento das fake news. Mas podemos ser uma referência positiva, já que há iniciativas em curso para enfrentar esse mal. E elas podem se beneficiar do uso – e da inteligência – trazida pelas tecnologias.

S. Hermann & F. Richter/ Pixabay

A agenda atual

Vivemos um momento de ebulição sobre a questão das fake news. Há pautas em tramitação no Legislativo Federal, como o controverso Projeto de Lei das fake news, há também o inquérito sobre o tema no Supremo Tribunal Federal (STF), isso sem falar na recente iniciativa que visa enfraquecer economicamente portais que disseminam notícias falsas  – a Sleeping Giants BR.

Há também iniciativas da sociedade civil, como o Redes Cordiais, um projeto de educação midiática que busca disseminar conhecimento e combater a desinformação nas redes sociais, especialmente com o apoio de influenciadores digitais – tema que discuti na semana passada.

Definitivamente, o problema está em pauta e deve permanecer pelos próximos meses. É fato que essas iniciativas têm sido muito debatidas e precisamos estar atentos aos seus desdobramentos, especialmente para garantir que não haja violação de privacidade, da segurança de dados dos usuários ou da liberdade de expressão. Mas elas não deixam também de ser um excelente sinal de que está surgindo um compromisso público de diversos atores para fazer com que o compartilhamento desse tipo de notícias seja cada vez mais enfraquecido.

Mas é preciso ir além, atuando de maneira coordenada contra o problema. Para isso, entram em cena as tecnologias disruptivas: big data, blockchain, machine learning, inteligência artificial. Todas elas permitem a análise do emaranhado de informações disseminadas a cada segundo e, especialmente, a checagem e a transparência de fontes confiáveis.

E há muitas startups atuando no tema: como a Logically, do Reino Unido, que trabalha com a checagem de grandes quantidade de informações a partir de um aplicativo para smartphone ou a Factmata que permite a análise de dados para que empresas possam vincular suas marcas a portais confiáveis. O recado é: para combater um inimigo tão ágil só com tecnologias muito avançadas e que nos coloquem um passo à frente de quem quer nos fazer mal.

O poder está nas nossas mãos – ou melhor, em nossos likes

Não custa lembrar: a ação individual é um componente fundamental para o sucesso das fake news. Por isso, antes de compartilhar uma informação sobre a qual você não conhece a fonte e a veracidade, pense que ela pode trazer um dano imenso – inclusive, para você mesmo.

As fake news não prosperam sem pessoas ajudando com o seu compartilhamento – e cada um de nós tem um papel fundamental para garantir que, nessa disputa, elas saiam perdendo.

Sobre a autora

Letícia Piccolotto é mestre em Ciências Sociais, especialista em Gestão Pública pela Harvard Kennedy School e fundadora do BrazilLAB, a única plataforma brasileira que conecta startups e governos para estimular a inovação no setor público.

Sobre o blog

Acelerar ideias e estimular uma cultura voltada para a inovação do setor público. Este é um blog para falar de empreendedores engajados em buscar soluções para os desafios mais complexos vividos pela sociedade brasileira.