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Além do digital: habilidades humanas vão determinar seu trabalho no futuro

Letícia Piccolotto

02/05/2020 04h00

Revolução no trabalho será exponencial; mudanças precisam acompanhar essas transformações (Freepik)

Ontem comemoramos o dia do trabalho no Brasil e em diversos outros países. A data sempre foi muito oportuna para realizarmos um balanço a respeito de todas as conquistas, avanços e desafios que ainda se fazem presentes nesta que é uma atividade tão antiga e fundamental para a humanidade. Com a crise trazida pelo coronavírus, o momento ganha ainda mais importância – e um profundo grau de apreensão. Afinal, todos nós temos visto como as manchetes sobre a pandemia ora se concentram nos impactos negativos para a saúde pública e outrora para a economia, especialmente para o trabalho e emprego. E o temor tem total sentido: segundo relatório publicado pela organização internacional Oxfam, a pandemia de coronavírus pode empurrar 500 milhões de pessoas para a pobreza em todo o mundo.

No Brasil, a situação é igualmente alarmante, já que a crise pode aprofundar ainda mais o já existente abismo no mercado de trabalho. Segundo dados do IBGE, nosso país tem cerca de 38 milhões de trabalhadores informais, somados aos 12 milhões de cidadãos desempregados, grupos altamente vulneráveis aos efeitos econômicos trazidos pela pandemia. Estimativas da Fundação Getúlio Vargas já mensuram o impacto da crise: em março, o Indicador Antecedente de Emprego (IAEmp), que mensura tendências para o mercado de trabalho, teve o pior desempenho desde 2016, alcançando 82,6 pontos – representando também a segunda maior queda histórica, ficando atrás somente do observado no ano de 2008.

Mesmo com toda sua gravidade, a crise que vivemos agora faz parte de um contexto maior de mudanças no universo de trabalho e emprego que está no horizonte há alguns anos. Há vários elementos que estimulam essa transformação, especialmente a chamada quarta revolução industrial: a adoção de novas tecnologias digitais que estimulam o surgimento de novas profissões e o desenvolvimento de novas habilidades.

O trabalho do futuro e o futuro do trabalho foram temas amplamente debatidos no encontro do Fórum Econômico Mundial, realizado em janeiro deste ano, em Davos (Suiça). Especialistas alertaram para os riscos de não assumir as necessidades impostas pela transformação tecnológica: entre os países do G20, o que pode representar uma perda econômica equivalente a US$11,5 trilhões do PIB – sem considerar os custos humanos.

Precisamos enfrentar os desafios impostos pela pandemia para o mundo do trabalho, ao mesmo tempo em que nos preparamos para assegurar que todas as oportunidades trazidas pela transformação digital sejam efetivamente aproveitadas. Quanto mais cedo começarmos, melhor estaremos.

Cada vez mais digitais e ainda muito mais humanos

A expectativa é de que 1,1 bilhão de empregos devem ser impactados pelas novas tecnologias na próxima década, mas, ao contrário do pensamento comum, o saldo é positivo: enquanto 75 milhões de postos de trabalho devem ser eliminados em função da automação, 133 milhões de novas oportunidades devem surgir em função da tecnologia.

Engana-se também quem acredita que os trabalhos do futuro serão marcados exclusivamente pelas ciências exatas ou pelos conhecimentos essencialmente técnicos, como a inteligência artificial ou a análise de dados.

Na verdade, uma pesquisa publicada pelo Fórum Econômico Mundial mostra que há 96 "profissões do amanhã". São ocupações que devem ser desenvolvidas nos próximos anos e que estão divididas em grandes grupos: cuidado às pessoas e saúde, vendas, marketing, "economia verde", recursos humanos e desenvolvimento de produtos. Como esperado, engenharia, computação de dados e inteligência artificial também terão um papel fundamental.

Nesse cenário de mudanças, precisaremos que os profissionais sejam capazes de desenvolver novas habilidades e competências. Embora tenham definições variadas, há um relativo consenso de que esses termos descrevem aptidões adquiridas a partir de treinamento, experiência ou estudo. Elas podem estar relacionadas a aspectos técnicos (por exemplo, programação de sistemas), comportamentais (capacidade de trabalhar em grupo) e também cognitivos (como pensamento estratégico).

Com a pandemia, por exemplo, muitos de nós tivemos que desenvolver uma competência muito específica: a de trabalhar remotamente. Pode parece que o exercício é algo simples e até muito cômodo – afinal, muitos sonhavam em poder trabalhar do conforto de casa. Mas depois de alguns dias, o novo arranjo profissional mostrou a sua real complexidade: é preciso disciplina, organização, foco, dedicação e resiliência para que a experiência home office seja agradável e, sobretudo, produtiva. Do outro lado, as empresas também tiveram que adaptar seus processos "do dia para a noite", se adequar à legislação e garantir os insumos necessários aos trabalhadores, por exemplo, notebooks. Ainda estamos nos adaptando a esse novo contexto, mas tudo indica que o trabalho remoto não será somente tendência passageira, já que a modalidade deve crescer 30% mesmo após o fim da crise. 

Cada profissão e contexto devem demandar um conjunto de habilidades e competências específico. Mas é interessante notar que, mesmo com a transformação digital, não são as habilidades puramente técnicas que se sobressaem, mas sim as humanas. Atributos como criatividade, pensamento crítico, curiosidade, persuasão e negociação serão tão importantes quanto conhecimentos matemáticos ou computacionais. Em outras palavras, a transformação digital nos fez ainda mais importantes – e mais humanos. 

Aprendizado e o papel de governos e empresas

Freepik

As informações vão se atualizando, novas tendências passam a surgir e os trabalhadores precisam fazer a transição para um mundo em que o aprendizado passa a ser constante – alguns especialistas chamam isso de "lifelong learning".

Hoje já são muito comuns conceitos como upskilling e reskilling. O primeiro indica o "aprimoramento", ou seja, o desenvolvimento de novas habilidades em um campo de atuação em que já se tem domínio. O reskilling, por sua vez, se refere à "requalificação", o ato de aprender novas competências para realizar um trabalho diferente. A transição digital pelas quais passam governos e empresas demandará especialmente ações de requalificação dos profissionais: aprender novas habilidades relacionadas às tecnologias.

As ações de upskilling e reskilling serão muito importantes daqui para frente e não podem ser uma preocupação somente dos trabalhadores. É preciso que os governos e as empresas se envolvam no esforço de, constantemente, aprimorar e desenvolver seus profissionais. Isso se torna ainda mais verdade se considerarmos o contexto brasileiro e as expectativas da geração Z: precisamos aproveitar as possibilidades trazidas pela transformação digital para inserir o maior número de jovens em trabalhos qualificados e com alta possibilidade de retorno.

Para a área de tecnologia e inovação, há muitos exemplos de como isso pode ser alcançado. A plataforma Brasil Mais Digital, por exemplo, oferece cursos na área de tecnologia em formato EAD, ou seja, ensino a distância. Já são mais de 420 mil alunos cursando um portfólio de 800 cursos técnicos e comportamentais. Outra iniciativa foi desenvolvida pela Microsoft e Amazon, em parceria com Sesi e Senai, para a oferta de cursos em inteligência artificial.

Há também infinitas possibilidades trazidas por instituições que ofertam cursos no modelo bootcamp: formações intensivas, em um curto período de tempo, que prometem preparar profissionais para o mercado de trabalho. Muitas delas têm sido escolhidas por jovens em início de carreira e os resultados são muito positivos. A Generation Brazil é um desses exemplos. A organização iniciou sua operação no Brasil no ano passado, e tem formado desenvolvedores de software em um curso integral de 12 semanas. Em 2020, serão 1000 alunos formados e empregados em empresas de tecnologia.  

Há ainda muito a investir em programas de formação continuada nas empresas, em cursos ofertados com ensino a distância e também formações práticas com exemplos reais do mundo do trabalho. O mais importante é reconhecer que as mudanças são profundas e devem transformar todo o mercado de trabalho – assim sendo, todos e cada um temos uma contribuição a trazer.

Oportunidades e responsabilidades

A transformação digital traz alertas e oportunidades. 

Se por um lado as mudanças tecnológicas são inevitáveis e já estão em pleno desenvolvimento, por outro viveremos um futuro em que os seres humanos serão cada vez mais necessários e relevantes. Mas para que isso se torne realidade e não uma mera previsão, precisamos garantir que essa revolução esteja a nosso favor, desenvolvendo o conjunto de habilidades e competências necessário para que possamos operar as tecnologias e utilizá-las em todo o seu potencial.

Assim como na revolução industrial no início do século XIX, estamos diante de uma oportunidade preciosa para transformar o mundo do trabalho. Nossas ações determinarão se poderemos reescrever a história, fazendo com que o trabalho para todos seja próspero, inclusivo, responsável e valioso. Que possamos escolher rápido e bem. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Letícia Piccolotto é mestre em Ciências Sociais, especialista em Gestão Pública pela Harvard Kennedy School e fundadora do BrazilLAB, a única plataforma brasileira que conecta startups e governos para estimular a inovação no setor público.

Sobre o blog

Acelerar ideias e estimular uma cultura voltada para a inovação do setor público. Este é um blog para falar de empreendedores engajados em buscar soluções para os desafios mais complexos vividos pela sociedade brasileira.