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Oportunidades e desafios: a tecnologia pode empoderar as mulheres?

Letícia Piccolotto

07/03/2020 04h00

A tecnologia pode ser uma ferramenta para empoderar meninas e mulheres (Pixabay)

O dia internacional das mulheres se aproxima. Muitos questionam a necessidade dessa data ou o real motivo para comemorações. No grupo de WhatsApp da minha família todo ano esse debate acontece: tios, primos, maridos e irmãos desejam felicidades e enaltecem as nossas qualidades como mulheres. Minha mãe e tias agradecem, mas minhas primas, que já são de outra geração, sempre questionam se de fato temos motivos para celebrar, uma vez que muitas mulheres no mundo ainda não têm acesso a direitos básicos, como educação, saúde e trabalho digno. Elas destacam também o quanto pode ser letal ser mulher em nosso país – onde a taxa de feminicídio é a quinta maior do mundo: são duas mulheres mortas a cada 2 horas.

Confesso que vejo muita importância na data, pois considero uma oportunidade para debatermos nosso papel na sociedade, a desigualdade de gênero que ainda prevalece, assim como os avanços obtidos. O dia das mulheres foi oficialmente declarado pela ONU em 1975, marcando um período de lutas feministas no início do século XX, tanto nos EUA quanto na Europa, por melhores condições de vida, trabalho e pelo direito de voto.

Naquela época, por exemplo, as mulheres representavam mais de 70% da mão de obra do setor têxtil, ganhavam menos que os homens fazendo as mesmas tarefas, trabalhavam de 12 a 14 horas nas fábricas e ainda tinham duplas e triplas jornadas: atuando como costureiras em casa e mantendo a responsabilidade pela criação dos filhos e dos afazeres domésticos.

De lá para cá, tivemos grandes conquistas para as meninas e mulheres em diversas dimensões da vida. E tem sido muito bonito ver como cada vez mais a pauta por equidade de gênero tem estado presente em nossas discussões cotidianas, com mais meninas e mulheres vocalizando, compartilhando, atuando e construindo ações para ampliar a participação e valorização feminina nos espaços de poder, sejam eles coletivos ou individuais.

É preciso reconhecer que, mesmo com tantos avanços, ainda temos um caminho longo para garantir que as situações de discriminação, violência, assédio e exclusão não sejam mais uma realidade.

Alguns indicadores nos mostram a magnitude dos desafios que ainda teremos que enfrentar: segundo relatório da ONU Mulheres, nosso salário é 24% menor do que o dos homens. Em todo o mundo, apenas metade das mulheres participa do mercado de trabalho. Existe somente uma mulher a cada quatro parlamentares e, entre as 500 maiores empresas do mundo, menos de 5% possuem CEOs mulheres. No Brasil cerca de 83% dos trabalhadores domésticos são mulheres e quase metade não tem direito a um salário-mínimo.

O direcionador é muito claro: a pauta da equidade de gênero precisa estar cada vez mais presente em todos os lugares. E é fundamental nos conscientizar sobre a importância do empoderamento de meninas e mulheres, de forma a gerar oportunidades de educação, emprego e participação que permitam a todas nós lograr patamares de liberdade e autonomia plena.

Para alcançarmos equidade e maior participação, defendo que a tecnologia pode ser uma ferramenta fundamental para o empoderamento de meninas e mulheres. Há um universo de oportunidades trazidos pela revolução tecnológica – e precisamos aproveitar todas as possibilidades para que participemos de maneira ativa nesse movimento transformador.

Tecnologia como uma grande oportunidade

Estamos vivenciando uma revolução tecnológica em todas as dimensões da vida. As tecnologias estão transformando a forma como fazemos as ações cotidianas – desde as mais complexas até as mais simples. E embora todos sejamos impactados por esse movimento, é cada vez mais evidente que meninas e mulheres não têm ocupado o protagonismo necessário.

Segundo pesquisa da Softex, as mulheres são minoria em posições estratégicas, técnicas e diretivas nas organizações que trabalham com tecnologia, além de receberem 11,05% a menos nas posições relacionadas à Core TI e ocuparem menos de 20% desse mercado de trabalho.

Não há uma razão científica que justifique a baixa participação de mulheres nas áreas de STEM – science, technology, engineer and mathematics (cîencia, tecnologia, engenharia e matemática). Uma pesquisa da McKinsey indica que 47% das estudantes do ensino fundamental demonstram interesse por ciência da computação. Esse indicador cai para 23% no ensino médio e 19% no ensino superior, evoluindo até chegarmos a patamares desoladores: nós, mulheres latinas, representamos 1% da força de trabalho atuando com computação globalmente.

Os dados só confirmam o que observamos todos os dias. As meninas e mulheres perdem o interesse pela área de tecnologia ao longo de sua trajetória de vida, o que me faz perguntar: Por que isso acontece? O que a sociedade não está garantindo para que elas permaneçam e possam prosperar em posições estratégicas nessa área?

Uma questão de desenvolvimento social

(Pixabay)

Garantir a equidade de gênero para meninas e mulheres é um direito humano fundamental. E é também uma estratégia poderosa para garantirmos desenvolvimento social – traduzindo, a melhoria das condições de vida, dos indicadores econômicos e o alcance das tão sonhadas prosperidade e justiça social.

Segundo dados do McKinsey Global Institute, avançar na equidade de participação de mulheres pode contribuir para aumentar em US$ 12 trilhões o Produto Interno Bruto das nações até 2025. Considerando somente o contexto brasileiro, pesquisa da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontou que diminuir as diferenças de gênero no mercado de trabalho poderia aumentar o PIB em 3,3%, ou R$ 382 bilhões.

Somos metade da população mundial e nossa maior participação poderia gerar impactos positivos para todos. Para isso, precisamos garantir a inclusão digital de meninas desde os primeiros anos de vida, assim como ampliar o engajamento e o envolvimento das mulheres em posições estratégicas da área de tecnologia. E mais: a participação de mulheres no mundo da tecnologia traz diversidade e resultados muitos positivos: criatividade, inovação, lucratividade e a redução de viés – um problema cada vez mais presente nesta área.

Há muitas oportunidades em curso, com mulheres se capacitando e requalificando para conquistarem posições com excelente remuneração. Algumas iniciativas nacionais já têm se dedicado a isso, como a Progra{m}aria e a Py Ladies.

A Progra{m}aria se dedica a "empoderar mulheres através da tecnologia diminuindo o gap de gênero no mercado de trabalho". Ela oferece o curso "eu progr{amo}", assim como eventos e produção de conhecimento para sensibilizar sobre a pauta. A Py Ladies, por sua vez, "é uma comunidade mundial que foi trazida ao Brasil com o propósito de instigar mais mulheres a entrarem na área tecnológica". São eventos, publicações e cursos dedicados a fortalecer a pauta, contando com a participação de mulheres de todos os lugares do país.

Estamos nos organizando para ocupar cada vez mais o mundo da tecnologia. E a perspectiva é muito animadora.

Ainda há muito a fazer – e a celebrar

Como fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação no Brasil dedicado à pauta GovTech, pude conhecer a história de mulheres incríveis que, assim como eu, dedicaram suas vidas ao empreendedorismo, à inovação e tecnologia. Temos um poder transformador e um desejo de, cada vez mais, podermos ser protagonistas no tema.

Como mencionei no início do texto, considero o dia 8 de março como sendo importante para refletirmos sobre a participação de meninas e mulheres na sociedade. Aproveitando essa data, no dia 10 de março, próxima terça-feira, realizarei um bate-papo sobre como a tecnologia pode ser um instrumento fundamental para esse protagonismo. E convido você a fazer parte desse momento. As vagas são limitadas e, para entender como participar, visite minhas redes sociais: Facebook  e Instagram.

Termino esse texto com um pensamento positivo: toda a mobilização em torno da pauta de equidade de gênero me enche de esperança e me faz crer que estamos vivendo um momento de profundas transformações para as mulheres e meninas. Acredito que minhas filhas, hoje crianças e cheias de potencial, terão um mundo muito melhor do que aquele que eu vivo e atuo cotidianamente. Seguimos!

Sobre a autora

Letícia Piccolotto é mestre em Ciências Sociais, especialista em Gestão Pública pela Harvard Kennedy School e fundadora do BrazilLAB, a única plataforma brasileira que conecta startups e governos para estimular a inovação no setor público.

Sobre o blog

Acelerar ideias e estimular uma cultura voltada para a inovação do setor público. Este é um blog para falar de empreendedores engajados em buscar soluções para os desafios mais complexos vividos pela sociedade brasileira.

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