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Startups bilionárias: vocação do Brasil favorece crescimento de unicórnios

Letícia Piccolotto

15/02/2020 04h00

Pixabay

Há algum tempo os unicórnios deixaram o posto de criaturas místicas dos contos de fadas para se tornarem figuras reais. É assim que são chamadas as startups avaliadas em US$ 1 bilhão ou mais – e elas têm se tornado cada vez mais presentes em todo o mundo.

2019 foi o ano dos unicórnios no Brasil. Nada menos do que 5 startups unicórnio nasceram nesse período. E é muito provável que você conheça ou já tenha até mesmo utilizado os produtos e serviços ofertados por elas: a Loggi, empresa de transporte; Gympass, que criou um plano para utilização de academias; QuintoAndar, que atua no ramo de compra e aluguel de casas e apartamentos; a Ebanx, de pagamentos e, por último, a Wildlife, estúdio de games. 

Muito mais do que representar o sucesso individual de empreendedores que conseguiram erguer grandes impérios, muitas vezes "do nada", o crescimento de unicórnios é um indicador muito poderoso para o ecossistema empreendedor. Significa que ele está avançando em maturidade, escala e inovação. E esse movimento só tende a crescer. 

O universo das startups e dos unicórnios

No Brasil, o termo startup só se popularizou no fim da década de 90, para nomear uma empresa jovem, com um modelo de negócio inovador e uma ideia disruptiva com grande potencial de produzir lucro. Essa definição se mantém até hoje e engloba também importantes princípios, como a sustentabilidade, a rapidez e a flexibilidade.

Há startups nas mais diversas áreas – fintechs, agritechs, lawtechs, edtechs e as já conhecidas govtechs. Todo unicórnio é uma startup, ainda que o contrário não é verdade.

Para que as startups iniciem sua operação, já que ainda não têm faturamento ou lucro iniciais, elas precisam de investimento, muitas vezes realizado por fundos de venture capital. Em tradução literal, seria algo como "capital de risco" – afinal, os investidores, abertos à possibilidade de insucesso, aportam dinheiro em uma ideia que pode vir a ser bem-sucedida. 

O mercado de venture capital tem estado bastante aquecido, e esse, sem dúvida, é um dos fatores que contribuiu para o crescimento dos unicórnios. Segundo estimativas da Associação para Private Capital Investment na América Latina, até o final de 2018, os fundos de private equity (capital privado) e venture capital (capital de risco) somavam US$ 6,7 bilhões no continente – um crescimento de 55% em relação a 2017. 

Ainda, um levantamento da CBInsights indica que há 447 empresas unicórnios no mundo – número que se atualiza constantemente no "The Global Unicorn Club". Muitas são conhecidas do nosso dia a dia: Airbnb, Cabify, Coursera, WeWork. E onze dessas raridades estão por aqui. 

No Brasil, a primeira a ser considerada um unicórnio foi o aplicativo de transporte urbano 99. Uma das mais conhecidas é o iFood, a plataforma para pedido de comida de restaurantes, que em pouco tempo tornou-se o maior aplicativo de delivery de alimentos da América Latina, com mais de oito milhões de pedidos por mês e valor estimado em US$ 2 bilhões. No mundo das fintechs, somos o berço da Nubank – considerado um dos maiores bancos digitais do mundo, mesmo atuando apenas no Brasil – da processadora de pagamentos Stone – conhecida pelas maquininhas verdes de cartão de crédito – e da PagSeguro, que alcançou aproximadamente US$ 2,3 bilhões com a venda de suas ações. A Movile completa a lista: é uma startup de venture capital, ou seja, investe em negócios promissores e de risco.  

Teremos govtechs unicórnio no Brasil?

Freepik

Essa é a pergunta de 1 bilhão de dólares. Ainda não temos uma govtech unicórnio no Brasil, embora a grande maioria das startups possa modelar seu negócio para uma atuação B2G – ou seja, business to government – ou atuar em colaboração com o governo. Por exemplo, aplicativos como Waze ou Uber podem ser ferramentas poderosas para pensar a mobilidade urbana, sobretudo em grandes cidades, graças à quantidade inimaginável de informações que eles dispõem. 

Há vários fatores que dificultam o surgimento de unicórnios govtech. Primeiro e mais importante, a dimensão cultural: o setor público é quase sempre visto como um espaço difícil de atuar, em que há burocracia em excesso e baixa propensão a inovar. Não é, portanto, a primeira opção dos empreendedores das startups. Transformar essa imagem tem sido a pauta de atuação do BrazilLAB, organização que busca conectar empreendedores e o setor público para, juntos, construírem soluções tecnológicas e de impacto. 

As govtechs também quase nunca são foco de investimento. Assim, é necessário haver fundos de capital de risco formados por investidores ávidos por criar impacto e transformação social. Ganham todos: as startups, por terem condições para financiar sua operação; investidores, que podem ter o retorno de seu investimento, assim como a sociedade, que terá à sua disposição políticas públicas potencializadas pela inovação. 

Futuro promissor

O crescimento de unicórnios no Brasil é um fenômeno que tende a se consolidar nos próximos anos. Segundo dados da Crunchbase Unicorn Board, o Brasil foi o  maior criador de unicórnios em 2019 – estando atrás dos Estados Unidos e China. 

Além disso, nosso país tem sido referência na América do Sul, juntamente com a Colômbia, no mercado de investimentos de risco em ascensão: embora os valores investidos não sejam comparáveis aos dos EUA – que, em 2019, levantaram mais de US$ 100 bilhões de investimentos em startups – temos progredido de maneira constante, aumentando o volume de transações de US$ 1,37 bilhão para US$ 2,47 bilhões. Precisamos, agora, garantir a ampliação e, mais ainda, a diversificação deste investimento.

As startups unicórnio são símbolo da nossa natureza empreendedora e representam um Brasil que dá certo. E podemos aproveitar essa vocação para estimular os empreendedores a construir soluções para o setor público. 

E há muito espaço para criarmos unicórnios, decacórnios e, quiçá, hectacórnios no setor público: ele é responsável, sozinho, por 40% do Produto Interno Bruto do país. Além disso, segundo estimativas apresentadas no GovTech Summit de Paris, o mercado de startups vendendo soluções para governos deve valer US$1 trilhão até 2025. 

Parafraseio aqui Uri Levine, CEO do Waze – e que esteve no evento GovTech Brasil organizado pelo BrazilLAB: para trabalhar com o setor público, "é preciso se apaixonar pelos problemas e não pelas soluções". O desafio é grande, é verdade, mas a recompensa é maior ainda.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Letícia Piccolotto é mestre em Ciências Sociais, especialista em Gestão Pública pela Harvard Kennedy School e fundadora do BrazilLAB, a única plataforma brasileira que conecta startups e governos para estimular a inovação no setor público.

Sobre o blog

Acelerar ideias e estimular uma cultura voltada para a inovação do setor público. Este é um blog para falar de empreendedores engajados em buscar soluções para os desafios mais complexos vividos pela sociedade brasileira.

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