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Com ou sem likes: os efeitos da tecnologia na saúde mental dos seus usuário

Letícia Piccolotto

27/07/2019 04h00

Somos mais agilizados e ricos em tempo do que nunca, mas isso tem diversos custos – e é aí que entra a saúde pública para lidar com a tecnologia

E então, em meados de julho, o Instagram resolveu, em período de testes, suspender os famosos likes de sua plataforma. Apenas uma decisão particular de uma empresa tecnologia… e que causou furor e comentários e opiniões não apenas em todas as redes sociais, mas em toda a internet, nos telejornais, nas rodas de conversa. A medida começou oficialmente pela Austrália, mas já tinha sido testada no Canadá em maio – e, agora, chegou a países como Itália, Japão, Nova Zelândia e o Brasil. Mas como uma decisão simples e pontual de uma plataforma online pode causar tanto impacto? Bem: essa é uma prova de como a tecnologia nos afeta hoje – e também uma pista de como ela pode nos ajudar, se bem empregada.

A diretora de políticas do Facebook (dono do Instagram), Mia Garlick, disse que o aplicativo decidiu suspender os likes porque ele deve ser um espaço onde as pessoas se sintam à vontade para se expressar em vez de serem julgadas. "Esperamos que o teste remova a pressão de quantos likes um post receberá para que você possa se concentrar em compartilhar as coisas que adora", disse ela em um comunicado.

O Instagram avisou que o modelo pode ser temporário e que a empresa de mídia social responderá ao feedback dos usuários. No Brasil, apesar do baque inicial, a impressão é de que as pessoas assimilaram a medida. Talvez porque isso tenha trazido um alívio mesmo – afinal, somos o país mais ansioso do planeta.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, temos aqui o maior número de pessoas que sofrem com ansiedade no mundo – assombrosos 18,6 milhões de brasileiros, quase 10% da população, dizem conviver, de algum modo, com esse transtorno.

A ansiedade é definida por especialistas como uma emoção caracterizada por sentimentos de tensão, pensamentos preocupados e mudanças físicas, como aumento da pressão arterial. E sim, os mesmo especialistas já acreditam, hoje, que a tecnologia – e nossas formas de interagir à distância, enviar e receber mensagens o tempo todo, não desconectar mesmo em momentos privados, como a hora de dormir e fazer refeições – pode, sim, provocar ansiedade.

A maioria das pessoas poderia ter esses sentimentos ao longo do tempo, em algum ponto crítico da vida, mas é pior no caso de quem tem predisposição ou já sofre com a ansiedade, levando a um transtorno severo e pedindo até mesmo intervenção médica.

Da tensão ao acolhimento

A tecnologia tornou nossas vidas, claro, e tornou tudo muito mais eficiente e de acesso mais fácil em comparação com gerações passadas. Ela nos libertou de tarefas e nos deu tempo livre para, em teoria, participar de mais atividades de lazer fora do trabalho para viver.

Apesar disso, algumas tecnologias podem estar nos tornando menos felizes do que nossos antepassados – e é preciso encarar que ela é uma faca de dois gumes. Somos mais agilizados e ricos em tempo do que nunca, mas isso tem diversos custos. E é aí que entra a necessidade de a saúde pública pensar sobre e pensar junto com a tecnologia.

Um dado do sistema de saúde do Reino Unido indica que duas em cada três pessoas conhecem alguém com problemas de saúde mental – configurando uma real epidemia. Sendo um problema do presente e com óbvio desdobramento para o futuro, esse quadro e as políticas de saúde envolvidas têm que ser consideradas por governos em todo o mundo.

Como a tecnologia poderia ajudar? De muitas formas. Primeiramente, sendo uma ferramenta para o setor público reunir dados e, assim, modelar suas ações. Depois, facilitando acessos, criando prontuários atualizados, consolidando informações. E, então, poderíamos inclusive estabelecer triagem, atendimento e todas as funções da telemedicina aplicadas à saúde mental da população. 

Empresas de tecnologia, como o Facebook e o Instagram, se tornaram símbolos de disrupção e inovação. Está claro que vieram para ficar e que suas decisões mercadológicas são capazes de mudar hábitos e transformar rotinas para milhões de pessoas. Cabe à essa mesma mentalidade gerar, também, o bem-estar para os adoradores do mundo tech.

Sobre a autora

Letícia Piccolotto é mestre em Ciências Sociais, especialista em Gestão Pública pela Harvard Kennedy School e fundadora do BrazilLAB, a única plataforma brasileira que conecta startups e governos para estimular a inovação no setor público.

Sobre o blog

Acelerar ideias e estimular uma cultura voltada para a inovação do setor público. Este é um blog para falar de empreendedores engajados em buscar soluções para os desafios mais complexos vividos pela sociedade brasileira.

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