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Bikes e patinetes ganharam milhares de fãs em SP – mas só isso basta?

Letícia Piccolotto

06/04/2019 04h00

Bikes e patinetes se tornaram uma onda mundial – mas Paris, por exemplo, já encerrou a lua-de-mel com eles e acaba de aprovar uma taxação para as frotas.

Qualquer um que passa pelo centro expandido da capital paulista, hoje em dia, percebe logo que as bicicletas e os patinetes elétricos compartilhados se tornaram uma febre. Na verdade, essa onda é mundial: quase toda metrópole, atualmente, nota o ziguezague frenético desses pequenos veículos. São práticos, ágeis, com custo e benefício compatíveis com a pressa de executivos e estudantes que circulam em grandes capitais. Tudo é muito legal – até que a ideia genial rouba um pouco demais a cena.

Paris, por exemplo, já encerrou a lua-de-mel com os patinetes e bikes e está agora em uma discussão de relacionamento com os mesmos. De acordo com a prefeitura, existem 15 mil desses chamados "veículos flutuantes" circulando por lá. E então, na última semana, a cidade determinou que as empresas que operam os serviços paguem um imposto dependendo do tamanho de sua frota.

A capital francesa é uma cidade pequena em área geográfica – e onde é impossível estacionar um carro na maior parte do tempo ou custa caro à beça. Assim, como a grande maioria da população prefere não ter automóvel, usar esses serviços se tornou algo mais rápido e barato, muitas vezes, do que acessar o metrô ou ônibus. O que causou um trânsito insano de patinetes, obstrução de calçadas e outras implicações.

São Paulo já vive questões semelhantes. Podemos contar, hoje, cerca de cinco startups operando os modais compartilhados, como Yellow, Bike Sampa (com a marca Itaú), CicloSampa (com o Bradesco), Grin, Scoo etc.. São empresas que se tornaram conhecidas e acessadas – mas por um público muito específico, que fica em meio ao centro da capital, parte da zona oeste, bairros mais ricos (e inclusive servidos por outras opções de transporte).

Medidas para mobilidade, sejam criadas no poder público ou pela visão de negócio das startups, são muito valorosas. E as cidades podem e devem começar a resolver seus desafios por algum lugar. Mas é importante também diversificar a atenção. Até porque, bikes descoladas e patinetes elétricos não resolvem a vida de todo cidadão.

Vamos viralizar essa febre

No setor da mobilidade, sistemas que monitoram as linhas de ônibus, por exemplo, são um nicho importantíssimo. E existem soluções nessa área. A Cittati, startup brasileira de tecnologia para transportes, cria sistemas para otimizar essas frotas (desde dimensionar o uso das linhas até criar uma escala de trabalho para motoristas, aumentando a segurança); e esse é um modal essencial para as periferias.

Mas uma coisa que a febre dos patinetes evidenciou como nunca é que os cidadãos se apegam em soluções que facilitem suas vidas e que isso se torna um ativo para os municípios. Mesmo com as taxações, as adequações que precisam ser feitas (o controle da velocidade, por exemplo) e outras adaptações, esses veículos não deixarão mais de ser usados. Eles foram adotados pela população, estacionaram de vez na nossa rotina.

Imagine, então, benefícios assim viralizados para tantas outras frentes – apps marcando consultas e exames sem que o paciente saia de casa, disparo de chamados de emergência, plataformas na internet para candidatar-se a um emprego ou inscrever as crianças na escola, ferramentas em cada cidade do país que permitissem regularizar documentos de forma online.

Seria bacana ver surgir cada vez mais empresas de tecnologia que caíssem no gosto do cidadão – e virassem o sucesso de público que bikes e patinetes se tornaram. As iniciativas existem; elas precisam ser pilotadas para todos os cantos do Brasil, em verticais diferentes e para muito além dos centros.

Sobre a autora

Letícia Piccolotto é mestre em Ciências Sociais, especialista em Gestão Pública pela Harvard Kennedy School e fundadora do BrazilLAB, a única plataforma brasileira que conecta startups e governos para estimular a inovação no setor público.

Sobre o blog

Acelerar ideias e estimular uma cultura voltada para a inovação do setor público. Este é um blog para falar de empreendedores engajados em buscar soluções para os desafios mais complexos vividos pela sociedade brasileira.

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