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Inclusão de pessoas com deficiência está na mira das startups de tecnologia

Letícia Piccolotto

02/03/2019 04h00

Tecnologias para pessoas que precisam ser incluídas na sociedade, e não relegadas, estão entrando como nunca antes na mira de startups em todo o mundo (foto: iStock)

Vamos aos fatos: quase 1/4 da população brasileira é composta por pessoas que possuem algum tipo de deficiência. De acordo com o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 45 milhões de pessoas que se encaixam nesse quadro – e, no mundo, 15% da população experimenta o mesmo cenário (sendo que entre 110 e 190 milhões de seres humanos sentem questões significativas de mobilidade, sentidos e outros). Se falarmos em inclusão social, podemos até expandir o pensamento – e lembrar que a inclusão financeira, por exemplo, também é uma questão a ser tratada, atingindo bilhões ao redor do mundo. Tamanho grupo de pessoas poderia ficar afastado de produtos e serviços oferecidos via tecnologia por empresas privadas e pelos governos?

De modo algum. Por isso mesmo, as tecnologias para pessoas que precisam ser incluídas na sociedade, e não relegadas, estão entrando como nunca antes na mira de startups em todo o mundo. No Brasil, temos que admitir, ainda se trata de algo embrionário – e, justamente por isso, precisamos nos mirar em bons exemplos externos.

Em Israel, por exemplo, o campo para startups focadas em inclusão anda fértil. Muitas estão atuando em prol do bem-estar do ser humano – incluindo uma aceleradora, a A3I, que já catapultou 22 empresas voltadas para pessoas com deficiências. São soluções como a da Siman Shenagish, que usa a tecnologia para traduzir a língua de sinais hebraica para a forma falada.

Igualdade e diversidade estiveram, também, entre as tendências apontadas durante o South by Southwest 2018 (ou simplesmente SXSW, festival de entretenimento e tecnologia que acontece todos os anos em Austin, Texas). O evento é uma bússola que aponta para as novas práticas em inovação e comportamento.

No caso do Brasil, um incentivo a mais para a ampliação do segmento é a Lei Brasileira da Inclusão, que entrou em vigor em janeiro de 2016. Entre os destaques, está ali a regra que obriga as empresas a ajustarem seus sites para oferecer conteúdo acessível. Isso gera uma demanda imediata por startups que operem na área.

Lição de casa

Por sinal, existe ainda um tema importante quando se fala em inclusão e acessibilidade – e que toca justamente no nascimento das próprias startups. A mudança deve acontecer de dentro para fora, é essencial pensar nisso.

A ideia de implementar acessibilidade no design de uma ferramenta que se vai oferecer ao mercado é, muitas vezes, vista como a última coisa em uma lista de recursos "mais bacanas". Traduzir comandos para outros idiomas, implantar acesso por voz, considerar as libras: muitos acreditam que projetar um produto com esses e outros fundamentos é demorado, beneficia um pequeno número de pessoas e é, principalmente, caro. Portanto, o retorno sobre o investimento é minúsculo.

Essa é a lição de casa que todo empreendedor deve pensar para, então, começar a mudar o rumo das coisas. É preciso investigar como o design do produto pode ser acessível sem ser demorado ou caro (é, sim, possível). E que incluir pessoas com deficiências ou questões particulares dentro do quadro de usuários em potencial só ajuda a aumentar as taxas de conversão, o crescimento da ferramenta e a atenção ao cidadão. A todos os cidadãos.

Sobre a autora

Letícia Piccolotto é mestre em Ciências Sociais, especialista em Gestão Pública pela Harvard Kennedy School e fundadora do BrazilLAB, a única plataforma brasileira que conecta startups e governos para estimular a inovação no setor público.

Sobre o blog

Acelerar ideias e estimular uma cultura voltada para a inovação do setor público. Este é um blog para falar de empreendedores engajados em buscar soluções para os desafios mais complexos vividos pela sociedade brasileira.

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