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Celeiro de startups: Como crise econômica obrigou Madri a se reinventar

Letícia Piccolotto

16/02/2019 04h00

O movimento de transformação que há em Madri começa a se multiplicar e puxar a capital para o conceito de smart city – fazendo surgir startups como o Cabify

Madri, capital da Espanha, sempre foi conhecida como um importante centro econômico e comercial da Europa. Principalmente quando se falava em setores tradicionais, como o bancário, a cidade era vista como um pilar dos negócios. Veio então a crise econômica de 2008 – e Madri viu o índice de desemprego entre jovens chegar a assombrosos 50%.

Ao se formar nas universidades em 2013, cerca de 200 mil rapazes e moças escolheram simplesmente deixar a Espanha e emigrar; muitos do que ficaram, porém, optaram por se tornar autônomos. E se a crise mostrou que o modelo padrão de economia estava em cheque, mostrou também que era hora de ser criativo. Foi quando Madri se tornou um celeiro de startups.

Nos últimos anos, esse novo mundo da inovação marcou 30% de crescimento na capital. Vieram os cases célebres – sendo o mais lembrado o nascimento do Cabify, que, com investimentos na casa dos US$ 100 milhões, está hoje em 11 países (incluindo Brasil).

A efervescência do ecossistema de startups em Madri também não passou despercebida pelas gigantes de tecnologia: em 2017, o Google abriu na cidade um de seus três centros de inovação na Europa e a Amazon instalou ali um hub de inovação e um centro logístico. No primeiro trimestre de 2018, os investimentos em startups alcançaram 4,5 bilhões de euros – o que significa que 77% de todo o aporte direto na Espanha recaiu sobre a metrópole.

O movimento de transformação que há na capital agora começa a se multiplicar e puxar Madri para o conceito de smart city. O surgimento do Cabify por lá foi um sinal do impacto na mobilidade, por exemplo: até pouco tempo, muitos madrilenhos não tinham o hábito de andar de bicicleta ou caminhar longas distâncias; nos últimos dois anos, a cidade foi tomada por ciclovias, novas linhas de ônibus, táxis e os carros compartilhados (e muitos aplicativos e pequenas empresas estão capitaneando toda a mudança).

Um modelo ainda mais inteligente

A infraestrutura favorável à inovação vem passeando por toda a Espanha nos últimos tempos – e cidades como Barcelona e Santander, lugares que fomentam a criatividade por natureza, foram como faróis para a transformação. Agora, é Madri que mostra a todos o quanto uma cidade pode ser "mais inteligente que as cidades já inteligentes".

A capital enfrenta, sim, congestionamentos, poluição e necessidade de melhorar os serviços públicos – e, para dar mais atenção à pauta GovTech, está privilegiando as abordagens que analisam com mais empenho a coleta de dados, mas que evitam as armadilhas de uma tecnologia dissociada das pessoas. O plano é olhar a base, começar de baixo, analisar o dia a dia do cidadão e, a partir daí, reunir informações e rever as políticas.

O modelo que a prefeita Manuela Carmena vem adotando, na verdade, se baseia não em um sistema único que controle tudo: Madri apóia a diversificação. As autoridades querem, daqui por diante, criar um ecossistema de inovação, onde soluções múltiplas não apenas juntam dados, mas os disponibilizam a todos os envolvidos. E, assim, a capital espanhola inovará de novo.

 

Sobre a autora

Letícia Piccolotto é mestre em Ciências Sociais, especialista em Gestão Pública pela Harvard Kennedy School e fundadora do BrazilLAB, a única plataforma brasileira que conecta startups e governos para estimular a inovação no setor público.

Sobre o blog

Acelerar ideias e estimular uma cultura voltada para a inovação do setor público. Este é um blog para falar de empreendedores engajados em buscar soluções para os desafios mais complexos vividos pela sociedade brasileira.

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