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Agricultura urbana será essencial para alimentar as cidades inteligentes

Letícia Piccolotto

17/08/2019 04h00

Crédito: Freepik.com

Alimentar as cidades de hoje e de amanhã usando uma produção sustentável de alimentos é daquelas tarefas urgentes que temos a cumprir. Com o crescimento contínuo das populações mundiais em área urbana, a mudança climática e a pressão sobre os recursos naturais – além do combate à fome, um dos objetivos estabelecidos pela Agenda 2030 das Nações Unidas -, a alimentação torna-se um ponto crítico a considerar. Mas já existem metrópoles pensando grande nesse sentido, felizmente.

Paris é o maior e mais recente exemplo. Conforme revelou recentemente, na primavera de 2020 a capital francesa se tornará sede da maior fazenda urbana da Europa: o espaço de 14.000 m² que está em construção será gerido pelas empresas Agripolis e Culture en Ville e irá abastecer desde restaurantes até os moradores da região onde está, Porte de Versailles.

No alto do pavilhão 6 de um centro de exposições nascerá a plantação com mais de 30 espécies cultivadas –onde 1.000 quilos de frutas e vegetais serão colhidos diariamente por horticultores na alta temporada. O projeto já é visto como "um modelo global de produção responsável" (inclusive, porque promoverá cursos e workshops para os interessados em ganhar conhecimento para criar sua própria horta ou fazenda urbana).

Hoje, é importante que surjam notícias desse tipo e que tragam a sociedade para refletir. Como podemos alimentar mais pessoas em terras agrícolas limitadas? Como utilizar melhor espaços e a logística para essa população cada vez mais urbana? Como perseguir o "desperdício-zero" e tecnologias que usem melhor os recursos? É possível pensar ainda em ingredientes mais saudáveis e de preço acessível para as populações mais vulneráveis?

A agricultura urbana e vertical, quando criada e implementada adequadamente, pode ser a solução para essas questões. E, pensando na atual (e também antiga) discussão que enfrentamos sobre o uso de defensivos agrícolas, a ideia de plantar e colher dentro das cidades deve inclusive melhorar nossa segurança alimentar, já que a escala menor de produção e as técnicas e estruturas fechadas usadas em fazendas urbanas permitem uso mínimo (ou nenhum uso) de produtos para controle de pragas.

No livro "A Fazenda Vertical: Alimentando o Mundo no Século 21" (The Vertical Farm: Feeding the World in the 21st Century), os autores mencionam que, até o ano de 2050, quase 80% da população da Terra residirá em centros urbanos. Para alimentar os 3 bilhões de bocas além das que temos hoje, eles também estimam que seriam necessárias terras somando o tamanho de um Brasil. Se é impossível criar mais terras, o melhor, então, é usar diferente o que já temos.

Para garantir as refeições, estratégia

Atualmente, em todo o mundo, mais de 80% da terra adequada para a agricultura está em uso, de acordo com dados da Nasa. Para agravar ainda mais a situação, historicamente cerca de 15% disso já foi devastado por más práticas de gestão.

Baseados em todos esses dados, especialistas indicam que o futuro da agricultura será o crescimento sem solo. Hidroponia, aeroponia e irrigação por gotejamento são técnicas de cultivo interno –e que, com as políticas públicas apoiando, já poderiam estar ocupando mais os espaços urbanos. Nessas estratégias, em geral, usa-se 70% menos água. E essa é apenas uma das vantagens.

A agricultura urbana, onde já é aplicada, demonstra que é capaz de recuperar áreas carentes e revitalizar comunidades. Com a organização correta, cada acre de plantação coberta é mais produtiva do que dez acres de plantação ao ar livre –e telhados de edifícios, prédios abandonados e galpões se tornam terreno fértil para cultivar comida.

Em 2017, o BrazilLAB já lançava um desafio às startups: convidamos os empreendedores a propor formas de como a tecnologia poderia fomentar a agricultura urbana, diminuir o custo dos alimentos, gerar empregos e melhorar a nutrição da população das cidades. Uma empresa que se apresentou, nesse sentido, foi a BeGreen (startup que desenvolve e opera fazendas urbanas e que já produz de 40 mil a 60 mil pés de hortaliças por mês no terraço de um shopping em Belo Horizonte).

De lá para cá, se multiplicaram as soluções tech para essa questão –e, segundo a Agtech Garage, estima-se em 300 o número de startups que atuam no tema do agronegócio.

Na Ásia, centenas de startups vêm focando na agricultura urbana –como a Agrome.IQ (do Brunei, que cria sistemas inteligentes para administradores de fazendas desse gênero), a Agribuddy (do Camboja, que conecta produtores com comerciantes) e a Tun Yat (de Myanmar, que conecta agricultores com donos de maquinários que possam apoiar do plantio à colheita).

Todas são vistas como agentes decisivos para mudanças sociais nesses países. E faz mesmo sentido, já que a agricultura urbana e vertical é tanto um mercado a ser explorado quanto uma mudança crucial para a sobrevivência e vida plena das futuras gerações.

Errata: A imagem que abre o post foi trocada por uma de feira de alimentos. A anterior mostrava uma plantação de lótus, que destoava do assunto do texto.

Sobre a autora

Letícia Piccolotto é mestre em Ciências Sociais, especialista em Gestão Pública pela Harvard Kennedy School e fundadora do BrazilLAB, a única plataforma brasileira que conecta startups e governos para estimular a inovação no setor público.

Sobre o blog

Acelerar ideias e estimular uma cultura voltada para a inovação do setor público. Este é um blog para falar de empreendedores engajados em buscar soluções para os desafios mais complexos vividos pela sociedade brasileira.